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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

A madrasta de Teresa era mulher de mau gênio, muito inculta; não sabia estar em sociedade e dizia asneiras na conversa. O comendador a recebeu sempre com uma indiferença repulsiva; às vezes dava festas e nunca se lembrava de convidá-la. Quando havia visitas então, era uma desgraça! Conhecia-se na cara do homem toda a sua má vontade para com a sogra.

Nessas condições, Teresa tinha sérios receios de pedir socorros à madrasta. Parecia-lhe já estar a ver a terrível matrona a olhá-la por sobre os óculos, indignada, com as mãos nas cadeiras, a boca muito aberta e um grande espanto na fisionomia. — Definitivamente não serei bem recebida!... observou Teresa ao entrar no carro, que Portela fora buscar. Assentaram-se ao lado um do outro. Ele a acompanharia até à porta.

À proporção que caminhavam, Teresa parecia cada vez mais sobressaltada. Que não diria a velha?! Que não suporia?! E daí, se a madrasta entendesse de não a receber?! Sim! porque aquela víbora era capaz de tudo! Não gostava de incomodar-se por ninguém e, quando a coisa então lhe cheirava, a responsabilidade, não havia meio de obter dela o menor serviço!

— Há de arranjar-se tudo! disse Portela impaciente. O suor caía-lhe em bagas pela testa.

Mas Teresa, ao passar em certa travessa do Catete, teve uma idéia:

recolher-se de preferência à casa da preta que a criara, tia Agueda. Era uma boa mulher, fora escrava de seu pai e sempre a conservara na mesma estima respeitosa. Essa também ficaria espantada com a sua visita, mas ao menos havia de prestar-se a socorrê-la com muito boa vontade.

O diabo era que a pobre mulher morava em uma espécie de cortiço, onde vendia angu. Teresa talvez não encontrasse lá um lugar decente para esconder-se.

— Tudo se arranjará! repetiu Portela.

E, com efeito, ficou tudo arranjado. Teresa recolheu-se ao domicilio da boa preta, e Portela voltou a casa para tratar das malas.

Tia Agueda, ao lobrigar a sua querida filha de criação, que ela há tanto tempo não via, duvidou dos próprios olhos e ficou perplexa, a fitá-la com grande enlevo; afinal abriu os braços e exclamou sinceramente comovida:

— Gentes! Olha Neném!...

Teresa quis pedir-lhe que não fizesse espalhafato; quis falar, mas não pôde; ao ouvir o doce tratamento familiar que lhe davam em pequenina, as lágrimas saltaram-lhe logo dos olhos e os soluços tomaram-lhe a garganta.

— Ah! nesse bom tempo seu pai ainda era vivo e seu coração ainda era feliz! Que de transformações se não tinham produzido entre esse passado de inocência e aquele presente de dissabores?... Que de mudanças não sofrera sua alma! que de novas deformações não padecera seu corpo! Quantas decepções em tão pouco tempo!... Quantos desgostos em tão pequena existência!... Dantes não conhecia Teresa as frias responsabilidades da vida, não suportava as duras necessidades do sangue, não compreendia outro amor que não fosse o da família e o dos folguedos da infância. Mas tudo se transformara em torno e dentro dela; as suas mais gratas afeições, as suas mais simpáticas ilusões se foram pouco a pouco dissolvendo como as nuvens transparecendo em dias de estio.

Foi tudo isso o que a presença da pobre negra disse de relance ao coração oprimido de Teresa. As saudades do passado e as apreensões do presente chocaram-se no espírito da infeliz, produzindo-lhe uma grande crise nervosa, que parecia preparada durante o dia e só à espera daquele sinal para rebentar.

Não havia meio de suster-lhe as lágrimas e os soluços; embalde Tia Agueda procurava tranqüilizá-la. Teresa não podia dar uma palavra.

— Mas, Neném, que é isto?! que lhe sucedeu?!...

E a negra, vendo que Teresa não respondia, carregou-a para o quarto, fê-la deitar-se na cama e ajoelhou-se aos seus pés, beijando-lhe as mãos e afagando-lhe os cabelos.

— Sossega, Neném! sossega! dizia ela com a mesma ternura dos outros tempos em que a acalentava no berço.

Só meia hora depois Teresa sossegou um pouco. Suas primeiras palavras foram para pedir o que comer.

Tia Agueda improvisou logo uma ceia.

Descobria-se nela, na sua presteza, nos seus movimentos, a boa vontade com que fazia tudo aquilo. Em breve, de um quarto próximo ao em que estava a mulher do comendador, vinha um cheiro picante de peixe que se frigia e chilrava ao fogo. A segurança do lugar, a boa hospitalidade e a expectativa da ceia principiaram a reanimar totalmente as forças de Teresa. Quando a negra acendeu mais um candeeiro, cobriu a mesa com uma branca toalha de algodão e trouxe o primeiro prato, já não havia sinal de lágrimas.

— Você está se incomodando muito, tia Agueda! balbuciou a senhora.

— Hê, Neném! Não diga tolice! repreendeu a preta, a saracotear pela sala.

E declarou que só o que sentia era não ter uma casa melhor para receber a sua querida filha de leite.

— Está tudo muito bom, emendou Teresa, procurando já tentar um sorriso.

(continua...)

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