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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

Pintou a posição de todos como desesperada, atribuiu o seu castigo e as desgraças que iam suceder ao fanatismo que havia por Peri; esgotou enfim os recursos da sua inteligência.  

D. Antônio não estava mais ai para conter com a sua presença a cólera que ia fermentando, a excitação que começava a lavrar, a princípio surdamente, as queixas e os murmúrios que afinal fizeram coro. 

Um incidente veio atear a chama que lastrava; Peri, apenas começou a romper o dia, viu a alguma distancia do jardim o cadáver de Rui Soeiro; e temendo que sua senhora acordando presenciasse esse triste espetáculo tomou o corpo, e atravessando a esplanada, veio atirá-lo no meio do pátio. 

Os aventureiros empalideceram e ficaram estupefatos; depois rompeu a indignação feroz, raivosa, delirante; estavam como possessos de furor e vingança. Não houve mais hesitação; a revolta pronunciou-se; apenas o pequeno grupo de quatro homens que desde a saída de D. Antônio se conservava em distancia, não tomou parte na insubordinação. 

Ao contrário, quando viram que seus companheiros, com Loredano à frente se preparavam para atacar o fidalgo, foram, como vimos, oferecer-se voluntariamente ao castigo, e reunir-se ao seu chefe para partilharem a sua sorte. 

Pouco tardou para que João Feio não se apresentasse como parlamentário da parte dos revoltosos; o fidalgo não o deixou falar. 

— Dize a teus companheiros, rebelde, que D. Antônio de Mariz manda e não discute condições: que eles estão condenados; e verão se sei ou não cumprir o meu juramento. O fidalgo tratou então de dispor os seus meios de defesa; apenas podia contar com quatorze combatentes: ele, Álvaro, Peri, Aires Comes, mestre Nunes com os seus companheiros, e os quatro homens que se haviam conservado fiéis; os inimigos eram em número de vinte e tantos. 

Toda a sua família já então despertada recebeu a triste noticia de tantos acontecimentos passados durante aquela noite fatal; D. Lauriana, Cecília e Isabel recolheram-se ao oratório, e rezavam enquanto se preparava tudo para uma resistência desesperada. 

Os aventureiros comandados por Loredano arregimentaram-se e marcharam para a casa dispostos a dar um assalto terrível; o seu furor redobrava tanto mais, quanto o remorso no fundo da consciência começava a mostrar-lhes toda a hediondez de sua ação. 

No momento em que dobravam o canto, ouviu-se um som rouco que se prolongou pelo espaço, como o eco surdo de um trovão em distancia. 

Peri estremeceu, e lançando-se para a beira da esplanada estendeu os olhos pelo campo que costeava a floresta. Quase ao mesmo tempo um dos aventureiros que estava ao lado de Loredano caiu traspassado por uma flecha. 

— Os Aimorés!... 

Apenas soltou Peri esta exclamação, uma linha movediça, longo arco de cores vivas e brilhantes, agitou-se ao longe da planície irradiando à luz do sol nascente. 

Homens quase nus, de estatura gigantesca e aspecto feroz; cobertos de peles de animais e penas amarelas e escarlates, armados de grossas clavas e arcos enormes, avançavam soltando gritos medonhos. 

A inúbia retroava; o som dos instrumentos de guerra misturado com os brados e alaridos formavam um concerto horrível, harmonia sinistra que revelava os instintos dessa horda selvagem reduzida à brutalidade das feras.

— Os Aimorés!... repetiram os aventureiros  empalidecendo.  

VIII 

DESÂNIMO 

 

Dois dias passaram depois da chegada dos Aimorés; a posição de D. Antônio de Mariz e de sua família era desesperada. 

Os selvagens tinham atacado a casa com uma força extraordinária; diante deles a índia, terrível de ódio, os excitava à vingança 

As setas escurecendo o ar abatiam-se como uma nuvem sobre a esplanada, e crivavam as portas e as paredes do edifício. 

À vista do perigo iminente que corriam todos, os aventureiros revoltados retiraram-se e trataram de defender-se do ataque dos selvagens. 

Houve como que um armistício entre os rebeldes e o fidalgo; sem se reunirem, os aventureiros conheceram que deviam combater o inimigo comum, embora depois levassem ao cabo a sua revolta. 

D. Antônio de Mariz, encastelado na parte da casa que habitavam, rodeado de sua família e de seus amigos fiéis, resolvera defender até à última extremidade esses penhores confiados ao seu amor de esposo e de pai. 

Se a Providência não permitisse que um milagre os viesse salvar, morreriam todos; mas ele contava ser o último, a fim de velar que mesmo sobre os seus despojos não atirassem um insulto. 

Era o seu dever de pai, e o seu dever de chefe; como o capitão, que é o último a abandonar o seu navio, ele seria o último a abandonar a vida, depois de ter assegurado às cinzas dos seus o respeito que se deve aos mortos. 

Bem mudada estava essa casa que vimos tão alegre e tão animada! Parte do edifício que tocava com o fundo onde habitavam os aventureiros tinha sido abandonada por prudência; D. Antônio concentrara sua família no interior da habitação para evitar algum acidente. 

(continua...)

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