Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Nunca me acho só nessas horas; embaixo, no jardim, os favônios conversam com as flores ao mesmo tempo que eu falo com o meu coração.
As flores respondem aos favônios com a exalação de seus perfumes, como o coração me responde com as suas saudades.
É assim que passo as noites; os dias são muito tristes, porque já perdi meus antigos prazeres.
Nem mesmo a música me agrada... se vou tocar, paro no meio de uma harmonia para embeber-me toda em um pensamento, que ela desafia.
Não posso cantar... quase sempre choro. Agora, por exemplo, seria ocasião de ir ouvir o velho Rodrigues cantar suas velhas baladas; era a hora da sesta. Não irei.
Mas... lá soa a sua voz; ele canta...
É o romance do botão de rosa...
Eu vou...
XII
Já compreendi tudo.
A intriga me separa do homem que amo; a calúnia me nodoa... tudo está revelado.
Minha tia fez crer ao modesto mancebo que o seu amor me afligia; que eu supunha a minha reputação em perigo; que ele era pobre e por isso indigno de mim.
Fecharam em meu nome as portas do “Céu cor-de-rosa” no rosto do nobre mancebo. Oh! como não terá ele amaldiçoado a primeira hora em que me viu!
Todavia... antes assim...
Não sei quais sejam os desígnios de minha tia; agora, porém, sinto-me com forças de assoberbar a tempestade. Sequem as minhas lágrimas.
Caluniam-me?... querem separar-me dele por meio da intriga?... pois bem; direi bem alto que o amo, quero que todos ouçam – eu o amo!
Amo-o tanto como amei já as meiguices de minha mãe, e a bênção de meu pai, e como amo ainda agora a memória de ambos.
É um amor puro e santo, que sai do âmago do coração, como um pensamento sai do seio da alma.
É um amor puro e santo que embeleza a minha vida, como a aurora que se vai sorrindo no céu, como um sorriso que se vai abrindo nos lábios!...
Oh! volta, meu amado, volta!
Volta, para que eu seja outra vez como uma flor que se desabotoa...
Volta, para que eu não seja por mais tempo como a pomba que geme solitária. Volta!... eu te amo.
***
Quando o mancebo terminou a leitura da história do amor da “Bela Órfã”, sentiu que uma revolução profunda e completa se havia operado em todos os seus sentimentos.
A paixão prorrompia de novo, o fogo mal amortecido pela intriga flamejava com dobrado ímpeto.
Os olhos de Cândido brilhavam, suas faces pálidas estavam enrubescidas, e seus lábios se dilatavam e sorriam ante o aspecto da felicidade.
Beijou mil vezes aquelas páginas, que guardavam os pensamentos, e por onde haviam deslizado os delicados dedos da “Bela Órfã”; apertou-as contra o coração exclamando:
– Eu sou feliz!... eu venço o meu destino!...
Lançou mão da pena e começou a escrever com o ardor e o interesse de um poeta apaixonado.
O que escrevia ele?
Ao romper do dia Cândido achava-se adormecido junto da mesa onde escrevera.
Despertou de repente ao zunido do vento.
Começava a bramir uma tempestade... o céu estava escuro; a chuva prestes a cair.
Cândido viu então os seus papéis desordenadamente espalhados pelo chão; alguns rolavam já pela escadinha do velho sótão; correu a apanhá-los e a pô-los em ordem.
Achou todos, achou mesmo toda completa a história do amor da “Bela Órfã”. Mas não achou o que ele havia escrito na noite que acabava de terminar.
CAPÍTULO XXXI
EU O EXIJO! – SENÃO...
AO TEMPO que o amor de Cândido e da “Bela Órfã” vacilava entre dúvidas, e ia vivendo a vida de todos os primeiros amores, ora animando-se com um sorrir de esperança, ora estremecendo diante de uma quimera, de um receio, ou de um fraco contratempo, caminhava o amor de Henrique e de Mariana ao seu desejado termo.
Poucos dias faltavam para que viesse o himeneu coroar aquela constância com que se haviam sabido amar os dois.
Aproximava-se a noite do dia em que o jovem do “Purgatório-trigueiro” despertara ao bramir da tempestade.
Sucedera a uma manhã feia e borrascosa uma tarde amena, fresca e bela. O céu estava claro, a atmosfera leve, a natureza em horas de magia.
Mariana achava-se só na sala do “Céu cor-de-rosa”; Anacleto saíra; Celina tinha ido despedir-se do dia entre as flores do seu jardim.
Meio deitada no sofá, em voluptuoso abandono, com os olhos quase completamente cerrados, com os lábios levemente dilatados pelo mais gracioso dos sorrisos, a interessante viúva contemplava em sua imaginação o quadro da ardente felicidade que a esperava; fruía de antemão todos os prazeres, todas as delícias com que durante tão longos anos debalde sonhara.
Seu mundo estava ali... dentro dela; dentro dela, em sua imaginação, reunia em belo grupo todos os entes que amava; conversava com eles, sorria para seu pai, recostada ao seio de Henrique.
Nem uma só nuvenzinha escura naquele imenso céu belo e sereno que estava criando; era uma dessas horas mágicas, que em vão se procura nos dias que se passa na terra, horas que se vive meio-dormindo, meio-acordado, quando se está só, e se está sonhando...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.