Por José de Alencar (1857)
— Dentro de uma hora, continuou o cavalheiro apontando para o corpo de Loredano, este homem será justiçado à frente da banda; para ele não há julgamento; eu o condeno como pai, como chefe, como um homem que mata o cão ingrato que o morde. É ignóbil demais para que o toque com as minhas armas; entrego-o ao baraço e ao cutelo.
Com a mesma impassibilidade e o mesmo sossego que conservava desde o momento em que aparecera imprevistamente, o velho fidalgo atravessou por entre os aventureiros imóveis e respeitosos, e caminhou para a saída.
Aí voltou-se; e levando a mão ao chapéu descobriu a sua bela cabeça encanecida, que destacava sobre o fundo negro da noite e no meio do clarão avermelhado das tochas com um vigor de colorido admirável.
— Se algum de vós der o menor sinal de desobediência; se uma das minhas ordens não for cumprida pronta e fielmente; eu, D. Antônio de Mariz, vos juro por Deus e pela minha honra que desta casa não sairá um homem vivo. Sois trinta; mas a vossa vida, de todos vós, tenho-a na minha mão; basta-me um movimento para exterminar-vos, e livrar a terra de trinta assassinos.
No momento em que o fidalgo ia retirar-se apareceu Álvaro pálido de emoção, mas brilhante de coragem e indignação.
— Quem se animou aqui a erguer a voz para D. Antônio de Mariz? exclamou o moço.
O velho fidalgo sorrindo com orgulho pôs a mão no braço do cavalheiro.
— Não vos ocupeis disto, Álvaro; sois bastante nobre para vingar uma afronta desta natureza, e eu, bastante superior para não ser ofendido por ela.
— Mas, senhor, cumpre que se dê um exemplo!
— O exemplo vai ser dado, e como cumpre. Aqui não há senão culpados e executores da pena. O lugar não vos compete. Vinde!
O moço não resistiu e acompanhou D. Antônio de Mariz, que se dirigiu lentamente a sala, onde achou Aires Comes.
Quanto a Peri, voltara ao jardim de Cecília, decidido a defender sua senhora contra o mundo inteiro.
O dia vinha rompendo.
O fidalgo chamou Aires Gomes e entrou com ele no seu gabinete de armas, onde tiveram uma longa conferência de meia hora.
O que aí se passou ficou em segredo entre Deus e estes dois homens; apenas Álvaro notou, quando a porta do gabinete se abriu, que D. Antônio estava pensativo, e o escudeiro lívido como um morto.
Neste momento ouviu-se um pequeno rumor na entrada da sala; quatro aventureiros parados, imóveis, esperavam uma ordem do fidalgo para se aproximarem.
D. Antônio fez-lhes um sinal; e eles vieram ajoelhar-se a seus pés; -as lágrimas rolavam por essas faces queimadas pelo sol; e a palavra tremia balbuciante nesses lábios pálidos que há instantes vomitavam ameaças:
— Que significa isto? perguntou o cavalheiro com severidade.
Um dos aventureiros respondeu:
— Viemo-nos entregar em vossas mãos; preferimos apelar para o vosso coração do que recorrer às armas para escaparmos à punição de nossa falta.
— E vossos companheiros? replicou o fidalgo.
— Deus lhes perdoe, senhor, a enormidade do crime que vão cometer. Depois que vos retirastes tudo mudou; preparam-se para atacar-vos!
— Que venham, disse D. Antônio, eu os receberei. Mas vós por que não os acompanhais?
Não sabeis que D. Antônio de Mariz perdoa uma falta, mas nunca uma desobediência?
— Embora, disse o aventureiro que falava em nome de seus camaradas; aceitaremos de bom grado o castigo que nos impuserdes. Mandai, que obedeceremos. Somos quatro contra vinte e tantos; dai-nos essa punição de morrer defendendo-vos, de reparar pela nossa morte um momento de alucinação!... É a graça que vos pedimos!
D. Antônio olhou admirado os homens que estavam ajoelhados a seus pés; e reconheceu neles os restos dos seus antigos companheiros de armas do tempo em que o velho fidalgo combatia os inimigos de Portugal.
Sentiu-se comovido; sua alma grande, e inabalável no meio do perigo, orgulhosa em face da ameaça, deixava-se facilmente dominar pelos sentimentos nobres e generosos.
Essa prova de fidelidade que davam aqueles quatro homens na ocasião da revolta geral dos seus companheiros; a ação que acabavam de praticar, e o sacrifício com que desejavam expiar a sua falta, elevou-os no espírito do fidalgo.
— Erguei-vos. Reconheço-vos!... Já não sois os traidores que há pouco repreendi; sois os bravos companheiros que pelejastes a meu lado; o que fazeis agora, esquece o que fizestes há uma hora. Sim!... Mereceis que morramos juntos, combatendo ainda uma vez na mesma fileira. D. Antônio de Mariz vos perdoa. Podeis levantar a cabeça e trazê-la alta!
Os aventureiros ergueram-se radiantes do perdão que o nobre fidalgo tinha lançado sobre suas cabeças; todos eles estavam prontos a dar sua vida para salvarem o seu chefe.
O que tinha ocorrido depois da saída de D. Antônio do alpendre, seria longo de escrever.
Loredano tornando a si da vertigem que lhe causara o atordoamento e a violência da queda, soube da ordem que havia a seu respeito. Não era preciso tanto para que o audaz aventureiro recorresse à sua eloqüência a fim de excitar de novo à revolta.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Guarani. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.