Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
O convento que acabamos de visitar fez-se outrora muito notável pelos religiosos mais ou menos eminentes em ciências e belas-artes que floresceram nele, e diz-se mesmo que os jesuítas o olhavam com os olhos vesgos por esse motivo.
Deixei lembrados oportunamente alguns dos capuchos de mais nomeada pertencentes a este convento, e quero agora mencionar os nomes de alguns outros.
Frei Bernardo do Quintaval foi um desses homens que ainda se conservam na memória de seus irmãos, apesar de terem morrido há bastantes anos. Era formado em medicina e químico de grande merecimento. Aborrecido no mundo, e querendo consagrar-se ao serviço de Deus, vendeu quanto possuía, deu aos pobres o dinheiro que realizou, veio para o Brasil, e entrando para o convento de S. Antônio do Rio de Janeiro, professou para o humilde estado de leigo, e encarregado logo da enfermaria na qualidade de primeiro enfermeiro, ilustrou-se pela sua caridade e pela sua perícia, sendo sempre ouvido e consultado pelos médicos, que muito o consideravam.
Além de muitos fatos que abonam o seu saber e a sua experiência em medicina, conta-se de frei Bernardo do Quintaval que achando-se um dia almoçando no refeitório da enfermaria com os convalescentes, entre os quais estava frei Francisco de Mont’Alverne, apareceu-lhe um jovem religioso, de manto e chapéu, que vinha despedir-se dele e dos outros, porque havia obtido do provincial uma licença de quinze dias para ir passar fora da cidade. Frei Bernardo encara-o, levanta-se apressado, pede-lhe que espere e corre à botica. Mas, voltando logo depois, apenas entra na sala, vê cair o jovem religioso, sucumbindo a um ataque de apoplexia fulminante.
– Cheguei tarde! – disse frei Bernardo, mostrando uma lanceta que trazia da botica.
Frei Bernardo do Quintaval morreu no dia 20 de agosto de 1822.
Era dantes costume celebrar-se no convento de S. Antônio, como em outros estabelecimentos e nos colégios de instrução secundária, uma festa literária e anual que se chamava defesa de conclusões.
Em uma dessas solenidades, que se efetuou em um dos anos da primeira metade do século passado, os frades capuchos, tendo previamente mandado exemplares de algumas teses filosóficas aos homens mais ilustrados da cidade, reuniram no seu convento o governador, o bispo, os religiosos mais instruídos das outras ordens, e algumas notabilidades literárias.
O lente de filosofia ocupou a sua cadeira, e quatro jovens religiosos estudantes tomaram os lugares dos defensores das teses; e depois de um longo e belo debate, acudiu a atacá-los um notável padre jesuíta que tomou a peito confundi-los. O lente veio em breve em auxílio dos seus alunos. Sendo, porém, muito velho e doente do peito, no fervor da luta começou a lançar sangue pela boca e teve de retirar-se.
A vitória estava, pois, do lado do jesuíta, ou pelo menos indecisa, quando outro jovem religioso, que contava apenas dezenove anos de idade e dois de colégio, levantou-se e pediu licença para sustentar a tese. Travou-se então, e de novo, a luta. Ao jesuíta argüente reuniram-se mais dois padres da mesma Ordem, e a discussão prolongou-se até ao último momento sem que o estudante perdesse um palmo de terreno.
O auditório aplaudiu com entusiasmo o talentoso e admirável mancebo. O bispo convidou o provincial a que desse por concluído o curso para aquele religioso, e mandou-lhe passar a patente de leitor de filosofia.
Infelizmente, pouco tempo depois, morreu esse esperançoso jovem, que se chamava frei Antônio de Mont’Alverne.
Uma vez que falei nas defesas de conclusões, quero lembrar, por curiosidade ao menos, que em outra dessas solenidades e no mesmo convento, um frade, já padre-mestre, frei Fernando de S. José de Meneses, sustentou vigorosamente uma tese contra a infalibilidade do papa. Concluído o ato, o vice-rei Luís de Vasconcelos, que estava presente, mandou trancar no cárcere o padre-mestre. A ordem foi imediatamente cumprida; mas frei Fernando, auxiliado pelos religiosos, conseguiu evadir-se. Fugiu para Lisboa, onde alcançou o seu perdão, e voltou algum tempo depois, firme, porém, na sua opinião, apesar de ser frade.
O convento de S. Antônio recorda-se ainda com saudade de frei Antônio de São Elias, que era um grande músico e, sobretudo, um organista do mais elevado merecimento. Alguns dos nossos velhos falam com entusiasmo de São Elias. Quando, em 1808, a família real portuguesa chegou ao Brasil, e começaram as festas suntuosas da capela real, foi esse frade muitas vezes chamado para tocar ali, e os maiores entendedores da matéria não pouparam elogios ao rei dos organistas, como o chamava o padre José Maurício.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.