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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Pelo incoerente prisma do sonho, o concurso acadêmico amesquinhava-se às ridículas proporções do exame de primeiras letras. Era a mesma salinha do mestreescola, a mesma banca de paparaúba manchada de tinta, o mesmo fanhoso Sotero dos Reis presidindo a mesa, João Coqueiro, o Paiva e o Simões, vestidos de menino, fitavam o examinando com um petulante riso de escárnio. Amâncio sentia corre-lhe o suor por todo o corpo e agulhas invisíveis penetrarem-no até à medula. O professor, transformado em juiz e ostentando as feições do falecido Vasconcelos, inquiria-o com asperezas de senhor; mas as suas perguntas, em vez de concernirem às matérias do ato, só se referiam a Amélia.

— Por que matou você a pobre menina?! Bramia o pai cravando-lhe olhares de fogo: — Responda, seu canalha! Responda! Ah! Pensa que ainda não sei de que você, para melhor a seduzir, lhe havia prometido casamento e jurado olhar sempre para ela, seu cachorro?!

O Coqueiro ,lá do canto, sacudia a cabeça afirmativamente e enviava a Amâncio caretas de vingança. Ao lado deste, o cadáver de Amélia fazia-se todo vermelho com o sangue que lhe gotejava golpeava de golpejava de um dos seios rasgados de alto a baixo

O réu queria responder, justificar-se, expor a verdade; eram, porém, baldados os seus esforços: não consegui articular uma palavra; gelatinava-se-lhe a voz. na garganta ,empacando-lhe a fala.

— Bem! Gritou o velho Vasconcelos à meia dúzia de soldados que escoltavam Amâncio. — Conduzam esse miserável ao cepo e cortem-lhe a cabeça!

O estudante atirou-se de joelhos, com as mãos postas, chorando, suplicando que o não matassem. mas os soldados apoderaram-se dele com violência e ataramlhe os braços. O Juiz, Coqueiro, Simões, o Paiva, sumiram-se de repente, soltando gargalhadas. Amâncio foi conduzido por um corredor muito escuro e apertado; os soldados, quando o percebiam vacilar, batiam-lhe no ombro com a coronha das espingardas. Chegou a um pátio lajeado e úmido, onde milhares de homens armados formavam alas; no centro, sobre um toro de madeira conspurcada de sangue, reluzia um machado à sua espera; e, de joelhos, abraçado a um crucifixo,

um padre velho, de longos cabelos brancos, engrolava latins Fizeram silêncio.

No meio das respirações abafadas, só se ouviam os passos trôpegos e o aflitivo resfolegar do condenado que, à ponta de baioneta, subia os degraus do cadafalso.

Veio o carrasco, despiu-lhe a camisa, tosou-lhe os cabelos, e empunhou o ferro.

Amâncio não se resolvia a entregar o pescoço, mas o velho Vasconcelos, que surgira por detrás dele, atirou-lhe um murro à nuca e fê-lo cair de bruços contra o cepo.

Então, para lhe abafar os gemidos, romperam todos os soldados num rufo estridente de tambores.

Amâncio sentiu o aço frio entrar-lhe na carne do toutiço, espipar o sangue, e o corpo, de um salto, arrojar-se às lajes.

* * *

Havia saltado, com efeito, mas da cama. E o despertador, que ficara de véspera com toda a corda para as seis da manhã, continuava o rufo penetrante dos tambores.

O estudante abriu os olhos e passou em sobressalto a mão pela testa; os dedos voltaram ensopados de suor.

Com a perceptibilidade das coisas foi aos poucos saindo daquele estado de excitação, mas voltando lentamente à taciturna agonia da véspera.

Vestiu-se quase sem consciência do que fazia; esqueceu-se até de escovar os dentes, porque, mal voltou a si, correu aos livros, sem aliás, conseguir firmar a atenção sobre coisa alguma.

E Amâncio tremia todo só com a idéia de sua inabilidade. À medida que as horas se esgotavam e o momento fatal se lhe antepunha, um langor covarde e mulheril crescia dentro dele, produzindo-lhe arrepios que principiavam na ponta dos pés e iam-se estendendo pela espinha dorsal, até lhe interessar a cabeça, depois de percorrer as regiões abdominais.

Mas embaixo, na varanda, em presença de Amélia e Mme. Brizard, fazia-se forte, a despeito da palidez que lhe alterava as feições. Nem de leve falou nos sonhos dessa noite, e o Coqueiro, a título de metê-lo em brios, contou várias anedotas de examinandos ridículos.

Os dois tomaram café e por fim saíram. O trajeto de casa à escola foi um martírio para Amâncio, afigurava-se-lhe, como no sonho, que se dirigia ao patíbulo.

Chegou às dez horas. Alguns companheiros de ato já lá estacionavam em magotes de quatro e cinco pelos corredores ou à porta da secretaria; fumavam-se cigarros consecutivos, discreteavam-se os assuntos da ocasião. Amâncio cumprimentou os conhecidos, parando aqui e ali falando sobre os pontos do exame; — qual preferia que saísse, em qual se presumia menos fraco e capaz de fazer figura.

Agora, sim, estava mais animado; a presença dos colegas o robustecia com um vago espírito de coletividade. Sentia-se maios forte e resoluto ao lado dos companheiros de perigo, como se a vitória dependesse do número de combatentes.

(continua...)

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