Por Inglês de Sousa (1891)
Demais naquele supremo momento um desânimo profundo apoderou-se do seu coração. Como por encanto, desaparecera o entusiasmo ardente que o animara ainda havia poucos instantes. Enquanto os índios se esforçavam por aproximar-se dele, padre Antônio concentrava numa emoção profunda toda a agra tristeza da sua mocidade perdida, as saudades de sua meninice feliz e descuidada, as suas aspirações de mancebo, os sonhos de ventura e de glória, o negro desespero duma irremediável desgraça.
Como os arbustos derrubados pelos terçados indígenas, as suas ilusões caiam de súbito. Ia desaparecer para sempre da face da terra quem tanto soubera sentir os carinhos dessa mãe extremosa, e com tanto ardor amara o sol, as árvores, os passarinhos, a grande natureza virgem. Morreria às mãos de estúpidos selvagens quem se conhecera fadado para uma carreira brilhante, para deslumbrar o mundo com o brilho do talento e de virtudes raras! Nem ao menos teria tempo de chorar, como a filha de Jefté, a sua virgindade inútil! E o passamento desconhecido e inglório nenhum lustre daria ao seu nome, para sempre sepultado, com o corpo vigoroso e jovem, naquele inculto sertão, só visitado de feras e de índios boçais, que viriam tripudiar sobre o cadáver, talvez despedaçado sem reverência para servir de odioso troféu! Era triste sentir-se cheio de vida, de saúde e de força, tão perto da morte; e terrível era vê-la aproximar-se lentamente, certa e inevitável, sem que o alento duma esperança permitisse conservar uma ilusão. A realidade tremenda, esmagadora, estava ali naqueles braços nus, naqueles terçados finos, faiscando à luz do sol, como para dizerem brutalmente a evidência do seu fatal destino.
Um terror que ia crescendo e se definindo pouco a pouco invadia-lhe o coração. A dúvida mordia-o como uma serpente, causando-lhe um calafrio que acabava de tirar-lhe a presença de espírito. Estaria em graça? Não iria, por última e suprema infelicidade, morrer em pecado mortal, ele, cujo maior empenho fora salvar a alma das garras do demônio, e para o conseguir fizera um feixe de todas as paixões de homem e de todas as aspirações de moço e o queimara sem pesar na ara sagrada da religião e do sacrifício! As pequenas faltas, as tibiezas de ânimo, os súbitos desalentos acudiam-lhe à memória num tropel confuso, e um rápido clarão enchia-lhe o espírito de uma verdade amarga, rasgando-lhe os véus da consciência e patenteando a vaidade, o orgulho, a ambição de nome e de glória, que, mais do que o Amor Divino, haviam motivado os atos da sua vida. Perturbado, unindo à angústia do pecador na hora da morte, um vago pesar dos deleites perdidos e um arrependimento sincero e inútil, perdia a noção exata do que se passava em redor de si...
Os os rompiam afinal o mato que lhes estorvava a passagem. Padre Antônio caiu de joelhos sobre a relva ainda úmida das chuvas da véspera, e, juntando as mãos numa agonia, ergueu os olhos para o céu, num olhar em que pôs toda a sua alma, e aguardou silencioso o golpe que o devia prostrar para sempre.
CAPITULO IX
O capitão Manuel Mendes da Fonseca acabara de tomar a sua xícara de café, adoçado com rapadura, acendera um cachimbo, e fora para a porta da rua, a conselho de D. Cirila, espairecer a negra preocupação que lhe haviam deixado as Últimas notícias vindas de Manaus pelo vapor Belém.
Seriam cinco horas da tarde. O sol caminhava lentamente para o ocaso, ensombrando mais da metade da rua e dando reflexos dourados à água serena do lago Saracá, tranqüilo àquela hora, como de ordinário.
A vila retomara o seu aspecto normal, com as casinhas bem alinhadas, abertas à viração fresca da tarde, os habitantes a fazerem a digestão do jantar à janela ou à porta da rua, à porta do Costa e Silva ou sob as ramalhudas amendoeiras do porto, cavaqueando pacatamente, no deslizar suave e monótono da vida sertaneja.
Só à porta do coletor ninguém estava, e essa falta, parecendo proposital ao seu espírito atribulado, carregava-lhe o semblante com uma nuvem sombria, e bulialhe com o fígado.
Antes de partir para os castanhais havia muito tempo que tal fato não se dera, a não ser em alguma tarde chuvosa. O Valadão, o vereador João Carlos, o juiz municipal e outros que não freqüentavam a loja do Costa e Silva, inficionada de heresia maçônica pela presença do professor Chico Fidêncio, vinham todas ás tardes à porta da coletoria trazer as novidades do dia e conhecer a opinião do dono da casa, levando a dedicação ao ponto de ali ficarem palestrando quando o coletor, a pretexto da necessidade de comprar alguma coisa, fazia uma investida ao antro do maçonismo, para mostrar àquele patife do Fidêncio que não tinha medo das suas criticas ferinas.
Mas agora, depois da volta dos castanhais, o capitão Mendes da Fonseca, sentado na sua cadeira de braços, fumando gravemente no seu cachimbo de taquari, notava a falta dos amigos, e não podia deixar de a relacionar com as notícias trazidas pelo Belém, e que ameaçavam claramente o seu prestígio e a sua posição na sociedade de Silves.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.