Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Como na Bahia se criam algumas frutas que se comem, em ervas que não fazem árvores, pareceu decente arrumá-las neste capítulo apartadas das outras árvores. E comecemos logo a dizer dos maracujás, que é uma rama como hera e tem a folha da mesma feição, a qual atrepa pelas árvores e as cobre todas, do que se fazem nos quintais ramadas muito frescas, porque duram sem se secar, muitos anos. A folha da erva é muito fria e boa para desafogar, pondo-se em cima de qualquer nascida ou chaga e tem outras muitas virtudes; e dá uma flor branca muito formosa e grande que cheira muito bem, de onde nascem umas frutas como laranjas pequenas, muito lisas por fora; a casca é da grossura da das laranjas de cor verde-clara, e tudo o que tem dentro se come, que além de ter bom cheiro tem suave sabor. Esta fruta é fria de sua natureza e boa para doentes de febres, tem ponta de azedo e é mui desenfastiada; e enquanto é nova, faz-se dela boa conserva; e enquanto não é bem madura, é muito azeda.Canapu é uma erva que se parece com erva-moura, e dá uma fruta como bagos de uvas brancas coradas do sol e moles, a qual se come, mas não tem sabor senão para os índios.Modurucu é nem mais nem menos que uma figueira das que se plantam nos jardins de Portugal, que tem as folhas grossas, a que chamam figueiras-da-índia; estas têm as folhas de um palmo de comprido e quatro dedos de largo e um de grosso, e nascem as folhas nas pontas umas das outras, as quais são todas cheias de espinhos tamanhos e tão duros como agulhas, e tão agudas como elas, e dão fruto nas pontas e nas ilhargas das folhas, que são uns figos tamanhos como os lâmparos, vermelhos por fora, com a casca grossa que se não come; o miolo é de malhas brancas e pretas; o branco é alvíssimo, e o preto como azeviche, cujo sabor é mui apetitoso e fresco; o que se cria nas areias ao longo do mar.Marujaíba são uns ramos espinhosos; mas, limpos dos espinhos, ficam umas canas pretas que servem de bordões como canas de rota, cujos espinhos são pretos, e tão agudos como agulha. Nos pés destes ramos se dão uns cachos como os das tamareiras, feitos os fios em cordões cheios de bagos como os de uvas ferrais, e do mesmo tamanho, os quais têm a casca dura e roxa por fora, e o caroço dentro como cerejas, o qual com a casca se lhe lança fora; e gosta-se de um sumo que tem dentro, doce e suave.Ao longo do mar se criam umas folhas largas, que dão um fruto a que chamam carauatá, que é da feição de maçaroca, e amarelo por fora; tem bom cheiro, a casca grossa e tesa, a qual se lança fora para se comer o miolo, que é mui doce, mas em-pola-se a boca a quem come muita fruta desta.Há uma erva que se chama nhambi, que se parece na folha com coentro, e queima como mastruços, a qual os comem índios e os mestiços crua, e temperam as panelas dos seus manjares com ela, de quem é mui estimada.
C A P Í T U L O LVII
Em que se declara a propriedade dos ananases não nomeados.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.