Por Franklin Távora (1878)
Nos últimos momentos os negros, dirigidos por Germano, tinham-se batido quais feras. Prometera-lhes o sargento-mór a liberdade a todos, e tanto bastou para que os guaribas lutassem como se foram leões.
Mas Germano devia ser punido da sua perfídia. Defendendo a facão e a chuço com os parceiros uma das portas que os invasores tinham logrado romper, ele caíra traspassado de golpes. Com o sangue e a vida resgatara a culpa. Tanto que considerou perdida a esperança de salvação, o sargento-mór pediu a Filipe Cavalcanti e a Luiz Vidal que pusessem a salvo sua mulher.
- E porque não nos salvaremos todos? Inquiriu um deles. Roberto podia resistir com os negros que restam, ainda alguns minutos. Teremos tempo de ganhar a cavalariça. Tomaremos os animais e ficaremos fora do alcance dos malvados.
- Desamparar a minha casa seria uma covardia, que eu nunca havia de perdoar-me, disse o sargento-mór. Ide vós. Correi, correi, senhores. Salvai-me Damiana, e não vos importais comigo. Hei de resistir até à minha derradeira. Talvez que nesse entrementes chegue Cosme.
Mal tinha acabado estas palavras que poderiam considerar-se inspiradas pela intuição do momento final, quando as outras portas que ainda estavam de pé, caíram debaixo do peso dos machados e alavancas fortemente vibrados pela turba sedenta de vingança. Na primeira linha dos atacantes viam-se, movendo os terríveis instrumentos, diferentes frades carmelitas, que assim entendiam dever ressarcir a perda do jesuíta.
À vista desta cena extrema, não havia mais que hesitar. Os dois fidalgos, dois sós, porque João da Cunha ficava embaixo, resistindo ainda, lutando sempre, atiraram-se de escada acima a fim de tentarem a fuga, com a senhora-deengenho, pelos fundos do sobrado, única comunicação para uns casebres com frente para a Rua-do-meio. Mas qual não foi o seu espanto e tristeza, quando se encontraram com as mucamas de d. Damiana que, espavoridas e chorosas, corriam de escada abaixo pedindo socorro?
Uma malta, não inferior a cinquenta homens, entrando justamente pela parte da casa por onde Felipe e Luiz tencionavam escapar-se, tinha já tomado o andar superior. A senhora?! Onde está a senhora?! perguntaram os fidalgos, passados de impaciência e aflição indescritível.
- Não sei – responde uma das escravas.
- Fugiu, responde outra.
- Trancou-se por dentro em um quarto, - acrescenta a terceira.
- Negras do diabo! exclamou Luiz Vidal.
E atira-se com Felipe, desesperado, agoniado, na direção que levava. A indignação e o vexame faiscavam-lhes dos olhos. Mas do topo da escada não passaram eles. Parte da multidão veio ao seu encontro e embargou-lhes o caminho.
- Afastai-vos miseráveis! gritou Luiz Vidal. Vou a salvar uma dona honrada. Para o lado, vilões! Para o lado.
- A quem vais tu salvar, mazombo infame! perguntou-lhe o sujeito que vinha na frente da onda.
Os fidalgos reconheceram o que lhes dirigira este apodo acerbo. Era o Belchior.
- Será uma escopeteira? perguntou outro sujeito em quem eles reconheceram Manoel Rodrigues – o taverneiro. - A escopeteira! A escopeteira! articulou o terceiro com ares de mofa. Está nas unhas do nosso comandante, o bravo Antonio Coelho.
Quem assim falava era o alfaiate Manoel Gaudencio.
Coelho, de feito, entrando no sobrado do momento em que de fora ainda se pedia o coração, a cabeça de d.
Damiana em paga da vida do frade, correu à senhora-de-engenho e disse:
- Senhora, senhora minha, se não vos entregais em minhas mãos, mata-vos a multidão!
E dizer-lhe estas palavras foi o mesmo que tomar pela mão a senhora-de-engenho, atravessar com ela por entre o seu próprio séquito, acomodando os mais exaltados e exigentes, com a promessa de que ela pagaria a sua culpa às justiças, e desaparecer por onde havia entrado na casa do sargento-mór.
Irritados pelo pouco caso e mofa que mostravam os invasores, os fidalgos precipitam-se contra eles, resolutos a abrir caminho por cima de cadáveres. Seus golpes não conseguem mais do que ferir alguns mascates. Acende-se logo pronta e terrível represália. Tomam-nos às mãos, arrebatam-lhes as armas, descarregam sobre eles pancadas e cutiladas, assacam-lhes mil impropérios.
Então já as duas multidões, pondo-se em comunicação pela escada, formavam um só corpo, uma como serpente imensa, irrequieta, assanhada, que se esfregava pelas paredes, sacudia-se pelas salas, sumia-se pelos quartos a dentro, penetrando nos pontos mais secretos da casa do fidalgo, enquanto este desarmado, ferido, coberto de baldões, via-se com seus próprios escravos entre os primeiros cabos da força de Luiz Soares, e era apontado por ele, que não ocultava a sua satisfação, como o seu primeiro troféu.
De todas as que estavam na casa de João da Cunha, só uma pessoa pode escapar-se com sua liberdade. Foi Marcelina, que correra, não por fugir, senão por acompanhar d. Damiana, no momento em que com ela rompia Antonio Coelho por entre os seus partidários.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.