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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Até o guarda-livros que às vezes passava dias e dias sem dar uma palavra, estava essa noite disposto a falar pelos cotovelos. Ainda pilhara o chá e, repimpando na cadeira, com um brilhante a luzir num dedo, o ar satisfeito, os punhos bem engomados, taramelava a respeito dos seus projetos de casamento. “Sim, que ele, havia coisas de ano e meio, estava para desposar uma linda menina e de educação esmeradíssima. Já há tempos a pedira!... Só esperava que a casa, onde trabalhava desde os seus quinze anos, lhe desse sociedade, como aliás, havia já prometido. — Ah! Toda a sua ambição era fazer família! Que vidinha melhor que a do casado?...o matrimônio era um complemento do homem...A gente enquanto moça não sentia a falta da esposa, mas depois?...quando chegasse a velhice?...Aí é que seriam elas! Não! não podia admitir um eterno celibato!...A vida do solteiro tinha seus encantos, tinha, para que negar?...os espinhos, porém, eram em maior número; se eram!...

E citava os casos.

Amâncio retirou-se da varanda, sufocado de raiva. Preferia esperar no quarto.

Deram onze horas. Amelinha pediu licença e também se recolheu. Mme. Brizard, à cabeceira da mesa, já bocejava, entretendo os dedos, a fazer pílulas das migalhas de pão que ficaram do chá; o marido, ao lado dela, estudava mecânica racional.

Veio finalmente o copeiro levantar a mesa e buscar o César para a cama. O guarda-livros apertou as mãos de todos e sumiu-se; o sujeito dos partido liberá , a despeito das insistências do amigo, despediu-se igualmente e, quando o advogado, que o fora acompanhar até o portão da chácara voltou à varanda, já não encontrou ninguém.

Em pouco a casa era todo silêncio e trevas. Então, Amelinha, deixou o quarto sorrateiramente, tirou as botinas, apanhou as saias e galgou a escada do sótão.

Amâncio, que a esperava na porta, logo que a teve ao alcance da mão, puxou-a para dentro, e deu uma volta à fechadura.

* * *

Desde esse momento, a vida em casa de Mme Brizard tornou-se para ele uma coisa muito agradável. Ninguém mostrava desconfiar, ao menos, de suas intimidades com Amélia, que pelo seu lado parecia satisfeita com o estado de coisas.

Só uma ligeira circunstâncias covardemente o arreceava: É que a pequena não lhe exibira em quarta ou quinta edição, como dizia o Paiva, mas em comprometedoras primícias, com todos os cruentos requisitos de uma estréia.

Fugiu o primeiro mês de lua-de-mel, sem o menor eclipse. Contudo, ele agora puxava um pouco mais pela bolsa: a família estava em crise; a pensão de Nini absorvia os proventos que se obtinham do Tavares e do guarda-livros; o casarão da Rua do Resende apenas se conseguira alugar em parte; os gêneros de primeira necessidade eram mais caros em Santa Teresa.

Mas que valia tudo isso posto em confronto aos gozos que lhe proporcionava a deliciosa rapariga?

Ela parecia viver exclusivamente para lhe dar carinhos e afagos. Era como se fora sua esposa; deixava tudo de mão para só cuidar do amante. — Ele estava em primeiro lugar! Agora a pequena lhe fazia a cama; levava-lhe ao quarto o moringue d’água, penteava-lhe os cabelos, e exigia que o rapaz lhe dissesse os passos que dava, por onde estivera, com quem falara e o dinheiro que gastara. Revistava-lhe conjugalmente as algibeiras, lia-lhe as cartas e, sempre desconfiada, cheirava-lhe as roupas.

Amâncio sorria de tais ciúmes, com o ar seguro de quem desfruta em paz uma felicidade legítima e abençoada por todos. Já não furtava beijinhos assustados por detrás das portas; não roçavam os joelhos por debaixo da mesa, e não se serviam das mãos como instrumentos de amor; guardavam-se para as liberdades da noite, para a independência do quarto. Na ocasião, porém, em que ele saia para as aulas ou à noite para o passeio, beijocavam-se, sempre, como dois bons casados.

Entretanto, as épocas de exame batiam à porta. Amâncio vivia em desassossego com os seus estudos tão mal apercebidos; mas o Coqueiro dava-lhe coragem, ensinando-lhe como devia proceder, dizendo-lhe o que devia estudar de preferencia, aconselhando-o a que não tivesse medo. “Amâncio que se apresentasse de cabeça erguida: o bom êxito nos exames dependia quase sempre do desembaraço mais ou menos atrevido do concorrente!” E citava exemplos: “Fulano que apenas conhecia dois pontos de tal matéria, chimpara distinção, só porque era de um descaramento imperturbável; ao passo que sicrano, apesar de muito bem preparado, não conseguira passar com a sua vozinha trêmula e o seu todo raquítico e assustado!”

Um novo acontecimento veio, porém, desviar Amâncio daquela preocupação:

por telegrama de sua província, constou-lhe que o velho Vasconcelos morrera de beribéri fulminante.

Os pormenores chegaram no primeiro vapor: “Vasconcelos fora atacado como hoje e morrera como depois de amanhã. Ia pela rua, muito senhor de si, quando, de repente, sentiu afrouxarem-se-lhe as pernas e teria desabado no chão, se dois homens que passavam não o socorressem prontamente.

(continua...)

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