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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Vendo agora de perto os resultados de sua perfídia; conhecendo-se assassino, sem ter nunca pensado sê-lo; vendo seus senhores sujeitos aos duros azares que a vitoria dos contrários poderia trazer; vendo a ele próprio sem ação, sem meios para afastar todos aqueles horrores, vencer todas aquelas cruéis fatalidades, encher o grande abismo que ameaçava engoli-los, enfim reparar aquela imensa desgraça de seu natural irreparaval, só faltou ao negro completar o seu martírio mudo e imponderável, cortando com suas próprias mãos o fio da existência a que um momento se haviam rasgado horizontes cor de rosa, logo após convertidos em profundas e infernais escuridões. Ó liberdade, quanto pareceste dolorosa nesse transe ao pobre escravo, vitima da natural ambição de te possuir!

O estampido de uma nova descarga, abalando violentamente todos os espíritos, veio como reacender a perdida veemência do de Germano. Sua impetuosidade etiópica rebentou pujante, como a catadupa que jorra subitamente de solo frio e pedregoso.

O negro tivera uma inspiração grandiosa, digna da heroicidade romana. Pondo-a em pratica, reabilitava-se perante sua própria consciência e dava manifesto testemunho ao senhor-de-engenho da sua gratidão. ] - Senhor, senhor, - disse ele a João da Cunha, tendo na mão desembainhado o facão com que tirara a vida a Moçambique – a água molhou as armas e a pólvora, mas não molhou o facão de Germano. Ainda que estivesse molhado, era agora a ocasião de o enxugar nos corações dos mascates. Se senhor dá licença, vou esperar os inimigos da banda de fora com meus companheiros.

- Quantos estão aqui?

- Dezenove, respondeu Germano.

Não, agora somos trinta, respondeu ao pé do sargento-mór o Roberto, que descera. Nesse momento nova descarga soou na sala do sobrado. João da Cunha, espantado, perguntou a Roberto:

- Quem é que ainda atira lá em cima? Não estão vocês todos cá embaixo?

De feito, todos os negros, que Roberto capitaneava, achavam-se com os outros no armazém.

- É a senhora d. Damiana, com as negras.

- Que loucura! E onde acharam munições? Onde acharam munições?

- Lá em cima. A senhora d. Damiana tinha muitas dúzias de cartuchos guardados. Cada um de nós tem já a patrona cheia.

- Graças, meu Deus! exclamaram os fidalgos. Mas então porque desceram, porque abandonaram seu posto? perguntou o sargento-mór.

- Foi ela que nos mandou para baixo. Ela disse que havia mais necessidade de nós cá embaixo onde nenhum tiro se disparava, do que lá em cima. E a senhora d. Damiana teve razão – disse Filipe Cavalcanti, que, tendo ido olhar pelos olhais, voltara correndo ao lugar onde estas coisas se passavam. Acudam todos. Os bandidos batem-nos à porta. Uma descarga agora contra eles deve ser de grande proveito para nós. Correram todos os que tinham as armas carregadas. Um estampido imenso ecoou dentro do vasto armazém. No chão da rua caíram vários dos assaltantes – muitos feridos, alguns mortos. Era o primeiro sinal de vida que dava de se para o lado de fora o armazém.

Tomando por estratégia o silencio que até então ai reinara, recuaram os assaltantes amedrontados, mas não o fizeram tão prontamente que ficassem logo fora do alcance de novos tiros disparados do sobrado, desta vez mais certeiros do que das outras. Novas perdas contou a força invasora.

Quando cessou de todo o estrondo da ultima descarga, uma voz vibrou nos ares, forte e pujante, por entre as exclamações de dor dos feridos. Partia ela do cruzeiro e parecia dirigir-se aos do sobrado.

Mulheres ímpias, mulheres ímpias, que atirais contra a cruz do redentor, vede lá não venhais rasgar as veias sacrossantas daquele que em espirito está aqui pregado nela. Ergueram-se todas as vistas ao ponto donde tais palavras caiam.

Um vulto vestido de negro destacava sobre a larga peanha do cruzeiro. Estava de pé, o braço esquerdo passado em torno da haste pétrea, enquanto o direito destendido parecia acompanhar e completar a direção e o eco de sua voz. A cara branca e macilenta, o perfil negro e esguio, a voz fina e vibrante davam aquele vulto certa aparência majestosa e patética. O que sobressaia nele, cercando-o de uma como virtude misteriosa e fatal, era o animo terso, a temeridade a modo de barbara, a fé passiva e animal que o fizera levantar-se diante das balas inimigas, que em torno de se cortavam o fio de muitas vidas. Esse vulto, esse espectro, esse animo que excedia a medida humana, era um membro da Companhia-de-Jesus. Era o padre Henrique Celini. Fora mandado expressamente do Recife para pregar contra os nobres e a favor dos mercadores. Seu nome devia figurar depois na carta monitoria em que o bispo cometia ao Padre Manoel Lopes todas as necessárias faculdades a fim de que ‘notificasse certos clérigos para aparecerem em sua presença, e os corrigisse da escandalosa missão de andarem seduzindo os ânimos dos que os ouviam a seguirem por seleta e segura a nova doutrina sustentada pelos conjurados do Recife, com a qual agitaram o povo e deram tanto abalo a toda a terra.’

(continua...)

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