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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

E antes de ter alcançado a palma dos seus esforços recuariam do caminho por causa de carapanãs e de outras pequenas contrariedades que o Senhor enviava para os provar? Seria acaso, continuava S. Rev.ma depois de um gesto de desprezo dos carapanãs, seria acaso pelo ataque dos índios do ubá que o sacristão queria abandonar o seu vigário, fugindo para eterna vergonha sua, da sua classe inteira? Mas, não fora para se exporem a ataques semelhantes, a combates, fomes, desolações e misérias que se haviam dedicado àquela missão de paz e de amor, abandonando os cômodos de uma vida tranqüila e repousada? Demais o episódio do ubá era mais próprio para dar-lhes do que para lhes tirar a coragem. Estava bem patente na fuga daqueles tapuios a intervenção divina, nem era capaz de dizer o contrário. Se Deus Nosso Senhor não quisesse a realização da missão, bastava-lhe abandonar os brancos à sanha daqueles selvagens. Entretanto, que fizera ele? Respondesse o Macário, que fizera o Senhor Deus dos Exércitos? Primeiro, havia por suas mãos desviado as setas envenenadas. Depois havia tocado o coração dos índios, e os seus servos ali estavam sãos e salvos, rendendo graças à sua infinita bondade. Isto era lógico, ou então dissesse o Macário o que era a lógica, que ele padre Antônio mandaria dizer ao padre Azevedo, o maior teólogo do Norte do Império, que procurasse outro ofício. Deus repetira o milagre de Davi escapando aos soldados de Saul.

— Vamos, Macário, terminara, sursum corda. Digamos como S. Paulo aos romanos: Sejamos alegres pela esperança e resignados nas tribulações.

Padre Antônio entusiasmava-se com as suas próprias palavras, readquiria pouco a pouco, sob a ação do seu discurso, ao fogo da própria eloqüência, a convicção que nos últimos dias parecia ter afrouxado. A fé renascia no seu espírito abalado pelos contratempos da viagem. As frases ardentes e sonoras que lhe brotavam dos lábios, reacendiam-lhe no peito a exaltação do proselitismo. Como um artista, a quem a obra das próprias mãos enternece e comove, apaixonara-se pelo quadro que expunha às vistas desanimadas do companheiro. Uma resignação sublime pintava-se no seu semblante e exprimia-se nos seus gestos.

— Se morrermos, fiat voluntas tua, ó soberano do céu e da terra! Levaremos para o túmulo com a certeza de haver cumprido o nosso dever as bênçãos da posteridade. Temos de morrer um dia. A morte é o tributo natural da humanidade à contingência criada. Se há-de ser de moléstia ou de acidente, que venha a morte das mãos dos inimigos de Cristo, Senhor Nosso, tentando chamá-los ao grêmio da Igreja Universal, e cumprindo a lei de Deus que nos criou. Que vale a vida obscura e inútil de pobres criaturas, escravas do pecado como nós somos? Só Deus é grande, e a suprema felicidade é possuí-lo a custo do insignificante sacrifício desta vida terrena. E Deus é duma infinita bondade, porque dá-nos tanto por coisa tão miserável e mesquinha que nos poderia tirar sem compensação. Eia, Macário, ergame essa cabeça e fite-me o céu azul, cheio de promessas e de esperanças!

De repente pareceu a padre Antônio de Morais que de tanto cismar no ubá de índios que haviam encontrado pela manhã, Macário enlouquecera. O sacristão, erguendo-se dum jato, e dando um grande grito, pusera-se a correr desadoradamente para o porto. Da sua boca escancarada pelo terror, o padre ouvira o nome da tribo de índios ferozes que andava buscando por aquelas paragens ermas:

— Mundurucu, mundurucu!

Mas logo o padre conheceu que o Macário não fugira sem motivo. Quando se voltou para seguir a direção do olhar assustado do sacristão, dois homens, dois índios, parados a alguns passos de distância por trás dum matagal que lhes encobria a parte inferior do corpo, do ventre para baixo, ofereciam aos olhos atônitos do padre os troncos nus e a face cor de cobre, que se destacavam no meio da verdura como um baixo-relevo de bronze. Os índios olhavam fixamente para o chapéu de três bicos que o vigário conservava na cabeça, e no momento em que o padre os vira, atiravam-se para a frente, cortando apressadamente o mato que lhes embaraçava o passo. Padre Antônio compreendia bem que tudo estava perdido. Chegara afinal a hora do martírio, por tanto tempo procurado e desejado como o supremo bem.

Nem valia a pena dirigir a palavra àqueles selvagens para implorar misericórdia, ou para falar-lhes a linguagem de paz e de amor que trazia desde muito estudada para o primeiro encontro.

Para que discursos?

Naquela manhã, que devia ser a última da sua vida inglória e obscura, percebera que os mundurucus não falavam a língua geral, mas um dialeto impossível de compreender para quem, como padre Antônio, possuía apenas os rudimentos do tupi. Seria escusada qualquer tentativa de conversão daqueles selvagens, sem o auxílio dum intérprete, sem a calma e o concurso do tempo.

(continua...)

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