Por Aluísio Azevedo (1881)
— Se tiver peixe, fico! disse, autorizada pelo cheiro ativo de azeite frito, que vinha da cozinha.
— Então, titia Amância, saiba que temos e muito bom! observou Lindoca, bamboleando-se pela varanda.
— Ó menina! gritou-lhe a velha, onde queres ir tu com toda essa gordura? Já basta! Apre!
— Não irá muito longe, disse o Freitas, sempre risonho, cansaria depressa...
— Olhe, veja, reclamou a moça, fazendo parar a escrava, que passava com a terrina do peixe. Está convidando! Quentinho que é um fogo!
— Ai, filha! é a minha paixão! Um peixinho bem preparado, quentinho, com farinha-d'água! Mas, olha, bradou para a criada, e levantou-se logo, não o deites aí, rapariga, que o gato e muito capaz de pregarmos alguma peça... Bota antes neste armário!
E, como se estivesse na própria casa, tomou a terrinha e acondicionou-a em uma das prateleiras. “Não havia que fiar em gatos!... Eles eram necessários por mor dos ratos, mas que canseira seu Bom Jesus! Ind'estrodia o seu Peralta fora-lhe ao guarda-petiscos e... nem dizia nada! unhara-lhe a carne-de-sol, que havia para o almoço, porque ela estava de purga Forte ladrão! também, dera-lhe uma mela, que o pusera assim!...”
E Amância, procurando mostrar como ficara o gato arreganhou uns restos de dentadura acavalada e espichou as peles do pescoço
Passava já das três da tarde. Os empregados públicos saíam da repartição, procurando a sombra, cora o seu passo metódico e inalterável, o chapéu-de-sol dependurado do braço esquerdo, corno de um cabide, o ar descansado e indiferente dos homens pagos por mês, que nunca se apressam, que nunca precisam de se apressar.
Começava a soprar a viração da tarde, e o tempo refrescava.
Lindoca, com grande entremecimento do assoalho, arrastou-se até à janela, para ver passar o Dudu Costa Dudu era um da Alfândega, que lhe arrastava a asa, rapaz sério, sequinho de carnes, bem arranjado e com muito jeito para o casamento. O Freitas olhava com bons olhos este namoro, e só esperava que o moço tivesse nesse mesmo ano um acesso na repartição havia lá um empregado superior muito doente, que, sem dúvida, bateria o cachimbo por todos aqueles três meses, e, como Dudu tinha um amigo, cujo pai dispunha de bons empenhos para o presidente, dava corno certa a sua nomeação, tão certa que pensava já no enxoval do casamento, punha de parte alguma coisa do ordenado e convidava os amigos mais íntimos para o grande dia da amarração. De tudo isto o Freitas andava a par. 'Diabo era só aquela maldita gordura da menina, que aumentava todos os dias e estava fazendo dela um odre!”
— Ora queira Deus não seja alguma praga!... observava Amância :. Há muita gente invejosa neste mundo, minha rica!
— Minha senhora, “o casamento e a mortalha no céu se talham! citou o grande homem, sacrificando a rima à boa concordância gramaticalmente.
Por essas mesmas horas, topavam-se numa esquina . Sebastião Campos e o Casusa.
— 0lá! por cá, seu Susa?
— Como vai isso?
— Ora! você não faz idéia! desquerido de dor de dentes. Este diabo não me deixa pôr pé em ramo verde!
E Sebastião escancarou a boca, para mostrar um queixal ao amigo.
— Andaço! resmungou este. Dê cá um cigarro
Sebastião passou-lhe prontamente a enorme bolsa de borracha amarela e o caderninho de mortalhas de papei.
— Então que há de novo por aí? perguntou.
— Tudo velho... Você vai se chegando pra casa..
— Hum-hum, afirmou o Campos com a garganta. Chegou o vapor do Pará?
— Chegou; sai amanhã para o Sul às nove. E verdade! o Mundico vai nele, sabe?
— É! Ouvi dizer que tinha brigado com o Pescada.
— Brigou, hein?...
— Diz que por causa de dinheiro, que Raimundo pedira-lhe certa quantia emprestada, e, como o outro negara, disparatou!
— Homem! não sei se pediu dinheiro, mas a filha sei, por fonte limpa, que pediu!
— E o galego?
— Negou-a! diz que porque o outro e mulato!
— Sim, em parte... aprovou Sebastião
— Ora, deixe disso, seu Campos! Não sei se é porque não tenho irmãs, mas o que lhe asseguro é que preferia o doutor Raimundo da Silva a qualquer desses chouriços da Praia Grande.
— Não! lá isso é que não Preto é preto! branco é branco! Nada de confusões!
— Digo-lhe então mais! asneira seria a dele se amarrasse, porque o cabra é atilado às direitas!
— Sim, isso faria... confirmou o Campos entretido a quebrar a caliça da parede com a biqueira do chapéu-de-sol. Aquilo esta se perdendo por cá... é homem para uma cidade grande!.. Olhe, ele talvez faça futuro no Rio... Você lembra-se do...?
— E segredou um nome ao ouvido do Casusa.
— Ora! como não? Muita vez dei-lhe aos cinco e aos dez tostões para comer, coitado! E hoje, hein?
— É! Foi feliz... mas, quer que lhe diga? não acredito lá essas coisas no futuro deste por causa daquelas idéias de repúblicas... porque, convençam-se por uma vez de uma coisa! a república é muito bonita, é muito boa sim senhor! porém não é ainda para os nossos beiços! A república aqui vinha dar em anarquia!...
— Você exagera, seu Sebastião
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.