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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Mas daí?...perguntou Amâncio, no fundo compenetrado de que “a pobre menina” não deixava de ter o seu bocadinho de razão.

— Daí...esclareceu Amélia, — é que nessa tal casa de que lhe falei, e que está para se vender muito em conta, há, além dos cômodos necessários para Loló e Janjão, dois quartos magníficos, com entradas independentes e comunicáveis entre si por uma pequena alcova. Ora, um dos quartos dá para a sala de visitas e o outro para a sala de jantar; no caso de que arranjássemos o negócio, você ficaria com um e eu ficaria com o outro, e dessa forma acabavam-se os sustos e as canseiras; porque durante o dia abriam-se as portas do lado de fora e fecham-se as de dentro, mas à noite praticava-se justamente o contrário, e ficávamos nos em completa liberdade! Compreende você agora?...

— Sim, Amâncio compreendia e até achava o plano muito bem lembrado, mas a questão é que não via necessidade d comprar a casa, era bastante alugá-la...

— Sim, sim! mas é que o dono não a aluga, quer vendê-la. E onde ia você encontrar outra casa nessas condições?...

— Hei de passar por lá...

— Não. Vamos hoje mesmo, à tarde. Loló já prometeu que nos acompanha. — Pois sim.

E Amâncio puxou Amélia pelo braço, para lhe dar um beijo.

— Deixe-me...rezingou ela, ainda com um restinho do arrufo. Você só cuida de si e das suas comodidades...Egoísta!

— Não digas isso, meu bem!

— Pois não é assim?! Qual foi a vontade séria que você já me fez? É bastante que eu mostre gosto numa coisa, para você fazer justamente o contrário...Entretanto, eu, por sua causa, sacrifiquei tudo que possuía!

E começou a chorar, muito infeliz, a dizer que Amâncio tinha razão! — Ninguém lhe mandara ser tola! Ela nunca deveria ter-se entregado senão depois do casamento!

E as suas lágrimas enxugavam-se nos lábios dele.

E assim ficaram alguns minutos, até que Amélia, de repente, se lhe tirou dos braços e, abrindo distancias, declarou de longe, em plena atração de seus encantos, que “não faria nenhum caso de Amâncio enquanto não possuísse o chalé”.

Nessa mesma noite ficou assentado que o rapaz, em nome da amante, compraria a casa das Laranjeiras.

* * *

Com efeito, umas semana depois, tratava-se da escritura de compra. O negócio correu a galope, visto que a propriedade era de um pândego sequioso por dinheiro.

Podiam cuidar logo da nova mudança; Amélia, porém, não consentiu em tal, sem que se realizassem umas tantas benfeitorias que a “sua” casa reclamava; substituir, por exemplo, o papel da sala de visitas, que era de mau gosto; meter-lhe água, que não havia, e fazer esteirar os aposentos destinados para si junto com seu homem.

Mas Amâncio não podia distrais tempo com essas coisas: andava muito absorvido pela idéia dos exames que se aproximavam.

Ultimamente viera-lhe uma febre de formatura, queria a todo o custo “passar “no primeiro ano. — Também era só do que fazia questão, “passar no primeiro”, porque, quanto aos outros, tinha certeza de se preparar melhor e com mais antecedência. agora, lamentava o tempo perdido na preguiça e na moléstia; dava ao diabo os seus amores, e vivia numa dobadoura a arranjar empenhos e cartas de proteção. Agarrou-se ao Campos; agarrou-se àquele Dr. Freitinhas (do baile do Melo) que era unha com carne de um dos examinadores. E furou, e virou, e percorreu amigos e desconhecidos, até se julgar “garantido”. Então, pagou a Segunda matrícula e entregou-se de olhos fechados a destino. “Seria o que Deus quisesse!”

Era, pois, o Coqueiro quem dirigia as obras da casa da irmã. O metódico rapaz sempre tivera paixão por esse gênero de trabalho.

— Se fosse rico, afirmava ele, — muito prédio havia de fazer, só pelo gostinho de acompanhar as obras!

CAPÍTULO XVI

Chegou, finalmente a véspera do amaldiçoado exame.

Que ansiedade! Que de angústias para o pobre Amâncio! que noite, a sua!— Não descansou um segundo; apenas, já quase ao amanhecer, conseguiu passar pelo sono; antes, porém, não dormisse, tais eram os pesadelos e bárbaros sonhos que o perseguiam.

Via-se entalado num enorme rosário de vértebras que se enroscava por ele, como uma cobra de ossos; grandes tíbias dançavam-lhe em derredor, atirando-lhe pancadas nas pernas; as fórmulas mais difíceis da química e da físicas individualizavam-se para o torturar com a sua presença; os examinadores surgiamlhe terríveis, ríspidos, armados de palmatória, todos com aquela feia catadura do seu ex-professor de português no Maranhão.

(continua...)

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