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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Tinha êle meses antes descoberto no sopé da colina em que estava construída a casaria da herdade, um profundo socavão, formado pelo enxurro das águas. A primeira vez que rompendo a balsa, descobriu essa cova, deu-lhe curiosidade de conhecê-la e penetrou dentro. 

Era uma galeria subterrânea, que subia em ladeira atá às grossas raízes de uma árvore secular, entre as quais ficava uma pequena abóbada esclarecida por um óculo superior. Reconheceu Arnaldo naquela árvore a oiticica do terreiro e compreendeu como se havia formado o corredor subterrâneo. 

Um dos três estipes em que se dividira desde a raiz o tronco da árvore secular, brocado pelo cupim, ficara reduzido ao córtice, que entretanto ainda absorvia bastante seiva para nutrir os ramos superiores. As chuvas enchiam êsse grosso tubo que fazia o efeito de uma calha ou bica, e ia despejar no seio da terra a sua corrente. A erosão das águas, buscando uma saída, havia minado o solo e formado a galeria, pela qual só agachado podia um homem passar. 

Lembrou-se Arnaldo, que a meio do corredor ouvira o eco de vozeria que lhe pareceu dos acostados e bandeiristas; do que induziu que estava embaixo do quartel. Foi essa lembrança que o levou naquela tarde a examinar de novo a galeria e estudar a sua direção. 

Verificou sua primeira suspeita. O corredor passava por baixo do quartel e ao lado do calabouço. Cavando uns palmos à sua esquerda, deu com a muralha da cisterna, e sem mais demora começou a arrancar a argamassa com a ponta da faca e a tirar os tijolos. 

À meia-noite estava concluído o seu trabalho e feita a brecha. Mal tirara o último tijolo sentiu um sôpro nas faces e o contacto de uma mão forte, como a garra de uma onça. Anhamum ouvira o rumor, percebera a natureza do trabalho, e sem compreender a quem devia a salvação esperou-a. 

Arnaldo conduziu o selvagem fora da caverna sem trocar uma palavra, alí apontou-lhe a floresta, pronunciando uma palavra tupí:  

— Taigoara! 

O rapazinho não sabia a língua dos selvagens; mas retivera algumas palavras e uma delas era essa, que significa livre. 

O selvagem com um ente de seu colar de guerra sarjou a pele, fazendo uma marca simbólica por cima do peito esquerdo, e afastou-se proferindo uma palavra cujo sentido Arnaldo ignorava. 

— Coapara. 

Só depois veio a saber o rapaz que êsse vocábulo traduzia-se em português por camarada, mas queria dizer tanto como amigo dedicado. 

No dia seguinte, Flor apareceu triste, com pena do selvagem que supunha condenado a morrer. Arnaldo para desvanecer essa mágoa contou em segrêdo à menina que êle tinha livrado o chefe dos Jucás da prisão. 

Poucas horas depois descobriu-se a evasão que deixou tonto por muitos dias ao nosso amigo Moirão. Desde então deu êle por provado que Anhamum era de fato irmão do diabo; do que duvidara até alí por não lhe constar que Satanaz, o verdadeiro, fosse caboclo. 

Não se explicava a evasão do selvagem. O alçapão não fôra aberto; Aleixo Vargas dormira em cima; a cisterna estava intacta; somente notou-se que a argamassa de um lado estava fresca; mas atribui-se à umidade. 

O capitão-mór estava no auge da sua ira sempre formidável, e embora repelisse a idéia de atrever-se alguém a auxiliar a fuga do selvagem, protestava, se tal coisa houvesse acontecido, condenar o criminoso a ser enterrado vivo. 

No meio das indagações que fazia o potentado, apareceu D. Flor, que ouvindo falar do acontecimento, exclamou: 

— Eu sei quem foi! 

— Quem deu escapula ao gentio? perguntou o capitão-mór. 

— Sim, meu pai. Foi Arnaldo. 

O capitão-mór ouvindo êsse nome voltou-se com um senho terrível para o rapazinho também alí presente: 

— É verdade! disse o filho do Louredo tranquilamente. 

Flor não medira o alcance de suas palavras. Maravilhada com o heroísmo de seu camarada, cuidou que os outros o admiravam como ela, e quis restituir a glória da proeza a seu desconhecido autor. 

O capitão-mór desprendera o seu grosso e pesado riso. 

— Então foste tu, pirralho?… Ora já viram! 

— Não foi êle não, meu pai! acudiu Flor, que havia caído em si. Eu estava brincando! 

— Que não foi êle, bem o sei, e ainda bem, que essa graça lhe custaria a pele e os ossos. 

Fôra o prodigioso da emprêsa que salvara Arnaldo. Se para um homem forte já a consideravam desmarcada, como acreditar que a praticasse um menino? 

Arnaldo não dirigiu a Flor a menor exprobração. Foi a menina que, desvanecido o susto, aproximou-se dele prara dizer-lhe em segrêdo: 

— Você ia morrendo por minha causa, Arnaldo. 

O rapazinho fitou nela os olhos. 

— E por quem hei de eu morrer, Flor? 

A menina corou e esteve todo êsse dia preocupada. 

Por essa época morreu o Louredo. Tinha êle feito uma pequena ausência na fazenda; na volta deitou-se como de costume em sua rede, embrulhou-se nela e no dia seguinte acharamnomorto. 

Arnaldo sofreu profundamente com êste golpe. Todos os sentimentos dêsse menino tinham a pujança e energia de sua organização, o amor como o ódio, a ternura como a ira, eram nele paixões violentas, veradeiras irrupções d’alma. 

(continua...)

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