Por Franklin Távora (1878)
Apenas ouviu as primeiras palavras do jesuíta, o sargento-mór correu à sala superior. As balas paraibanas tinham deixado ai traços medonhos. Viam-se nas paredes, por entre superficiais escoriações, profundos ferimentos. Parte do estuque do teto estava por terra. Das rotulas algumas se mostravam despedaçadas, outras com imensos rombos por onde do pátio se via grande parte do que se fazia na sala. A frente da casa poder-se-ia comparar com a careta de um homem vesgo e desdentado.
D. Damiana, de pé por trás de uma das rotulas mais destruídas, olhava para o pregador por um dos rombos, no momento em que seu marido entrou na sala. As outras mulheres imitavam a senhora-de-engenho das outras janelas. Vinde ouvir, Sr. João da Cunha, vinde ouvir o pregador – disse ela. Ainda está falando ai essa sombra do inferno? Perguntou ele, lançando as vistas para o pátio, por cima do ombro da mulher. E rapidamente levou ao rosto o clavinote, como quem o queria desfechar sobre aquele novo sustentador da desordem e da destruição que aludiam a sua posição e o seu poder. Mas no mesmo instante sentiu-se apertado entre dois braços fortes, roliços e deliciosos. Sentiu uma macia mão pegar-lhe do pulso e obrigá-lo a abaixar a arma. Ouviu uma voz terna, aflita, plangente pedir-lhe que não atirasse.
Não atireis, não atireis, Sr. João da Cunha, sobre o padre. Seria um grande pecado. Atreveis-vos a dizer-me estas palavras, senhora? exclamou o fidalgo. O que ali está não é um padre, um ministro de Deus. É o espirito de Satanás. É um perverso que deve cair atravessado por uma bala. Peço-vos também eu que não atireis, seu sargento-mór – disse-lhe outra voz ao pé de si. João da Cunha voltou-se e deu de face com Marcelina, que dava mostras de quem ia ajoelhar-se. Alongando os olhos algum tanto mais, viu todas as mulatas na mesma atitude, acusando sua fisionomia os mesmos sentimentos manifestados pela senhora-de-engenho e pela cabocla. A forte guarnição que até aquele momento mantivera nutrido e mortífero fogo sobre os invasores; desamparava as posições, abaixava as armas à voz de um padre; e quando ele trovejava contra elas próprias, corriam medrosas a impedir, com suplicas e prantos, que lhe tirassem a vida.
O jesuíta entretanto prosseguia assim a sua terrível jaculação.
- Atirastes sobre a cruz do redentor. Estais por isso condenadas às profundas dos infernos. Suspendei, suspendei, filha de Satanás, a vossa impiedade. A maldição de Deus pesará eternamente sobre vós, se ousardes levantar ainda armas infernais para o lado onde está o símbolo da fé e da religião católica. Batei nas faces, mulheres ímpias. Pedi misericórdia a Deus. Misericórdia! Misericórdia! Exclamaram irresistivelmente todas as mulheres presentes. E suas mãos ainda quentes dos canos das armas, flagelaram, a modo de impelidas por oculta e fatal força, as faces há pouco afogueadas, agora pálidas, senão lívidas.
Um dos traços característicos daqueles tempos era a fé cega no padre e na sua doutrina. O sentimento religioso confundia-se com a superstição e dela recebia a influencia que ainda em nossos dias alenta no lar do rico e do pobre, do pequeno e do grande, crenças deletérias e hábitos fatalissimos. D. Damiana, educada no seio da família católica, ao paladar da fé antiga – misto de sombra e luz, como a nuvem que no deserto guiava o povo de Israel – sentia-se fraca diante do sacerdote, não obstante ter-se mostrado um momento antes brava, senão temerária, diante das forças e das armas rebeldes, porque ela estava acostumada a ver no padre o representante de Deus na terra; a considerar suas palavras como sentenças do código divino.
Mas o sargento-mór, que já não pensava assim, ergueu o clavinote e disparou-o. A bala foi bater nos pés da cruz, e arrancar uma lasca de pedra. No mesmo instante uma fila de sangue vivo escorre do lugar onde a bala deixara profunda e alongada ferida. Viram todos o sangue descer pela pedra. Era o do padre Henrique, cujo corpo caíra traspassado aos pés do cruzeiro.
- Meu Deus, que horror! Exclamou d. Damiana. Estamos perdidos. Deus não há de ser mais por nós.
E inclinou sobre as mãos, pequenas de mais para ocultarem o horror que lhe vinha do intimo, o rosto desfigurado e abatido.
O senhor-de-engenho, como se sua própria obre tivesse excedido a medida da sua intenção, teve por momentos os olhos, pasmos e desvairados, sobre o traço vermelho que descrevera um como hieróglifo ou símbolo infernal na pedra secular do símbolo santo.
Nesse momento diziam da rua:
- O tiro, que o matou, veio do sobrado onde estão a mulher e as negras do malvado. Sim, sim, veio de cima; veio.
- Foi a escopeteira que atirou.
- Foi ela, foi ela. Morra a escopeteira!
- Morra, morra. Ao sobrado, ao sobrado! Gritaram os frades em torno do cadáver do jesuíta. Ao sobrado!
respondeu a multidão.
XXVII
O sobrado foi fortemente atacado, mas à força exterior opuseram os que estavam dentro dele heróica resistência, impossível de descrever-se.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.