Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Agora, a respeito de encantos de espírito, Manduca era o primeiro a dar a si próprio parabéns pela abundância que deles possuía e gastava; outra vez, aqui para nós, neste mundo cheio de gente, ainda se não achou um tolo que se não julgasse avisado.
Portanto, não lhe faltava nem beleza, nem espírito; o que era pois?... ah!... finalmente no cabo de sete dias a inteligência de Manduca deu com a causa de sua má fortuna: com toda a modéstia de que pôde valer-se, o filho de Tomásia reconheceu que não representava um grande papel na sociedade; enfim, que não era fidalgo, nem homem proeminente.
E eis o nosso Manduca a resolver, durante outros sete dias, um problema ainda mais difícil: — como se havia de tornar grande coisa em pouco tempo?...
Manduca lembrou-se da literatura...
E raciocinou:
Em um mundo todo voltado de pernas para o ar pode-se tirar algum proveito dos pés; mas da cabeça?!... ninguém mais se lembra de tal: isso de ganhar amor pelas letras já é muito antigo; foi idéia do século das trevas; está absolutamente reprovado por toda a moça que sabe executar, mesmo fora de compasso, um simples chassé croisé huit; ninguém pode mais ser amado pelas letras diante do encantamento das tretas... olhem bem, que era o tolo do Manduca que pensava assim.
Desprezado esse primeiro caminho que se lhe apresentou, veio-lhe ainda a idéia da carreira das armas; mas também já se não encanta as belas com o brilhantismo da glória e a fama de altas façanhas; as justas e os torneios lá se foram; tudo agora é mais cômodo, e menos perigoso... e, além disso, Manduca sabia que não lhe dariam patente, pelo menos de coronel; e ele não era homem que recebesse ordens aí de qualquer cabo-de-esquadra.
Mas no último de outros sete dias a brilhante inteligência de Manduca deu à luz a resolução do novo problema: estava conhecida e aberta a estrada da felicidade... a política!...
Eis a primeira e única ocasião em que Manduca mostrou em toda a sua longa vida ter algum discernimento.
E o que há aí de tão proveitoso, como um homem fazer-se político?... a política é para a maior parte um jogo que nunca se perde: quando não se ganha hoje, tem-se um bocadinho de paciência, e amanhã lucra-se por dois dias... ora, confessemos que Manduca tinha razão.
E também o que há aí de tão fácil como ser político?... a política, que pode ser matéria muito espinhosa e intrincada em todo o mundo, reduz-se em certo país, que Manduca e nós conhecemos bem, a muito pouca coisa. O essencial é o seguinte: quando se está debaixo, bramese diante do público, e pede-se nas ante-salas; e quando se está de cima, choraminga-se aos ouvidos do povo, e zomba-se dele no gabinete; e finalmente quer debaixo, quer de cima, manejase uma eleiçãozinha, escondendo-se primeiro, bem no fundo da gaveta, certos papéis escritos, a que se tem dado o nome de constituição e leis... ora, confessemos, confessemos outra vez que Manduca tinha razão.
Por conseqüência, o rapaz determinou-se a tentar ventura na lisonjeira estrada das grandezas, honras, poder e riquezas: mas por onde começar?... a que porta bater?... qual o primeiro passo a dar?...
Quem pensar que semelhante consideração seria uma terceira dificuldade, um novo problema a resolver para Manduca, engana-se redondamente: a cabeça mais desmiolada, o homem mais parvo do mundo, que entre nós se determinasse a seguir a carreira política, e procurasse o primeiro degrau para pôr sobre ele o pé, instintivamente lembrava-se da assembléia provincial.
Aí, apesar das teimosas e desprezíveis discussões das necessidades materiais da província, um homem faz por habilitar-se; tratando-se de um chafariz, enxertar-se um discurso sobre política geral... discutindo-se os melhores meios de esgotamento, vem mesmo a apelo uma longa dissertação sobre as mais intricadas questões financeiras; e, enfim, na discussão de uma ponte, pode um orador de habilidade entrar pela pasta dos negócios estrangeiros adentro, posto que anda ela quase sempre fechada com o muito cômodo e abençoado selo das questões pendentes. Manduca, que se achava com jeito para orador, pesou todas estas reflexões e, assentando de pedra e cal que devia ser deputado provincial, como visse que as eleições batiam à porta, no dia em que Brás-mimoso se dispôs a ir à casa de Venâncio, levantou-se ele pronto para meter mãos à obra, e apenas se achou na sala, declarou o propósito em que estava a seus extremosos pais.
Pouco faltou para que Tomásia perdesse o juízo de alegria, ouvindo a determinação de seu filho.
— Sempre te conheci, exclamou ela, com inspirações de gênio! Manuelzinho, saíste à tua mãe!
E Venâncio imediatamente, levantando as faces com lágrimas de prazer, disse entre soluços:
— É o que eu tenho dito mil vezes!... aquele rapaz saiu em todo à minha Tomásia! Tratou-se para logo de cabalar: Venâncio foi tomar a casaca para ir alcançar cartas de recomendação em prol do ilustre candidato; Manduca dispôs-se a ir ao correio comprar selos para as cartas; e Tomásia fez voto de pôr em campo todas as suas amigas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.