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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Ela irritava-se ao ponto de ameaçá-lo com um escândalo. Amâncio que se não enganasse, pois que havia um João Coqueiro sobre a terra! Ele que não caísse no descoco de querer desampará-la, porque então as coisas lhe sairiam mais atravessadas!

Estas rezingas terminavam sempre por uma nova exigência de Amélia. E já não se contentava com um chapéu ou com um par de botinas, queria vestidos de seda, jóias de valor e dinheiro para gastar.

Uma noite, Amâncio ficou abismado por lhe ouvir falar na compra de um chalé nas Laranjeiras.

— Sim! reforçou ela, ao perceber que o rapaz não tomava a sério suas palavras. — Despedia-se o Tavares e ficaríamos à vontade por uma vez! Eu não estou satisfeita aqui!...

Ele tornou a sorrir. — Amélia com certeza estava gracejando...

Mas a rapariga jurou que não, recorrendo a todos os segredos de sua ternura. Afinal, vendo que o amante não cedia, zangou-se como de costume.

—Tu assim o queres; disse arrancando-se dos braços dele, — pois bem, tu assim o terás! Amanhã hás de ver o que sai nesta casa!

Amâncio encolheu os ombros.

— Não te importas?! Pois veremos quem tem razão!

E limpando os olhos:

— Ingrato! Por que sabe que a gente o estima, abusa deste modo! Tola fui eu em me deixar seduzir!...

— Eu não a seduzi! Ora essa!

— Até fez mais, replicou ela - Desonrou-me!

— Pois desonrada ou seduzida, não tenho dinheiro para comprar casas!

Amélia saiu essas noite do quarto do estudante ameaçando fazer estourar a bomba no dia seguinte.

E, pela manhã, quando Amâncio , ao seguir para as aulas, lhe foi dar o beijo favorito... ela muito amuada, voltou o rosto, resmungando “que a deixasse”.

O rapaz prometeu que “ia pensar” e à noite daria uma resposta.

Mas nessa noite, Amélia, pela primeira vez, depois do seu novo estado, não se apresentou às horas habituais no quarto do estudante.

Amâncio, sem perder as esperanças de a ver surgir de um momento para outro e precipitar-se-lhe nos braços, não conseguira ficar tranqüilo. Aquele procedimento, vindo de quem vinha, o revoltava como a mais infame das ingratidões!

—Ouviu dar três horas, quatro, cinco. Não se conteve, levantou-se, pisando forte, desceu à varanda e foi bater à porta de Amélia.

Nada.

Bateu mais rijo.

— Que é?! Perguntou ela asperamente.

— Preciso falar-lhe.

— Não são horas para isso!

— Ouça! Quero dizer-lhe uma coisa...

— Não tenho negócios! Entenda-se com meu irmão!

Amâncio voltou ao quarto, desesperado. Não que o acovardassem as ameaças da rapariga, bem percebia que as suas relações com ela não eram em casa nenhum segredo e, além disso, desde que aceitavam o pagamento, — ora adeus! nada podiam dizer! Mas apoquentava-se com a falta que já fazia o diabrete da pequena. Habituara-se a dormir ao calor perfumado daquele corpinho branco, ajeitara-se ao cômodo amor daquela mulherzinha nova e palpitante e, agora, não podia voltar, assim sem mais nem menos, às suas tristes noites desacompanhadas do outro tempo.

Acordou muito tarde no dia seguinte. Amélia , quando ele saiu do quarto, não lhe deu palavra; estava arrumando uma caixa de retalhos, e arrumando ficou. Mme. Brizard havia saído para ver Nini. — O Coqueiro e os hóspedes se achavam também na rua.

— Então o senhora não me quer falar? Perguntou Amâncio, fitando-lhe as costas.

Ela interrompeu o que cantarolava e, sem se voltar, disse friamente:

— A culpa é sua ...

E continuou a cantarejar, muito embebida nos seus retalhos de fazenda.

Aquele desdém, namorado e artístico, a tornava ainda mis desejável aos olhos do rapaz.

Parecia-lhe até mais vela esse dia; como se os seus encantos, intervindo na perrice, florejassem caprichosamente durante aquela noite de soledade.

Amâncio nunca lhe achou a pele tão fina, os dentes tão brancos, os olhos tão vivos e tão formosos. O pálido e ondulante pescoço da menina jamais lhe pareceu tão misterioso: a sua garganta, macia e doce, jamais o cativara tão despoticamente. Ele, enfim, nunca a sentira tão necessária, tão indispensável.

E as cenas venturosas dos seus primeiros dias de amor lhe perpassaram vertiginosamente diante dos olhos, derramando-lhe por todo o corpo um apetite brutal de readquirir, no mesmo instante, aquela riqueza, que lhe fugia por entre os dedos, como um vinho precioso que se derrama.

— Então a culpa é minha?...disse ele, afinal, apalpando com a vista a carne esperta dos quadris e dos braços da amante.

— Pois você não vê, respondeu ela, voltando-se espevitada — que as coisas não podem continuar como até aqui?! É uma canseira insuportável! Quase que já não durmo! Preciso esperar de olho aberto que toda a casa ser recolha e recolherme ao quarto antes que os mais se levantem! O resultado é que não descanso; ando tresnoitada; estou enfraquecendo! Já tenho até uma dor do lado. Quem pode com esta vida?! Ah! você não sente, bem certo! Porque muita vez o encontro a dormir, e dormindo o deixo quando saio! Mas eu?! Se quero que não aconteça como outro dia (que nem sei como não deram pela coisa!) o remédio que tenho é ficar alerta e não deixar que o dia me surpreenda a dormir no seu quarto! Vê você?!

(continua...)

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