Por José de Alencar (1872)
Ao aproximar-se da cena, ainda ouviu o fazendeiro as últimas palavras de Zana, e estremeceu; mas revoltando-se afinal contra essa fatal obsessão que depois de quinze dias o arrastava de humilhação em humilhação, decidiu romper de uma vez o segredo que o acabrunhava.
Ao olhar cheio de ânsia da mulher, respondeu indicando os filhos com um olhar expressivo.
- Vão seguindo! disse para Afonso e Linda.
Fez um gesto à mulher, e tomou para a tapera que ficava a algumas braças da estrada. D. Ermelinda o seguiu transida de emoção até a frente da casa em ruínas.
- Foi aqui!... balbuciou a voz trêmula de Luís.
XXX
A enjeitada
Dois dias decorreram depois da festa do Congo.
Jão Fera derreado a um tronco de árvore, no mato que cerca a tapera, espreita a chegada de Berta. A menina o tinha chamado, quando o avistara na enxovia; e ele que se fora entregar para fugir ao seu desprezo acudiu prontamente. Desde a véspera a esperava naquele sítio.
Não deixava, porém, o capanga de nutrir receios a respeito do modo por que Berta o acolheria. Talvez aquele gesto lhe escapasse sem ela o sentir; e agora tornando a vê-lo crescesse o horror que lhe inspirava depois das mortes por ele perpetradas. Nesse caso voltaria para a prisão.
Acabava de fazer ainda uma vez esta reflexão quando ouviu crepitarem as folhas sob o passo ligeiro de Berta, que atravessou o terreiro com alvoroto, e correu para Zana acocorada junto à parede.
A louca recebeu a menina com viva efusão de contentamento, que se manifestava em gritos inarticulados e gaifonas de toda a sorte. Sôfrega, não esperou Berta que passasse aquela expansão; travando das mãos da preta e cravando nela os olhos como se pudesse perscrutar-lhe a consciência, exclamou com ansiedade:
- Minha mãe, Zana!... Você não se lembra dela?... De minha mãe!...
Tartamudeou a louca sons incompreensíveis, e sua fisionomia embotou-se, tomando a expressão pasma e fixa, que lhe imprimia uma imobilidade quase marmórea.
Acaso já conhecia Berta o segredo de seu nascimento? Ou aquilo era apenas uma suspeita, inspirada pelas palavras misteriosas do caiapó?
Eis o que havia ocorrido:
Aí em frente da tapera, ao morno clarão da lua, começara Luís Galvão na noite da festa a fazer a sua mulher a confissão plena da aventura de que fora teatro aquele sítio, e ele o triste herói.
Não ocultou a mínima circunstância; referiu tudo: a sua repugnância de casar com Besita por ela ser pobre; a intenção pérfida com que a requestara; a cilada de que serviuse para surpreender a fidelidade de esposa; e ultimamente o abandono e esquecimento em que a deixou.
Que esforço não foi preciso para sobrepujar o vexame dessa revelação? Queimava-lhe as faces o rubor; a voz estrangulava-se; mas consumou esse grande ato de contrição que devia remir sua alma.
Quando chegaram à casa, D. Ermelinda sabia tudo. As lágrimas e soluços que tragou em silêncio; as ânsias e desesperos que recalcou no peito, ninguém os viu. Mas a manga de seu roupão que ela mordia para não deixar escapar o grito, ficou despedaçada.
Apeando-se, correu a seu quarto e trancou-se. Luís Galvão compreendeu que ela devia sofrer, e respeitou aquela dor santa, não a importunando com banais consolações. Acendeu um cigarro; e velou o resto da noite fumando.
Na manhã seguinte cada um dos dois consortes, pálido, como espectro que abandona o túmulo, viu refletir-se no outro a desolação que em si produzira aquela noite fatal.
D. Ermelinda chegou-se com um triste, porém meigo sorriso, e apertando a mão do marido, murmurou-lhe ao ouvido:
- Meu amigo, é preciso reconhecer a sua... a nossa filha!...
Arrasaram-se de lágrimas os olhos de Luís, que apertou estremecidamente a mulher ao coração, erguendo os olhos ao céu.
- Que santa me deste tu, meu Deus, a mim que não mereço!
Logo depois do almoço, D. Ermelinda foi à casa de nhá Tudinha e pediu-lhe que preparasse Berta para a revelação que o pai ia fazer-lhe de seu nascimento. Com o tato de mulher e mãe quis a boa senhora poupar à enjeitada a dor que havia de curtir se viesse a conhecer a desgraça de Besita.
Imaginou pois um meio delicado de revelar a lúgubre história. Besita casara com Luís às ocultas, por causa da oposição do velho Galvão. Morrendo a moça, e casando Luís pela segunda vez, acanhou-se de confessar a D. Ermelinda que era viúvo e tinha uma filha. Por esse motivo fora Berta criada como uma estranha em casa alheia.
Eis o que ideara D. Ermelinda, e o que nhá Tudinha, contente pela ventura da menina, mas desconsolada de perder aquela filha, repetiu nessa mesma tarde. As perguntas e instâncias que sucederam à surpresa de Berta, apenas arrancaram da viúva a declaração de que Besita morava outrora na tapera com Zana, sua escrava.
Uma voz íntima dizia a Berta que muita coisa lhe ocultavam da história de sua mãe; e era este segredo que ela buscava escrutar no cérebro enfermo da negra, onde sabia, que estava sepultado.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Til. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1850
. Acesso em: 28 jan. 2026.