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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

“Foi recolhido à primeira casa, que era felizmente de um amigo. Meia hora depois já lhe principiava a faltar a respiração: a moléstia subia, ameaçando-lhe o estômago. Fez-se uma junta de médicos; ficou resolvido que o doente devia seguir, sem perda de tempo, para qualquer parte, — Caxias, Rosário, mesmo Alcântara, a Vila do Paço, que fosse; contanto que saísse da cidade, quanto antes, até aparecer um vapor que o levasse para mais longe.

“Partiu nesse mesmo dia, dentro de uma rede, com direção à Vila do Paço. Mas o terrível beribéri subia sempre; os membros por onde ele atravessava iam ficando paralisado e frios como membros de defunto. A onda maldita galgara finalmente a caixa torácica, Vasconcelos não pôde respirar de todo e morreu”.

Amélia, ao receber a inesperada notícia, rebentou num berreiro e tratou de cobrir-se de luto fechado.

O irmão também se vestiu de preto, fez cerrar as portas e as janelas da casa por sete dias e, durante esse tempo, andou tristonho e anojado.

* * *

Amâncio perturbou-se deveras com a morte do pai. Há bastante tempo mentalizava projetos de , em voltando à província, tratá-lo de modo tão carinhoso e tão amigo, que sua consciência ficasse, por uma vez, tranqüila a esse respeito. Havia no segredo de tal intenção o sabor inefável de um voto religioso. E seus planos, assim malogrado de repente, enchiam-lhe agora o coração de tristeza e as noites de sonhos tormentosos.

Mas Amelinha lá estava para o consolar, para lhe reprimir os gemidos com a polpa vermelha de seus lábios, e espantar-lhe os negrumes do desgosto com a luz voluptuosa de seus olhos e com a doçura cristalina de suas palavras.

Veio o Campos. Trataram longamente do “triste acontecimento”: Amâncio queria dar um pulo ao Norte: a mãe com certeza precisava dele as seu lado, quando mais não fosse para tratar do inventário.

O negociante já não compreendia assim: “ Estavam a chegar os exames; Amâncio, ase saísse da Corte naquele momento, perderia o ano; o melhor, por conseguinte, seria esperar pelas férias. Pois então! eram mais alguns dias de demora que não prejudicavam a ninguém!...”

Coqueiro pensava do mesmo modo. “Nem o colega encontraria alguém com um bocadinho de juízo que lhe aconselhasse uma semelhante viagem antes do ato. Era até loucura pensar nisso!”

Cruzaram-se cartas entre o Rio de Janeiro e Maranhão. Amâncio foi considerado maior pelo Juiz de órfãos, podia receber o que lhe tocavas na herança. Mas a firma liquidante ofereceu-lhe sociedade em comandita; ele aceitou, a conselho de Campos, e insti5tuiu na província um advogado de confiança para lhe curar os bens. Escolheu-se o Dr.Silveira, o dos cabelos pintados, aquele mesmo que, no dia do exame de português, se mostrara tão entusiasmado pelo rapaz.

Até que enfim estava Amâncio livre e senhor de sua bolsa; podia gastar à farta, sem sofrer daí em diante as peias da mesada. E não o amedrontava igualmente o risco de cair na penúria, porque ainda havia para reserva o que tinha a herdar da mãe e da avó.

Os carinhos e as solicitudes da família Coqueiro inflamaram-se, já se vê, com os últimos acontecimentos. O estudante era cada vez mais adulado e em compensação mais explorado. Agora, o irmão de Amélia não punha o menor escrúpulo lhe aceitar os obséquios e a casa ia ficando a pouco e pouco às costas do provinciano.

Era sempre por intermédio de Amélia que ele sofria a cardadura. Hoje tratavase do aluguel da casa, amanhã seria a conta do Eiras, depois a dos fornecedores; se entrava um barril de vinho para a despensa, ou um saco de feijão; se aparecia um novo aparelho de porcelana à mesa do almoço ou do jantar, Amâncio ficava à espera da fatura que, à noite, impreterivelmente, passava as mãos da rapariga para as suas.

Amelinha, essa então, já não procurava rodeios para lhe arranjar as coisas. Quando precisava de um vestido, de uma jóia, de um chapéu, dizia-lhe secamente:” Deixe-me tanto, que amanhã tenho de fazer compras”.

E as despesas das casa recrudesciam, à proporção que minguavam os lucros. O guarda-livros despedira-se, porque afinal chegara a época do seu casamento, e ninguém o substituiu; só ficou advogado que deixaria por mês, quando muito, uns duzentos mil-réis.

Amâncio ia suportando a carga silenciosamente, certo de que não encontraria dificuldade em despejá-la, assim que a coisa lhe cheirasse mal.

Todavia, o dinheiro era já o único recurso de que dispunha para fazer calar a amante, quando esta lhe falava em casamento. Em tais ocasiões, a rapariga chorava quase sempre; dizia-se infeliz; queixava-se da sorte. “Que Amâncio fora a sua perdição! Que ela cedera aos rogos dele na persuasão de que era amada e de que mais tarde seria sua esposa!”

— Ora, filha! Nós, antes de cairmos na asneira em que caímos, não tocamos uma só vez em casamento! E , se queres que te diga com franqueza, eu até nem supunha ser o primeiro com quem tivesses relações!...

(continua...)

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