Por Franklin Távora (1878)
Germano era fino. Viu de um lance d’olhos todo o horror da situação, toda a imensidade do seu infame procedimento. Compreendeu que se o senhor-de-engenho saísse daquele aperto e viesse a ter conhecimento do que se passara no mucambo, a forca seria o seu fim, se não fosse a morte nos açoites. Então lembrou-lhe uma idéia, única que o podia salvar do abismo à borda do qual cambaleava mais morto do que vivo. Era destruir a única testemunha da sua entrevista com Pedro de Lima. Morto Moçambique, estaria ele livre da responsabilidade que o negro queria repartir com ele, e poderia até, se a vitoria pertencesse aos mascates tão completamente como figuraria Pedro de Lima, exigir deste o preenchimento da promessa feita. Tanto que esta ordem de idéias se acentuou bem em sua mente, para o que não foi preciso mais do que um instante, o moleque puxou resolutamente do facão que consigo trazia, e com ele traspassou o parceiro.
Tendo contado pela rama esta fatal acontecimento a João da Cunha, Germano para dar inteira autoridade ao que dizia, indicou o canto do armazém onde se achava morto, dentro de uma poça de sangue ainda quente, o negro que punha sentido nas carvoeiras.
O sargento-mór soltou então o moleque, dizendo-lhe estas palavras:
- Em recompensa da ação que praticaste, Germano, dou-te a liberdade. Do ora por diante já não és meu escravo, mas meu amigo. Estás forro.
- Eu forro, eu livre senhor! exclamou, duvidoso ainda o negro, como quem não podia acreditar fosse senhor do sumo bem a que aspirava desde que tivera o uso da razão, mas cuja posse só em sonho considerava possível.
Estás livre. Palavra de João da Cunha. As lagrimas saltaram dos olhos do moleque, mas uma sombra, escurecendo-lhe o espirito e aguando o contentamento inefável que o repassava, volitou diante dos seus olhos. Esta sombra tinha a forma de um espectro agoureiro e medonho. Parecia com o negro morto, mas não era senão o remorso, porque, em consciência, o moleque se reconhecia traidor e assassino.
Nesse momento Roberto apareceu no armazém.
- - Pólvora, senhor, queremos pólvora – disse ele. acabaram-se todas as munições que havia lá em cima. E que fazem os inimigos? Interrogou Filipe Cavalcanti.
Avançam, respondeu Roberto. Estão já batendo nas portas. Pólvora, Germano! Gritou o sargento-mór. E uma idéia sinistra, semelhante à sombra do inferno, atravessou seu espirito atribulado. – Se Moçambique molhou a pólvora, que será de nós?- pensou ele.
Germano corre ao barril que primeiro se lhe mostra. O sargento-mór, sobressaltado, impaciente por saber imediatamente a sorte que lhe estava reservada naquele tremendo apuro, correu após o moleque. Germano para diante do barril, abre-o com arrebatamento nervoso, e voltando-se imediatamente ao sargento-mór que tinha os olhos postos nele, exclama:
- A pólvora está molhada, senhor!
Molhada! Molhada! Exclamam quatro vezes ao mesmo tempo, quatro vozes que se confundiram na mesma angustia, e que pareciam um só grito de maldição e de horror. Eram as vozes de João da Cunha, Filipe Cavalcanti, Luiz Vidal e Roberto.
Para se certificar, o sargento-mór meteu suas próprias mãos dentro do primeiro barril, do segundo, de todos eles. Retirou-as cobertas de uma camada espessa e úmida, semelhante à lama da rua, que se lhes aderira. Não havia mais que duvidar. O tremendo drama caminhava rapidamente à sua ultima cena.
Mas Germano, que não gritará, que não se surpreendera com esse grande desastre, parecia não obstante haver ele penetrado mais profunda e dolorosamente do que nos outros. Havia nisso o efeito de uma lei fisiológica, senão moral. Fora ele, ele próprio quem tinha derramado água nos barris, logo depois da morte de Moçambique. Então nem sequer lhe passara pela imaginação a idéia de ser alforriado por seu senhor. pensava porém no que lhe dissera Pedro de Lima. Para justificar-se perante João da Cunha, se este vencesse, tinha ele o seu procedimento com o parceiro; matarao: não podia dar melhor prova de sua lealdade. Para aparecer diante do bandido com direito a ser livre, necessário lhe era algum fato de grande alcance, cuja responsabilidade pudesse atribuir a se próprio, no caso de saírem vencedores os estrangeiros, em nome de quem o cabra prometia essas grandes recompensas. Eis porque pusera água na pólvora.
Mas a inesperada generosidade do senhor tornara-o perplexo, confuso, sem saber o que fazer. O remorso, o arrependimento, o pesar, a dor abafada e temerosa o tiveram por um momento fora do uso das suas faculdades. Germano não era mau negro. Tinha sido até ao momento de se entender com ele o Pedro de Lima, muito dos seu senhores. Ainda depois nós o vimos como arrependido em conseqüência das reflexões que lhe fizera Marcelina. Desencabeçado, porém, em nome da liberdade, atirara-se naquele escabroso despenhadeiro a modo de fatalmente.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.