Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Não se podiam arrumar em outra parte que melhor estivessem as árvores de virtude que após das que dão fruto; e seja a primeira a árvore do bálsamo, que se chama cabureíba, que são árvores mui grandes de que se fazem eixos para engenhos, cuja madeira é pardaça e incorruptível. Quando lavram esta madeira cheira a rua toda a bálsamo, e todas as vezes que se queira cheira muito bem. Desta árvore se tira o bálsamo suavíssimo, dando-lhe piques até um certo lugar, de onde começa de chorar este suavíssimo licor na mesma hora, o qual se recolhe em algodões, que lhe metem nos golpes; e como estão bem molhados do bálsamo, os espremem numa prensa, onde tiram este licor, que é grosso e da cor do arrobe, o qual é milagroso para curar feridas frescas, e para tirar os sinais delas no rosto. O caruncho deste pau, que se cria no lugar de onde saiu o bálsamo, é preciosíssimo no cheiro; e amassa-se com o mesmo bálsamo, e fazem desta massa contas, que depois de secas ficam de maravilhoso cheiro.De tão santa árvore como a do bálsamo merece ser companheira e vizinha a que chamam copaíba, que é árvore grande cuja madeira não é muito dura, e tem a cor pardaça; e faz-se dela tabuado; a qual não dá fruto que se coma, mas um óleo santíssimo em virtude, o qual é da cor e clareza de azeite sem sal; e antes de se saber de sua virtude servia de noite nas candeias. Para se tirar este óleo das árvores lhes dão um talho com um machado acima do pé, até que lhe chegam à veia, e como lhe chegam corre este óleo em fio, e lança tanta quantidade cada árvore que há algumas que dão duas botijas cheias, que tem cada uma quatro canadas. Este óleo tem muito bom cheiro, e é excelente para curar feridas frescas, e as que levam pontos da primeira curam, soldam se as queimam com ele, e as estocadas ou feridas que não levam pontos se curam com ele, sem outras mezinhas; com o qual se cria a carne até encourar, e não deixa criar nenhuma corrupção nem matéria. Para frialdades, dores de barriga e pontadas de frio é este óleo santíssimo, e é tão sutil que se vai de todas as vasilhas, se não são vidradas; e algumas pessoas querem afirmar que até no vidro mingua; e quem se untar com este óleo há de se guardar do ar, porque é prejudicial.
C A P Í T U L O LIX
Em que se trata da virtude da embaíba, de caraobuçu e caraobamirim.
Embaíba é uma árvore comprida e delgada, que faz uma copa em cima, de pouca rama; a folha é como de figueira, mas tão áspera que os índios cepilham com elas os seus arcos e hastes de dardos, com a qual se põe a madeira melhor que com a pele de lixa. Os frutos desta árvore são umas candeias e cachos como as dos castanheiros, e como amadurecem as comem os passarinhos e os índios, cujo saibo é adocicado, e tem dentro uns grãos de milho, como os figos passados, que é a semente de que estas árvores nascem, as quais se não dão em mato virgem, se não na terra que já foi aproveitada; e,assim no tronco como nos ramos é toda oca por dentro, onde se criam infinidades de formigas miúdas. Tem o olho desta árvore grandes virtudes para com ele curarem feridas, o qual, depois de pisado, se põe sobre feridas mortais, e se curam com ele com muita brevidade, sem outros unguentos; e o entrecasco deste olho tem ainda virtude, com o que também se curam feridas de chagas velhas; e tais curas se fazem com o olho desta árvore, e com o óleo da copaíba, que se não ocupam na Bahia cirurgiões, porque cada um o é em sua casa.Caraobuçu é uma árvore como pessegueiro, mas tem a madeira muito seca e a folha miúda, como a da amendoeira; esta madeira é muito dura e de cor almecegada, a qual se parece com o pau das Antilhas; cuja casca é delgada; da folha se aproveitam os índios, e com ela pisada curam as boubas, pondo-a com o sumo em cima das bostelas ou chagas, com o que se secam muito depressa; e quando isto não basta, queimam em uma telha estas folhas, e com o pó delas feitas em carvão, secam estas bostelas; do que também se aproveitam os portugueses, que têm necessidade deste remédio para curarem seus males, de que muitos têm muitos.Caraobamirim é outra árvore da mesma casta, senão quanto é mais pequena, e tem a folha mais miúda, da qual se aproveitam como da caraoba de cima, e dizem que tem mais virtudes; com as folhas desta árvore, cozidas, tomam os portugueses doentes destes males suadouros, tomando o bafo desta água, estando muito quente, de que se acham muito bem; e lhes faz sair todo o humor para fora e secar as bostelas, tomando destes novos suadores, e o sumo da mesma folha bebido por xarope.
C A P Í T U L O LX
Que trata da árvore da almécega, e de outras árvores de virtude.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.