Por José de Alencar (1875)
Entretanto Seixas tinha conduzido a mulher ao toucador e deitara o belo corpo desmaiado em um sofá. Estava inquieto, mas não aflito. No transportar a moça havia sentido o calor de sua epiderme e o pulsar de seu coração. Não passava o acidente de ligeira síncope.
Com efeito, antes que a inundassem de éter ou álcali, e que lhe desatacassem a cintura, Aurélia abriu os olhos e arredou com um gesto as pessoas que se apinhavam junto ao sofá.
- Não é nada: uma tonteira, já passou.
O médico que tomava-lhe o pulso, confirmou, limitando-se a recomendar além do repouso, o desafogo do vestido para respirar melhor.
Não é preciso; basta que me deixem espaço, respondeu Aurélia.
Retiram-se todas as senhoras, e voltaram à sala. D. Firmina demorou-se com intenção de não deixar a moça; mas esta pediu-lhe que a substituísse nas funções de dona da casa.
- Fernando fica. Vá para a sala; e faça continuar a dança. Estou boa; não tenho nada.
Se constrangerem-se, é que me incomodam; cismarei que estou doente!
D. Firmina riu-se, inclinou-se para beijar a moça na testa e voltou à sala. Ao aproximar-se da porta, viu alguns curiosos que espiavam para dentro, e cerrou as duas bandas, fechando-as com a aldraba.
Aurélia ficara deitada no sofá, de costas, na posição inclinada em que Seixas a colocara sobre as almofadas. Quando D. Firmina afastou-se, ela cerrara outra vez as pálpebras, e engolfou-se no sonho delicioso a que a tinham arrancado.
Sua mão tateou hesitando pela borda do sofá, e encontrou a de Seixas que estava sentado junto dela, e contemplava a formosa mulher, ainda mais bela nesse langue delíquio, do que em suas deslumbrantes irradiações.
- Eu caí na sala?... murmurou Aurélia sem abrir os olhos, e corando de leve.
- Não, respondeu Seixas.
- Quem segurou-me?
- Podia eu confiá-la a outro? disse Fernando.
Os dedos da moça responderam apertando a mão do marido.
- Quando vi que tinha desmaiado, tomei-a nos braços e trouxe-a para aqui.
- Para onde?
- Para seu toucador. Não conhece?
- Não me lembro.
Seixas calou-se. Aurélia permaneceu na mesma imobilidade, com a mão do marido presa na sua, que às vezes recebendo uma ligenria vibração contraía-se.
Nisto bateram discretamente à porta. Seixas fez movimento de erguer-se para ver quem era; mas aAurélia ao fugir-lhe a mão que tinha na sua, ergueu-se em pé de um jato, e lançando os dois braços ao colo do marido, curvou-o sob esse jugo irresistível.
Seixas foi obrigado a sentar-se outra vez; e Aurélia deixando-se cair também sentada sobre o sofá, o retinha fechado na mimosa cadeia, enquanto dardejava à porta o olhar colérico, erigindo o busto com a retração da serpe que enrista-se para o bote.
Que se passava nesse momento no espírito da moça exaltada pelas comoções dessa noite?
Afigurava-se a Aurélia que achara enfim a encarnação de seu ideal, o homem a quem adorava, e cuja sombra a tinha cruelmente escarnecido até aquele instante, esvanecendo-se quando ela julgava tê-lo diante dos olhos.
Agora que o achara, que ele aí estava perto dela, que tomara posse de sua vida, parecia-lhe no desvario de sua alucinação que o queriam disputar-lhe, arrancando-o de seus braços, e deixando-a outra vez na viuvez em que se estava consumindo.
- Não!... Não quero!... exclamou com veemência.
Continuavam a bater.
- Podem abrir, Aurélia, e surpreender-nos!
Estas palavras do marido, ou antes o receio que as ditava, provocaram em Aurélia um assomo ainda mais impetuoso.
- Que me importa a mim a opinião dessa gente?... Que me importa esse mundo, que separou-nos! Eu o desprezo. Mas não consentirei que me roube meu marido, não? Tu me pertences, Fernando; és meu, meo só, comprei-te, oh! Sim, comprei-te muito caro...
Fernando erguera-se como impelido por violenta distensão de uma mola e tão alheio a si que não ouviu o fim da frase:
- Pois foi ao preço de minhas lágrimas e das ilusões de minha vida, concluiu a moça, que ao movimento de Seixas soerguera-se também suspensa pela cadeia com que lhe cingia o pescoço.
Seixas dominara o ímpeto que o precipitava, e conseguiu afogá-lo no escárneo, que é uma válvula para essas grandes comoções da alma. Sentou-se de novo, e murmurou ao ouvido da mulher, que o inundava com seu olhar:
- O lenço?
- O lenço?... repetiu a moça maquinalmente.
E apanhando seu lenço de rendas que jazia sobre o sofá, olhou-o como se buscasse nele explicação daquela singular pergunta do marido.
Súbito estremeceu com abalo tão forte, que a levantou em pé, soberba de ira e indignação.
Não se desmanchava um só anel de seus cabelos, que se cacheavam em torno da cerviz com a mesma correção, não se amarrotara nenhum dos folhos de seu traje vaporoso e todavia quem contemplasse Aurélia nesse momento, acreditaria na desordem do lindo vestuário, tal era a exacerbação que perspirava de toda sua pessoa.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.