Por José de Alencar (1875)
Pouco depois completou Flor quatorze anos; e desde então um impulso natural começou a separá-la da companhia e intimidade em que até alí vivera com Jaime e Arnaldo. O instinto feminino que desenvolvia-se com a adolescência, inspirava-lhe o recato. Já não se animava a passear só pelo mato com o primo ou o colaço, nem consentia que êles a suspendessem nos braços, como faziam outrora.
Não pensava ela que houvesse algum mal nesses folguedos a que se entregava dantes com tanto prazer; mas agora causavam-lhe uma perturbação, que de certo modo ofendia a sua altivez nativa. Porisso esquivava-se às excursões e passeios, demorando-se mais ao lado de sua mãe, para fazer-lhe companhia.
Alina, que tinha gênio mais romanesco, inventava aventuras caseiras, para substituir as travessuras campestres.
Na novela ou auto da loura menina, Flor vinha a ser princesa ou rainha, cuja formosura enchia o mundo com sua fama, e cuja mão era pretendida por todos os príncipes cristãos. O mais belo, e também o mais bravo dêsses campeões, era o príncipe por excelência, representado na pessoa do sobrinho do capitão-mór.
Ora, a princesa tinha sua dama, assim como o príncipe devia ter seu pagem. Êsses dois papéis tocavam a ela Alina e a Arnaldo, parecendo-lhe de razão que os criados fiéis se reunissem como acontecia nos romances pelo mesmo sentimento que prendia os amos, de modo, que em vez de um, houvesse dois casamentos. Êste desfecho, porém, a autora não o divulgava, deixando que o fio dos acontecimentos o inspirasse.
Tal era o quadro da novela imaginada por Alina. Teve, porém, de sofrer duas alterações. Flor não admitiu Jaime como pretendente à sua mão e assinou-lhe o papel de príncipe irmão. Quanto a Arnaldo era um pagem sempre ausente, em recados, e que só figurava na imaginação da órfã. O vaqueirinho ignorava completamente o romance de Alina, e vindo a sabê-lo, é de crer que não tolerasse o papel subalterno que lhe haviam distribuído, além de comprazer-lhe mais a solidão da floresta do que o terreiro de casa.
Era aos domingos que se faziam as representações da novela, sempre dirigidas por Alina. Em uma dessas condescendeu Flor com os rogos da companheira, e consentiu figurar de noiva. Inprovisou-se então um oratório; arvorou-se uma rapariguinha em padre, vestindo-se-lhe uma saia preta atada ao pescoço, e começou a cerimônia.
Apresentou-se D. Jaime, como campeão vencedor em um torneio imaginário; exaltou suas proezas e a formosura de D. Flor. Depois do que, oferecendo o braço à princesa, avançaram os dois com passo de procissão. Alina, como dama da princesa, carregava a cauda de seu manto real; seguiam-se uma guarda de honra composta de uns seis meninos montados em cavalos de talos de carnaúbas, armados com espadas de taquara, e um bando de crianças de todas as côres e tamanhos, crias da fazenda, endomingados especialmente para essa festa. No coice vinha a velha Filipa fazendo mil visagens.
O préstito devia dar duas voltas ao terreiro para dirigir-se ao altar. Ao começar a segunda, apareceu Arnaldo, que trazia um casal de jaçanãs para Flor. Dando com a procissão parou surpreso, e compreendeu logo a natureza do brinquedo, que os outros aliás trataram logo de explicar.
Esteve o menino uns instantes perplexo; de repente saltou sôbre Jaime, separou-o de Flor, atirou com êle no chão arrancando-lhe as fitas de que vinha enfeitado; correu depois ao altar que deixou em destrôço; e sumiu-se.
Passou fora oito dias.
Foi dessa vez que, vagando pelo campo do lado do Riacho do Sangue, encontrou atirado ao chão um homem nos últimos arrancos.
Arnaldo perguntou-lhe o que tinha:
— Sede! respondeu o morimbundo com a voz extinta.
Cortou o menino uma haste de mandacarú, e tirando os espinhos, espremeu-a na bôca do desconhecido, para aplacar o maior ardor, enquanto ia à busca de uma cacimba, pois era pela sêca e os rios já tinham desaparecido.
Reparou então o menino que o velho tinha as mãos atadas às costas:
— Quem o amarrou?
— Eu mesmo.
Ao gesto de espanto de Arnaldo, acrescentou:
— Eu queria morrer. Mas é horrível!…
Resolvido a deixar-se morrer, o velho armara um laço, cruzara os pulsos nas costas, e metendo-os na corda, fizera disparar o nó que lhe atara as mãos.
Assim, ainda quando quisesse buscar água para matar a sede, não poderia. Condenara-se à mais atroz das mortes, e já tinha sofrido terrível suplício quando o menino o encontrou.
Arnaldo salvou o infeliz e o persuadiu a acompanhá-lo. Jó, pois era êle, sentira desde logo uma atração irresistível para êsse menino; sua existência, que nada já prendia à terra, achara alí um elo misterioso. Deixou-se conduzir e governar por aquela criança.
O vaqueirinho levou Jó à casa materna. A Justa agasalhou o velho, enquanto o filho construia para seu amigo a cabana da várzea. Nunca soube-se na Oiticica donde viera êsse desconhecido; dele apenas se obteve esta informação vaga:
— Eu tinha uma cabana no Frade; os malditos puseram-lhe fogo para queimar-me vivo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.