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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

O ubá parara de repente. Os patrícios não hesitaram na resposta a dar a S. Rev.ma .Três flechas — com certeza estariam ervadas -descreveram uma elipse no ar, e vieram cair pertinho da montaria. Era o tiro de aviso, seguido de novo tiro. Duas flechas cravaram-se no fundo da canoa, tão perto do Macário que só por milagre poderia ter escapado. Milagre fora esse e grande, porque os diachos dos caboclos esqueceram-se de que o ubá subia o rio, cuja correnteza natural fora aumentada pela grande chuva da véspera que nele derramara as águas do monte. Sem se lembrarem de mais nada senão flechar os pobres brancos - largaram o jacumã, e o ubá, perdendo a força impulsiva que trazia, fora de mansinho cedendo à correnteza, e virando proa para baixo, começara a descer o rio com maior rapidez do que subindo lhe poderiam dar os braços dos tripulantes. Felizmente S. Rev.ma compreendera logo que os tapuios não estavam para conversas, e dando ele e o Macário ao remo, com a maior gana deste mundo, trataram de fugir. Valeu-lhes estarem ainda a boa distância da embarcação selvagem. Milagre fora ainda ficarem os índios tão furiosos e atarantados que não souberam dividir a atenção entre a presa que fugia e a correnteza que os arrastava. Milagre fora também encontrar logo a montaria um estirão que dobrara para escapar às vistas dos ladrões dos tapuios, e altas canaranas em que se escondesse. Milagre fora achar Macário, logo ao desembarcar com o padre, um enorme taperebá, donde pudera ver, trêmulo de susto, a manobra com que os mundurucus os caçavam, remando com vigor, mas parando de vez em quando, na ingenuidade do seu ódio, para exprimir a vontade com que estavam de os colher às mãos, e logo voltando ao remo, curvados sobre os joelhos, parecendo tocar de leve a água. Uma longa esteira seguia a embarcação, refletindo os raios do sol ainda no oriente, e os troncos vermelhos dos índios destacavam-se na linha do horizonte por entre a folhagem verde.

Na altura do estirão que, ao que deviam supor, lhes encobria os brancos, dispuseram-se a atravessar o rio, mas não vendo a montaria, pararam de remar, hesitantes e surpresos. E por que cessaram a perseguição, mudando subitamente de propósito e cedendo à ordem que num gesto lhes dava o do jacumã para que remassem em direção a um furo que já haviam passado? Inconstância selvagem, necessidade urgente que os chamasse àquele furo, ligada à certeza de que os brancos não lhes escapariam, devendo cair mais tarde ou mais cedo no seu poder — pelo que mandaram um último tiro, sem pontaria, como para dizer: até logo — isso é que Macário não podia decidir. Era provavelmente milagre de Nossa Senhora do Carmo e de S. Macário. Mas por isso mesmo aquele fato devia servir de lição, e Macário estava decidido, inteiramente decidido a aproveitar-lhe o ensinamento. Não hesitaria mais,. nem teria mais fraquezas. O encanto que o prendia a padre Antônio de Morais estava quebrado para sempre. Falasse para aí horas e horas, arregalasse os olhos na grande severidade de quem se julga superior a todos, vomitasse sangue, arrebentasse os peitos, Macário não arredaria pé dali, não se levantaria daquele tronco de árvore senão para voltar rio abaixo até Silves. Ainda que tivesse de morrer de fome ou de ser devorado por alguma onça, não embarcaria senão para voltar. Jurara-o. Era muito temente a Deus, não podia faltar ao seu juramento.

Padre Antônio estava convencido de que a retirada dos mundurucus fora uma demonstração clara e positiva da Providência em favor da missão. Depois desse fato extraordinário e surpreendente era impossível abandonar o glorioso projeto de catequese. O ataque dos homens do ubá nada provava. Não podiam — coitados! ter recebido como de amigo a saudação de um homem em quem não reconheciam o caráter sacerdotal. Ao sair do sítio do Guilherme, por pura comodidade, padre Antônio cometera o grave erro de trocar o hábito talar por umas roupas grosseiras que a Teresa lhe emprestara. A sua até então, e de agora em diante, inseparável batina que acabara de vestir com o chapéu de três bicos, era suficiente para inspirar a todos os selvagens do Amazonas o maior respeito pela sua pessoa e pela do seu desanimado companheiro. E passeando em frente de Macário pensativo e cabisbaixo, S. Rev.ma o apostrofava com a eloqüência persuasiva com que pregava em Silves.

Que fraqueza era aquela dum servo de Deus, de entregar-se assim ao desespero esquecendo a sua infinita misericórdia e a sua imensa bondade? Estaria Macário arrependido de ter-se dedicado, com desapego dos bens mundanos, à obra sublime da catequese dos mundurucus, que lhe granjearia uma glória imorredoura nesta vida, e na outra a bem-aventurança eterna? Que era a miserável vida que punham ao serviço da religião do Crucificado e da civilização do Amazonas? Para o martírio haviam-se disposto desde que embarcaram para aquela viagem.

(continua...)

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