Por Inglês de Sousa (1891)
O coletor, isolado, cismava, olhando vagamente para o largo tranqüilo, em que vinham boiando, quase sem esforço de remo, duas ou três montarias de pesca que se recolhiam ao porto. A vista do lago recordava-lhe o tempo passado sob os castanheiros frondosos, à margem dos rios sertanejos, na delícia do viver alegre e despreocupado, passando os dias na colheita, a regalar-se de castanhas e de peixe fresco, de ovos de tartaruga desenterrados da areia com alvoroço de criança, as noites nas festas ruidosas dos lundus e dos cateretês que iam até ao amanhecer, ao som dos instrumentos primitivos dos tapuios, ao perfume irritante da aguardente de mandioca e da catinga das mulatas, enquanto a família dormia em alvas redes de linho, nas barracas improvisadas, cansada de vagabundear na extensão das praias em busca de ovos de garças e de maguaris.
Mas quando relanceava os olhos sobre o seu quarteirão deserto, a falta do Valadão, do João Carlos, do Natividade e do Pereira desfazia de pronto a impressão agradável que aquela recordação lhe dava, e um grande pesar lhe vinha de ter cedido inconsideradamente ao gosto pela pândega dos castanhais e, sobretudo, de se ter lá deixado ficar tanto tempo. Fora para passar o S. João, satisfazendo o pedido da mulher que morria por gozar a festa nas praias, longe das cerimônias e incômodos a que a obrigava a posição do marido em Silves. Passara-se o S. João, viera o S. Pedro, depois o dia de Santana, e dois longos meses se haviam esgotado sem que o coletor, esquecido dos árduos deveres que lhe incumbiam, pensasse em outra coisa senão em colher castanhas para o Elias e em pagodear com as caboclas à beira do rio, vingando-se fartamente do constrangimento da sobrecasaca de lustrina e dos sapatos ingleses que lhe impunha a etiqueta da vila, pelo menos quando fazia visitas e principalmente aos domingos.
Ainda lá estaria decerto, pensava, com um sorriso, se de repente a senhora D. Cirila não se tomasse de ciúmes por uma mulatinha faceira, que lhe freqüentava a barraca, e lhe comia em contas e chitas o melhor do lucro das castanhas. Mas para ter as notícias que recebera ao chegar, antes não houvesse voltado, ou melhor, nunca lá tivesse ido. Fizera sempre muito bom juízo do Pereira, esse rapaz que lhe parecia de bons costumes, e a quem deixara o encargo de o substituir na coletoria dando-lhe dinheiro a ganhar... Pois fora esse mesmo Pereira o principal causador dos dissabores que estava sofrendo. De ingratos andava o mundo cheio!
O capitão sacudira a cinza do cachimbo, renovara o tabaco e acendera-o, e depois que observara que nem o Valadão, nem o João Carlos, nem o Natividade aparecia, pusera-se de novo a ruminar os graves acontecimentos que se haviam dado na sua vida depois que fora aos castanhais. A traição do escrivão José Antônio Pereira pesava-lhe sobre o coração, não porque se arreceasse da influência daquele lagalhé, que ele tirara do tijuco em que vivia para dar-lhe emprego e importância, mas porque as circunstâncias da política favoreciam extraordinariamente as intrigas urdidas contra o coletor por um patife, que pretendia tirar-lhe o emprego, para locupletar-se com ele, dilapidando provavelmente as rendas públicas. Não fossem essas circunstâncias excepcionais, e bem se importaria o capitão Manuel Mendes da Fonseca com as infâmias do tal escrivãozinho das dúzias!
Mas, enquanto o coletor gozava a sua licença, e mesmo, a excedia alguma coisa, à sombra dos castanheiros, o presidente da província do Amazonas deixara a administração sem aviso prévio, e sucedera-lhe interinamente um cônego, que o gabinete Paranhos esquecera na lista dos vice-presidentes, em segundo ou terceiro lugar, e que, por mal dos pecados, era um católico ardente e ativo depositário da confiança da panelinha da Boa nova, o jornal que atiçava a questão religiosa na diocese do Grão-Pará.
O presidente resignatário passara por Silves muito zangado com o governo, que o não satisfizera numas tantas coisas, e que para vingar-se passara a administração ao cônego Marcelino, que mostraria aos amigos do gabinete de que pau era a canoa. Até que chegasse a notícia ao Rio de Janeiro e o ministério pudesse pôr na presidência um dos seus amigos do peito, seriam precisos três meses bons, e isso mesmo se o João Alfredo, atrapalhado com as Câmaras, não se descuidasse da longínqua província que só lhe servia para dar ao governo dois deputados da maioria. Ora, em dois meses padre Marcelino tinha tempo de sobra para reagir contra os que se julgavam obrigados, na qualidade de amigos da situação, a fazer praça de liberalismo, falando mal dos padres e defendendo a maçonaria. Padre Marcelino era cabeçudo, sem entranhas, de poucas brincadeiras, e tinha ódio mortal a tudo que era ou lhe parecia maçom. E o patife do Pereira não se lembrara de escrever para Manaus que o capitão Fonseca era maçom, amigo do Chico Fidêncio e assinante do Democrata?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.