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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Não tenho conhecimento do nome de clérigo secular algum que viesse ter ao Brasil e no Brasil ficasse, antes do ano de 1532. Neste ano, porém, fundou Martim Afonso de Sousa as duas colônias de S. Vicente e de Piratininga, e, visto que Pero Lopes de Sousa, irmão daquele, nos diz que nas duas vilas se pôs tudo em boa ordem de justiça, do que a gente toda tomou grande consolação, com verem povoar vilas e ter leis e sacrifícios, celebrar matrimônios, etc., não me resta dúvida alguma da assistência de padres nessas colônias nascentes, porque, do contrário, não se celebrariam matrimônios.

Três anos depois, começaram a chegar ao Brasil alguns e talvez não poucos padres, acompanhando os primeiros donatários ou os delegados destes, que vinham lançar os fundamentos das suas capitanias hereditárias.

Mas, preciso é confessá-lo, os padres entraram com o pé esquerdo na terra de Santa Cruz e não era muito de presumir que entrassem com o direito.

Os padres que naquela época foram chegando não deviam ser dos mais recomendáveis, nem pela sua ilustração, nem por uma grande moralidade, porque os donatários, que no reino recrutavam nas últimas camadas da sociedade a gente de que precisavam para criar os seus estabelecimentos coloniais, por certo que não teriam mui zeloso cuidado na escolha dos clérigos que fizeram vir.

E aqui chegados, esses padres, livres completamente de todo o freio da disciplina, separados do reino pelo Atlântico, misturados constantemente com a gente que tinha vindo com eles e com a gente que encontravam na nova terra, isto é, em relações contínuas quase sempre com a desmoralização e sempre com a selvatiqueza, tornaram-se em breve tempo os que eram bons em maus e os que eram maus em péssimos; em uma palavra, perverteram-se os que ainda não se achavam pervertidos, e pouco a pouco asselvajaram-se todos.

Entretanto, esta repreensível e vergonhosa situação era, não direi desculpável, mas, pelo menos, muito explicável. O batalhão clerical estava espalhado por diversos pontos, e em nenhum deles reconhecia chefe a quem obedecesse e respeitasse. Vivia em abandono e lutando com privações, não via quadros de virtude, esbarrava a cada passo diante do espetáculo dos desregramentos e dos vícios dos colonos, ou da natureza bruta e também da natureza nua do gentio.

A torrente era, pois, violenta e arrebatadora, e os padres, que são pecadores como todos os outros filhos de Adão e Eva, deixaram-se, levar uns por gosto e por fraqueza outros; de modo que em 1549, quando se organizou o governo-geral da América portuguesa, encontraram-se nas colônias existentes todos ou quase todos os padres estragados pela corrupção e divorciados da Igreja, tendo cada um deles a sua caboclinha ao lado.

Tomé de Sousa, o primeiro governador-geral, e os jesuítas que com ele chegaram em 1549 confessaram muito francamente que, no empenho da regeneração moral das colônias, foi o clero que lhes custou mais a fazer tomar o bom caminho.

O padre Nóbrega, chefe dos jesuítas, escrevia, falando da relaxação dos costumes: “Os seculares, com toda razão, tomam o exemplo dos sacerdotes, e o gentio o de todos.”

O infeliz Pedro Fernandes Sardinha, primeiro bispo do Brasil, dizia em 1552, em uma carta ao rei, tratando dos abusos dos eclesiásticos: “Nos princípios, muito mais coisas se hão de dissimular que castigar, maiormente em terra tão nova.”

Eis aqui por que eu comecei dizendo que os padres tinham entrado com o pé esquerdo na terra da Santa Cruz.

E também já nessa época a terra tinha perdido o seu nome sagrado, e recebido outro de inspiração toda mercantil. O santo madeiro levantado por Cabral em Porto Seguro estendia debalde os seus dois braços sobre a imensa colônia portuguesa. O tráfego do pau-brasil fizera esquecer a invocação da cruz. Não se adorava o Cristo, rendiam-se cultos a Pluto.

Mas tornemos aos padres.

Dizem que o oficial é quem faz o soldado. Asseguram os entendidos nas coisas militares que não há soldados maus nem covardes, quando são comandados por bons e intrépidos oficiais.

Eu creio que se pode dizer do clero o mesmo que se diz do exército.

São os bispos que fazem o clero. Desde que os bispos, além de sábios e moralizados, são zelosos, dedicados e severos, os padres vão seguindo as suas pisadas, e brilham também por sua vez pelo zelo e pela dedicação.

A criação do bispado da Bahia começou a melhorar pouco a pouco, mas sensivelmente a situação do clero; e por certo que se devia, contar com a sua desejada regeneração, se algumas lamentáveis ocorrências e um subseqüente e fatal acontecimento não viessem perturbar a obra santa de Pedro Fernandes Sardinha.

O nosso primeiro bispo intrigou-se com o governador-geral que sucedera a Tomé de Sousa, e a tal ponto se perturbaram as relações entre ambos que o bispo foi chamado a Lisboa, e como é sabido, naufragou e caiu nas mãos do gentio feroz, que o devorou sem piedade.

(continua...)

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