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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

O casamento de Guida com Ricardo efetua-se qualquer destes dias. 

O Bastos consolou-se com a sociedade que lhe deu o Soares em sua casa bancária. 

O Benício anda em uma dobadoura: da modista para o Carceler, da florista para a cocheira. Ninguém lhe encomendou cousa alguma; mas ele se julgaria desonrado se não tomasse parte ativa no grande acontecimento. 

 

FIM DO FIM 

 

 

OS SONHOS D’OURO 

 

Suscitou este livro, recentemente publicado, duas censuras ao distinto folhetista do Diário do Rio. 

Nada aproveita mais à propagação das boas letras do que seja a crítica leal e inspirada pelo sentimento artístico. A mim deleitam os certames literários. 

Argúi o ilustrado crítico de personagens estrangeiros as duas figuras principais do romance. 

“Guida, a jovem caprichosa e aristocrática, Ricardo, o homem dos devaneios e do orgulho intelectual, são tipos naturais da nossa sociedade íntima, tão franca e democrática?” Eis sob a forma da interrogação a primeira censura. 

Antes de tudo, não disse o autor que ia esboçar os seus personagens pelo prisma da vida íntima. Bem ao contrário, os apresenta ele a maior parte das vezes fora da intimidade da família, em passeio ou na convivência de pessoas estranhas. 

Feita esta observação, entro com a crítica. 

Por que razão não apresentará nossa sociedade, a mundana ou a íntima, o tipo de uma menina caprichosa e aristocrática? 

Não há capricho no Brasil? 

Aqui as rosas são, como dizia Mílton das do Éden, sem espinhos (without thorn)? 

Também será deserdada de toda superioridade esta raça brasileira, a ponto de não sentirem os espíritos elevados quaisquer assomos da aristocracia natural que não vem da linhagem, mas de alguma preeminência social, chame-se esta dinheiro, talento ou posição? 

Desconhece a vida fluminense quem negar a existência do que se chama entre nós a “alta sociedade”, embora sem o esplendor do grand monde em Paris e da high life em Londres. 

Se o ilustrado crítico chegasse à janela da sua tipografia em um dia de festa, veria passar-lhe diante dos olhos não uma, senão muitas moças mais caprichosas e aristocráticas do que a Guida. Mas onde está a aristocracia de Guida? 

Não nos diz o ilustrado crítico, e pois força-nos a conjeturar, o que será longo e fastidioso. Podia forrar-nos a esse trabalho apontando os fatos. 

Estará a aristocracia de Guida no passear na Tijuca em cavalo do Cabo? Em trazer roupão de caxemira e luvas de peau de Suède? Em Ter uma governanta e criado estrangeiro para acompanhá-la? 

Creio que a sociedade fluminense em peso protestaria contra semelhante apoucamento de nossa corte. Não é preciso ser filha de capitalista para ter semelhante tratamento. 

Talvez que o severo crítico sentisse o ressaibo de estrangeirismo no fato de trazer Guida em sua carteira uma nota de cinqüenta mil-réis para fazer com ela uma esmola disfarçada por uma travessura. 

Se ainda não desapareceu em todas as zonas da sociedade fluminense o tempo do “papai me dá um vintém”, não é menos certo que um melhor princípio de educação doméstica já condenou aquela tacanha e mesquinha inquisição familiar, que excedia-se em preparar a massa dos hipócritas, dos avaros e dos perdulários. 

É indispensável habituar um homem desde criança a lidar com esse tóxico perigoso, que se chama dinheiro; do contrário corre o inexperiente o risco de embriagar-se com ele; e essa embriaguez produz em de dous efeitos: o delirium tremens da prodigalidade, ou o idiotismo da avareza. 

Atualmente é comum das famílias ricas terem as filhas seus alfinetes, e nas pobres, quando as posses dos pais não chegam para essa verba, as moças laboriosas formam com os seus trabalhos de agulha os pequenos pecúlios, com que vão acudindo às exigências do toucador, sem a necessidade e o vexame de estarem a cada instante importunando os pais com o pedido de dinheiro para uma fita, um grampo, um crochete. (Deixem passar essa aclimação que é irmã do colchête, melhor do que crochê.) 

Que resta da inculcada aristocracia de Guida? 

Uns desperdícios feitos pela moça, que dava chocolate a comer ao seu cavalo e mandava-o lavar com vinho em vez de aguardante. 

Estas e outras extravagâncias não são ditas pelo autor, mas referidas por uma das personagens, em cujas palavras ele por certo não jura. Bastava este simples reparo para não se tomar a rigor aquelas coisas, dando ao contrário o desconto à exageração habitual dessa murmuração social que serve de tema às palestras. 

Mas prescinda-se da atenuação. Em um país onde tanto se esbanja com extravagâncias, onde homens sérios queimam centenas de contos em baboseiras, não se concebe que a filha de um banqueiro pudesse ter quejando capricho? Será necessário ir às sociedades da velha fidalguia para encontrar exemplos dessas dissipações? 

Ao contrário, o traço brasileiro está aí se revelando. Desses caprichos não se lembraria Guida se, apesar de rica, não se ocupasse com os arranjos de casa e não tivesse as chaves da despensa. Passemos a Ricardo. 

(continua...)

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