Por Aluísio Azevedo (1881)
— Acontece, meus senhores, com um boato, que corre a província, o mesmo que com uma pedra levada pela enxurrada da chuva; à proporção que rola, de rua em rua, de beco em beco, de fosso em fosso, vão-se-lhe apegando toda sorte de trapos e imundícia que encontra na sua vertiginosa carreira; de sorte que, ao chegar à boca-de-lobo, já se lhe não reconhece a primitiva forma. Do mesmo feitio, quando uma notícia chega a cair no esquecimento, já tão desfigurada vai de si, que da própria não conserva mais do que a origem!
E o Freitas, satisfeito com esta tirada, assoou-se estrondosamente, sem despregar do auditório o seu penetrante sorriso de grande homem, que prodigaliza, sem olhar a quem dá, as preciosas jóias da sua pródiga eloqüência. Durante aqueles dias não se falava senão em Raimundo.
— Desacreditou, para sempre, a pobre moça!... dizia um barbeiro no meio da conversa da sua loja.
— Desacreditar quis ele! responderam-lhe, mas é que ela nunca lhe deu a menor confiança! Isto sei eu de fonte limpa!
Na casa da praça, afirmava um comendador, que a saída de Raimundo da casa do tio era devida simplesmente a uma ladroeira de dinheiro, perpetrada na burra de Manuel, e que este, constava, já tinha ido queixar-se à polícia e que o doutor chefe procedia ao inquérito.
— É bem feito! E bem feito!... vociferava um mulato pálido, de carapinha rente, bem vestido e com um grande brilhante no dedo E muito bem feito, para não consentirem que estes negros se metam conosco!
Seguiu-se um comércio rápido de olhadelas expressivas, trocadas entre os circunstantes, e a conversa torceu de rumo, indo a cair sobre as celebridades de raça escura, vieram os fatos conhecidos a respeito do preconceito da cor; citaram-se pessoas gradas da melhor sociedade maranhense, que tinham um moreno bem suspeito; foram chamados à conversa todos os mulatos distintos do Brasil narrou-se enfaticamente a célebre passagem do Imperador com o engenheiro Rebouças. Um sujeito, levantou pasmo da roda, nomeando Alexandre Dumas, e dando a sua palavra de honra em como Byron tinha casta.
— Ora! isso que admira?... disse um estúpido. Aqui Já tivemos um presidente tão negro como qualquer daqueles cangueiros, que ali vão com a pipa de aguardente!
— Não... rosnou convencido um velhote, que entre os comerciantes passava por homem de boa opinião Que eles têm habilidade, principalmente para a musica, isso é inegável!...
— Habilidade?... segredou outro, com o mistério de quem revela uma coisa proibida. Talento! digo-lhe eu! Esta raça cruzada é a mais esperta de todo o Brasil!
Coitadinhos dos brancos se ela pilha uma pouca de instrução e resolve fazer uma chinfrinada. Então é que vai tudo pelos ares! Felizmente não lhe dão muita canja!
— Aquilo, comentava Amância, boquejando esse dia, sobre o mesmo assunto, em casa de Eufrásia; aquilo não podia ter outro resultado! Cá está quem não poria lá mais os pezinhos, se o basbaque do Pescada metesse o cabra na família!
— Ora não é também tanto assim!... objetava a quente viúva. Conheço certa gente, que se faz muito de manto de seda e que, no entanto, vai filar constantemente o jantar dos cabras que passam bem. A questão é de boa mesa!
— O quê? berrou a velha, pondo as mãos nas cadeiras. Isso é uma indireta?!
comigo?!...
E subiu-lhe uma roxidão às faces.
— Diga! exclamou. Pois diga! Quero que diga qual foi o negro a quem
Amância Diamantina dos Prazeres Sousella, neta legítima do Brigadeiro Cipião Sousella, conhecido pelo “Corisco” na Guerra dos Guararapes, desse algum dia a confiança de ocupar! Eu?!... Até brada ao céu! Qual foi o cabra com quem a senhora já me viu de mesa?!...
— Eu não falo com a senhora! E esta?
— Ah!... Pois então conheça! — Falo no gera!
E Eufrasinha dava as provas, citava nomes, contava fatos, e terminou declarando que, apesar de tudo que se dizia nesse Maranhão velho, Raimundo era um cavalheiro distinto, com um futuro bonito, alguns cobres, e... enfim... Ora, adeus, deixasse lá falar quem falava! - era um marido de encher as medidas!
E a viúva arregalou os olhos e mordeu os beiços, chupando o ar com um suspiro.
— Que lhe faça muito bom proveito! arrematou a neta do “Corisco” traçando o xale já na porta, para sair. Há gente para tudo nesta vida! Credo!
E foi logo, direitinha como um fuso, para a casa do Freitas.
Pois não sabem de uma muito boa?... disse ao chegar lá, sem tomar fôlego. A sirigaita de Eufrásia diz que não se lhe dava de casar com o Mundico do Pescada!
— Ele é que eu duvido que a aceitasse!... bocejou o Freitas, estendendo com preguiça as suas magras e longas pernas na cadeira, e cruzando os pés, com um ar feliz e descansado. Que ela morre por um marido—isso é velho! E tem razão, coitada!
Riu-se.
— Credo! cruz! trejeitou Amância. Assim também não!... No meu tempo...
— Era a mesmíssima coisa, D. Amância; as raparigas pobres pediam aos céus um marido, como... como... insistia ele, a procura de uma comparação, como não sei o quê!... A senhora, já sei que fica para jantar...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.