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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

À mesa, que champanha! Laura torcia o nariz aos pratos e queixava­se de falta de apetite. A companheira fazia então milagres de ternura, afagava­lhe os cabelos! batia­lhe com o dedo na polpa do queixo, e começava a falar­lhe com voz de criança:

— Bebê não faz a vontadinha de Ambrosina?... Ambrosina fica triste!

E Laura, já a rir, tomava nos dentes o bocado que a outra lhe levava à boca.

Assim passaram quase um mês na Bahia. O paquete, que as devia levar para Europa, era esperado dai a quatro dias. As duas viviam a sonhar com Paris.

À tarde, depois do jantar, quando não davam uma volta pelo Passeio Público, ficavam a ler, estendidas no divã.

Estas leituras entravam pela noite Vinha a criada acender o lustre, e as duas amigas permaneciam juntinhas ao lado uma da outra, como duas rolas no mesmo ninho.

Era quase sempre Ambrosina quem lia em voz alta. Laura escutava religiosamente.

Uma tarde, o sol já se havia escondido e a dúbia claridade que precede o crespúsculo da noite entrava pela janela e derramava­se triste no amoroso silêncio da alcova; uma nesga do céu aparecia, lá ao longe, afogada nos últimos resplendores do dia, e um ar morno e pesado agitava preguiçosamente a renda das cortinas; as duas raparigas achavam­se, mais que nunca, empenhadas na leitura. Era um romance de Theophile Gautier, traduzido por Salvador de Mendonça, "Mademoiselle de Maupiu".

Estavam na cena do jardim, e a voz de Ambrosina, muito sonora e levemente comovida, dizia bem e com justeza as frases apaixonadas do grande boêmio fantasista. Mais parecia ela discursar que proceder a uma simples leitura; a expressão, o sentimento, o calor, que punha nas palavras, as faziam suas, ditas e pensadas, ali, na inspiração, voluptuosa e confidencial daquela intimidade.

Laura, de olhos fechados, lábios trementes, corpo abandonado sobre o divã, parecia enlevada num idílio místico. E a noite caía sobre elas como um véu protetor.

Em breve, já não podiam ler. O livro desabara sobre o tapete.

Laura estorceu­se então numa agonia mortal, abraçando­se à companheira, e abriu a soluçar histericamente.

Era um chorar louco, apaixonado, febril.

Ambrosina, sem compreender semelhante crise, procurava inutilmente estancar as lágrimas da pobre moça.

Entretanto, abriu­se a porta do interior da casa, e a criada apareceu, dizendo que um homem procurava por D. Ambrosina Moscoso.

— Um homem?! exclamou esta, erguendo­se espantada.

— Diz que da parte da justiça... explicou a criada, hesitante.

Ambrosina sentiu uma pontada no coração.

Laura correu para dentro, e a outra, logo que recuperou o sangue frio, perguntou à mucama que espécie de gente a procurava.

— É um moço magro, cara lisa, um sinal de bigode, bem vestido.

— Louro?!

— Não senhora.

— Ah! Respiro!

E, tomando uma resolução:

— Que entre, para a sala.

O sujeito era Melo Rosa, que se fez reconhecer desde o corredor com a sua alegria espalhafateira e artificial.

— Ora, finalmente! gritou ele com uma gargalhada, quando se achou defronte de Ambrosina. Não contavas com esta surpresa, hem, minha bela espertalhona?

— Confesso que não, e até mais, que ela depõe largamente contra o seu espírito!...

— Isso agora é que é de mau gosto, e não parece vir de ti. Concordo em que não estimes a minha visita, mas não em que o declares! E a primeira vez que te vejo denunciar pela fisionomia uma contrariedade...

E dizendo isto, o Meio se havia instalado comodamente em uma cadeira de braços. Ambrosina, assentada defronte dele, inspecionava­lhe a cor das meias, o feitio do casaco e a extravagância da gravata. — Onde teria aquele tipo arranjado dinheiro para embonecar­se daquele modo?... dizia ela consigo.

— Mas, enfim?... perguntou. Qual é o motivo da sua visita? o que o traz aqui?

— Pois não percebeste ainda?

— Juro que não.

— Estás a fazer­te esquerda, meu amor!

— É birra!

— Mas, que diabo! não percebeste, filha, que fui logrado por ti e procuro chamar a mim o que me pertence de direito? Olha que sempre me obrigas a umas franquezas!...

— Pois ainda o não entendi... Explique­se!

— Mas, como não entendeste?.

— Decerto! sei que o senhor quis defraudar em certa quantia o homem com quem eu estava, e eu não consenti... Aí tem o que sei!

— Perdão; não é isso o que tu sabes! O que tu sabes é que nós combinamos os dois passar a perna ao Gabriel em vinte contos de réis, e pôr­nos ao fresco, deixando o pato com cara de tolo! Queres franqueza, toma! Ora, tu sozinha não darias conta da marosca e solicitaste o meu concurso. Eu formei o plano do ataque, e os resultados foram excelentes; apenas, em vez de ser para nós ambos, foram unicamente para ti....

— E daí?...

— Daí é que não estou absolutamente disposto a deixar­me lograr! Quero a minha parte!

— Quem rouba a ladrão...

— Terá os anos de perdão que quiseres; mas, ou divides o bolo comigo, ou vou daqui mesmo denunciar­te à polícia, e corto­te todos os vôos... Escolhe!

— Ora, vá pentear monos! disse Ambrosina, erguendo­se e afetando serenidade.

— Ah! não queres? Pois fica então sabendo que estás presa.

— Ora, moço, outro ofício!

(continua...)

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