Por Inglês de Sousa (1891)
Viera a noite e a chuva caía sempre, obrigando os viajantes a deixar os remos e a esgotar a água que a canoa fazia por todo o costado. Não fora possível fazer fogo para preparar a comida. Abeirados a um estirão de terra que se lhes deparara, fora preciso passar ali a noite toda, interminável e chuvosa, na escuridão. A chuva já não dava em bátegas, mas num fino e frio chuvisqueiro, contínuo e monótono, penetrando os ossos. Do Canumã, das margens alagadas, do seio da floresta, embebida em água, vinham vapores úmidos, um grande cheiro de barro, de madeiras molhadas, de folhas secas repassadas de água, de paus apodrecidos, de lama revolvida. E do céu tenebroso e infinito a chuva caía ainda, trocando umidade por umidade, e saturando de água a terra, como se lhe quisesse extinguir o ardor do seio com um novo dilúvio fecundante.
Naquele dia o sacristão Macário fora sentar-se à beira do rio, sobre um tronco verde, sem querer ouvir os discursos com que padre Antônio de Morais procurava confortá-lo, ou iludi-lo, como fizera até ali. Deixava-se estar abismado nos profundos pensamentos que substituíam a alegre despreocupação de outrora. Depois daquela horrorosa noite de chuva, passada em densas trevas à margem do Canumã, não houvera remédio senão prosseguir na viagem, uma vez novamente calafetada a reles montaria do Guilherme, em busca do maldito porto dos Mundurucus, cada vez mais distante, e que, naquela ocasião de desespero, oferecia-lhes um fim e um abrigo, fosse embora esse fim a morte, e esse abrigo a sepultura.
A infame covardia de que agora Macário com maior indignação se acusava, à luz do sol dum belo dia, o levou naquela ocasião a consentir na continuação da viagem, pelo desânimo que dele se apoderara, cansado, faminto, molhado, incapaz dum ato de energia, cedendo à fatalidade que o arrastava para o abismo pelo órgão daquele padre endemoninhado. E o resultado de mais essa fraqueza, quando já tantas decepções e infelicidades o haviam castigado, fora arriscá-lo ao maior perigo que jamais correra em dias da sua vida. Ah! o sargento de polícia espancava-o, padre José, que Deus houvesse, descompunha-o, mas nenhum deles pensara em mandá-lo para os anjinhos! Fora preciso que viesse a Silves padre Antônio de Morais para que Macário de Miranda Vale fosse o mais infeliz dos homens!
Haviam largado do porto em que passaram a noite chuvosa, e alguma coisa confortados com o regalo de dois gordos pacus que, por milagre! Macário pescara e assara ao espeto. Remavam regularmente, quando avistaram uma canoa que levava a mesma direção da montaria, mas seguindo a margem oposta do rio. Pararam de remar para esperar os companheiros que vinham mais atrasados, felicitando-se pelo auxílio que lhes chegara de improviso. A idéia de esperar fora do padre, porque Macário era homem experiente e desconfiava de tudo! Mas o senhor vigário não tinha medo de nada! Afinal a tal canoa de companheiros era nada mais nem menos — e só de pensá-lo Macário estremecia de horror — um ubá selvagem que surdira do Mamiá e navegava talvez para alguma aldeia da vizinhança.
A tempo teriam evitado o perigo, porque o ubá, tripulado por três índios, trazia grande velocidade, e seguia pela margem oposta, sem que os selvagens tivessem visto a pobre montaria. Mas a incrível imprudência e a espantosa leviandade de padre Antônio de Morais não o permitiram. S. Rev.ma queria à fina força converter mundurucus! S. Rev.ma queria a todo o custo ser mártir da Igreja! S. Rev.ma queria morrer flechado, embora sacrificando também a vida de quem não era padre, nem doido, nem nada!
Por isso em vez de deixar passar o ubá, Padre Antônio pusera-se a gritar como um possesso:
— Bom-dia, patrícios!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.