Por Aluísio Azevedo (1881)
— É, o senhor deve ter razão!... Fui eu naturalmente o assassino de seu pai!... É um rasgo generoso e justo de sua parte desmascarar-me e cobrir-me de ultrajes, aqui nesta casa, onde sempre me beijaram a mão. O senhor esta no seu direito! Olhe! agarre aquela bengala e bata-me com ela! Está moço, pode fazê-lo! está no vigor dos seus vinte e cinco anos! Vamos! Fustigue este pobre velho indefeso! castigue este corpo decrépito, que já não presta para nada! Então! bata sem receio que ninguém o saberá! Pode ficar descansado que não gritarei - tenho defronte dos olhos a imagem resignada de Cristo, que sofreu muito mais!
E o cônego Diogo, com os braços e olhos erguidos para cima, caiu de joelhos e disse entre dentes, soluçando:
— Ó Deus misericordioso! Tu, que tanto padeceste por nós, lança um olhar de bondade sobre esta pobre criatura desvairada! compadece-te da pobre alma pecadora, levada só pela paixão mundana e cega! Não deixes que Satanás se apodere da mísera. Salva-a, Senhor! perdoa-lhe tudo, como perdoaste aos teus algozes! Graça para ela! eu te suplico, graça, meu divino Senhor e Pai!
E o cônego ficou em êxtase.
— Levante-se, observou-lhe Raimundo, aborrecido. Deixe-se disso! Se lhe fiz uma injustiça, desculpe. Pode ir descansado, que não o perseguirei. Vá!
Diogo ergueu-se, e pousou a mão no ombro do moço.
— Perdôo-te tudo, disse; compreendo perfeitamente o teu estado de excitação. Sei o que se passou! Mas consola-te, meu filho, que Deus é grande, e só no seu amor consiste a verdadeira paz e felicidade!
E saiu de cabeça baixa, o ar humilde e contrito; mas, ao descer a escada para a rua, resmungava:
— Deixa estar, que mas pagarás, meu cabrinha apistolado!...
CAPÍTULO XIV
Sete dias depois, morava Raimundo em uma das suas casinhas da Rua de São Pantaleão.
Vivia aborrecido; vivia exclusivamente a esperar o dia da viagem para a Corte. Nunca a província lhe parecera tão enfadonha, nem o seu isolamento tão pesado e tão triste. Não sala quase nunca à nua; não procurava pessoa alguma, nem tampouco ninguém o visitava. Dizia-se por aí que ele estava de cama por uma bonita sova, que lhe mandara dar o pai da namorada. “Era bem feito! Para se não fazer apresentado com uma menina branca!”
Os maldizentes, empenhados na vida dele, como se Raimundo fosse um político de quem dependesse a salvação da província, afiançavam que alguma peça estava o tratante urdindo em silêncio.
— Acreditem, exclamava um dos tais, a um grupo, que todos estes sujeitos que se fazem muito santarrões e de quem a boca do mundo nada tem que dizer, são os mais perigosos! Eu, cá por mim, não me fio de ninguém! quando vejo um tipo, julgo logo mal dele; se o traste prega-me alguma, não me espanta, porque já a esperava!
— E se não prega?
— Fico na certeza de que muita coisa se faz às caladas neste Maranhão! Mas lá acreditar em virtudes de aventureiros, isso é que nem à sétima facada!
Entretanto, Raimundo levava uma vida de degradado, sem amigos e sem carinhos de espécie alguma. No seu desterro tinha por companhia única uma preta velha, que se encarregara de servi-lo; magra, feia, supersticiosa arrastando-se, a coxear, pela varanda e pelos quartos desertos fumando um cachimbo insuportável, e sempre a falar sozinha, a mastigar monólogos intermináveis.
E esta solidão enchia-o de tédio e de saudades pelas boas horas alegres, que passava dantes ao lado de Ana Rosa, aquecido ao calor benéfico da família. Ultimamente muito pouco se dava ao estudo; estava desleixado, preguiçoso, vivia para as suas preocupações recentes. Ficava horas esquecidas à mesa, depois do almoço ou do jantar, olhando vagamente para o seu quintal sem plantas, com os pés cruzados a cabeça molemente calda sobre o peito, a fumar ciganos um atrás do outro, num aborrecimento invencível.
Tomara embirrância por tudo e emagrecia.
À noite, acendia-se o candeeiro de querosene, e Raimundo assentava-se junto à secretaria, lendo distraído algum romance ou revendo as gravuras de algum jornal ilustrado. A um canto da varanda resmungava a criada, cosicando trapos. O rapaz sentia um fasto de morte, tinha espreguiçamentos de febre, moleza geral no corpo; não podia entrar com a cozinha da preta—era uma coisa muito mal amanhada—tinha nojo de beber pelos copos mal lavados; banhava com repugnância o rosto na bacia barrada de gordura. “O senhores! Que vida!” E ficava cada vez mais nervoso e frenético; esperava o dia da viagem contando os minutos; porém, a despeito de tudo, sentia uma surda e funda vontade de não ir, uma íntima esperança de ser ainda legitimamente amado por Ana Rosa.
— Impossível!... concluía sempre, fazendo-se forte. Deixemo-nos de asneiras!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.