Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Ai!... já sei donde vem esta embrulhada!... você, senhora mana Rosa, era capaz de levantar três dúzias de aleives a D. Honorina pela inveja que dela tem; mas no que acaba de dizer conhece-se o dedo do gigante!... por isso o tal brejeiro escamou-se daqui apenas me viu chegar; porém, deixe-o estar, que há de pagá-lo com língua de palmo: quer saber de uma coisa?...
— O que é? diga.
— A primeira vez que encontrar o Sr. Brás-mimoso, corto-lhe as orelhas.
— Não foi ele...
— Foi!...
— Juro que não foi ele.
— Quer fosse, quer não; tenho sede naquele atrevidaço... ainda mais agora, que me asseguram tentar também o tal sujeito a deputação provincial!
— Manduca, eu hei de dizer a minha mãe.
— Pode fazê-lo... ou é melhor que vá eu mesmo assegurar-lhe as minhas últimas determinações.
Isto dizendo, Manduca atirou-se para a sala, sendo imediatamente seguido por sua mana Rosa.
Como fizemos notar, Venâncio não tinha reparado no carão assustador de Tomásia, e, por isso, sentando-se junto dela, começava por dar conta de todos os meios empregados a fim de ganhar votação para o jovem candidato; depois a sua má sina o foi empurrando para a fogueira em que tinha de arder, de modo que Venâncio concluiu, dizendo:
— Agora só me falta ir falar ao Sr. Hugo de Mendonça; tem relações com muita gente dos colégios da serra... e pode alcançar-nos boa votação: oh! há de dar-nos uma carga cerrada...
— Sim... sim... disse Tomásia com terrível sorriso; uma carga cerrada... é o que se precisa!
— Tu, minha Tomásia, podes bem dispor a nossa boa D. Honorina em prol do querido
Manuelzinho... ela te estima tanto!...
— E a ti não menos; não é assim?... D. Honorina é tão agradável!...
— É verdade!... tão agradável!...
— Interessante!... disse Tomásia levantando a voz.
— Interessante!... repetiu Venâncio procurando imitar o fogo com que falava sua mulher.
— Bonita!... linda!...
— Bonita!... linda!... exclamou Venâncio.
— Chega mesmo a ser encantadora!...
— Mesmo a ser encantadora!... disse o velho com entusiasmo.
— É um anjo!...
— Um anjo do céu, Tomásia!...
— Eu a amo mesmo como se fosse minha filha!...
— E eu, Tomásia!... e eu!...
— E então tu a amas também muito?...
— Oh!... pouco mais ou menos como tu mesma.
— E por que te não diriges antes a ela, do que a seu pai, para falares sobre a eleição?...
— Eu... porque... não me tinha lembrado...
— D. Honorina pode empenhar-se com o pai...
— É verdade!... que juízo que tu tens, Tomásia!
— Por conseqüência...
— Achas que devo ir falar a D. Honorina?...
— Sem dúvida...
— E quando, Tomásia?...
— O mais cedo possível.
— Agora, por exemplo?...
— Sim; podes jantar com ela: não gostas da sua companhia?...
— Muito, Tomásia!...
— A gente não se lembra de mais nada no mundo; não é assim, Venâncio!
— Ora... pois se ela é tão feiticeira!...
— Então, Venâncio, vai... vai já...
— Pois sim... até logo, Tomásia.
Venâncio levantou-se, e, tomando o chapéu, ia cheio de prazer pelas boas maneiras com que o tratava sua formidável esposa; quando ao chegar à porta, sentiu-se agarrado pelas abas da casaca e sofreu tão terrível arrancada, que foi parar no meio da sala, fazendo a pirueta mais brilhante do mundo.
— Passa para ali, grandíssimo insolente!... bradou Tomásia.
Venâncio abriu a boca para soltar um grito de admiração; mas, como arregalasse os olhos e visse uma das abas de sua casaca nas mãos de Tomásia, exclamou dolorosamente:
— A melhor aba da minha casaca nova!...
E, enquanto Tomásia pálida, trêmula e fora de si, queria, procurava e não achava palavras assaz fortes para exprimir o furor de que se sentia acendida, Venâncio em piedosa contemplação diante da aba de sua casaca, tinha pronunciado como automaticamente, três vezes:
— A melhor aba da minha casaca nova!...
— Ó miserável!... ó tolo!... ó vil!... disse tremendo de raiva Tomásia.
— Serei tudo quanto a senhora quiser, respondeu Venâncio afastando-se prudentemente; mas juro que não a entendo, e ainda que a entendesse, não sei que culpa teve a minha casaca nova...
Tomásia não o deixou concluir: fazendo um rolo da aba da casaca, atirou-o contra o marido; e acertou-lhe em cheio sobre o nariz.
Já dissemos uma vez que Venâncio amava o seu nariz sobre todas as coisas.
— A senhora não se pode nunca enraivecer, que não implique com o meu nariz!... exclamou ele.
— Miserável! miserável! miserável!...
— Que o sou, sei-o eu há mais de vinte anos, senhora!
— Depois de velho, de torpe... depois de ser capaz de causar nojo a todo mundo, dar em namorador!...
— Eu?! bradou Venâncio, fazendo uma terrível careta.
— Tentaria, sem dúvida envenenar-me a ver se casava com ela.
— Casar-me?... oh, Sr.ª Tomásia, falando sério, se eu tivesse a felicidade de ficar viúvo, não me casava nem com uma santa!...
— Pois hei de viver!... hei de viver!... e hei de viver!...
— Obrigado... obrigado... irei assim ganhando mais direitos ao reino do céu.
— Hei de persegui-lo!... maltratá-lo!... martirizá-lo!...
— Isso não me faz mossa... já estou habituado.
— Sou capaz de fugir-lhe de casa!...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.