Por Aluísio Azevedo (1881)
— Percebo! exclamou Ana Rosa transformando-se e cobrindo o rosto com as mãos. E que não me ama! Nunca me amou, o miserável!
E abriu a chorar.
— Hein?! Olá! Então que quer isto dizer... Ora os meus pecados! Ai, que isto de mulheres não há quem as entenda!
Ana Rosa fugiu para o seu quarto, nervosa, soluçando, e atirou-se de bruços na rede.
O pai seguiu-a assustado:
— Então, minha filha, que é isto?... — Diabo da peste!
E a infeliz soluçava.
— Então, que tolice a tua, Anica! Olha, minha filha! escuta!
— Não quero escutar nada! Diga-lhe que pode ir quando entender! Pode ir, que ate é favor!
— Grande coisa perdes, na verdade! Ora vamos! Nada de asneiras!
Ana Rosa continuava a soluçar. cada vez mais aflita, com o rosto escondido nos braços; as mangas do seu vestido e os travesseiros da rede estavam já ensopados das lágrimas. Assim levou algum tempo, sem responder ao que lhe dizia o pai, de repente suspendeu de chorar, ergueu a cabeça e soltou um gemido rápido e agudo. Era o histérico.
— Diabo! resmungou Manuel, coçando a nuca atrapalhado. E chamou logo pelos de casa: D. Maria Bárbara! Brígida! Mônica!
O aposento encheu-se imediatamente.
O cônego Diogo, que ficara na saleta, à espera daquela conferência de Manuel com a filha, entrou também atraído pelos gritos da afilhada.
— Hoc opus hic labor est!
Nessa ocasião, Raimundo, no seu quarto, passava pelo sono, estendido sobre um divã. Sonhava que fugia com Ana Rosa e que, em caminho, eram, os dois, perseguidos por três quilombolas furiosos armados de facão. Um pesadelo. Raimundo queria correr e não podia: os pés enterravam-se -lhe no solo, como no tujuco, e Ana Rosa pesava como se fosse de chumbo. Os pretos aproximavam-se, dardejando os fenos, iam alcançá-los. O rapaz suava de medo; estava imóvel, sem ação, com a língua presa.
Os gritos reais da histérica coincidiam com os gritos que Ana Rosa, no sonho, soltava, ferida pelos mocambeiros. Com o esforço, Raimundo pulou do divã e olhou estremunhado em torno de si; depois, deitou a correr para a varanda.
O cônego, ouvindo-lhe os passos, veio sair-lhe ao encontro.
— Attendite!
— Ora, até que enfim nos encontramos! disse-lhe Raimundo.
— Pschio! fez o cônego. Ela está sossegando agora! Não vá lá, que lhe pode voltar o ataque!... O senhor é o causador de tudo isto!...
— Preciso dar-lhe duas palavras incontinente, senhor cônego!
— Homem, deixe isso para outra ocasião... Não vê o alvoroço em que está a casa?...
— Se lhe digo que preciso falar-lhe incontinente!... Ande! Vamos ao meu quarto!
— Que diabo tem o senhor que me dizer?!
— Quero tomar alguns esclarecimentos sobre São Brás, percebe?
— Horresco referens!...
E Raimundo, com um empurrão, meteu-se, mais o cônego, no quarto, e fechou-se por dentro.
— Vá dizer-me quem matou meu pai! exclamou, ferrando-lhe o olhar. — Sei cá!
E o cônego empalideceu. Mas estava a prumo, defronte do outro. Cruzou os braços.
— Que quer isto dizer?...
— Quer dizer que descobri afinal o assassino de meu pai e posso vingar-me no mesmo instante!
— Mas isto é uma violência! tartamudeou o padre, com a voz sufocada pela comoção.
E, fazendo um esforço sobre si, acrescentou mais seguro:
— Muito bem senhor doutor Raimundo! muito bem! Está procedendo admiravelmente! É então por esta forma que me pede noticias de seu pai? é este o modo pelo qual me agradece a amizade fiel, que dediquei noutro tempo ao pobre homem? Fui o seu único amigo, o seu amparo, a sua derradeira consolação! e é um filho dele que vem agora, depois de vinte anos, ameaçar um pobre velho, que foi sempre respeitado por todos! Parece que só esperavam que me embranquecessem de todo os cabelos, para insultarem esta batina, que foi sempre recebida de chapéu na mão! Ah, muito bem! muito bem! Era preciso viver setenta anos para ver isto! muito bem! Quer vingar-se? Pois vingue-se! Que lho impede?! Sou eu o criminoso? Pois venha o carrasco! Não me defenderei, mesmo porque já me faltam as forças para isso!... Então! que faz que não se mexe?!
Raimundo, com efeito, estava imóvel. “Ter-se-ia enganado?...” À vista do aspecto sereno do cônego chegara a duvidar das conclusões dos seus raciocínios. “Seria crive! que aquele velho, tão brando, que só respirava religião e coisas santas, fosse o autor de um crime abominável?,..” E, sem saber o que decidir, atirou-se a uma cadeira, fechando a cabeça nas mãos.
O padre compreendeu que ganhara terreno e prosseguiu, na sua voz untuosa e resignada:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.