Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
O VELHO Rodrigues apareceu à porta do sótão do “Purgatório-trigueiro”, e ficou aí parado alguns instantes.
Cândido estava só, e tinha os olhos fitos na porta; mas não dizia palavra.
Era porque o moço estava olhando, porém não estava vendo.
Há alguns homens no mundo que têm freqüentemente horas inteiras passadas assim; horas em que, concentrados em um mundo interior, nada vêem, nada ouvem, nada sentem do que se está passando ao redor deles.
Serão pobres loucos ou entes privilegiados esses homens?
Há muitos que deles se riem, ou que deles têm piedade. Deixá-los rir... deixálos ter piedade.
O velho Rodrigues falou:
– Sr. Cândido!
– Quem é? perguntou o moço erguendo-se, e como despertando de um sono afadigado.
– Sou eu... um velho amigo.
– O sr. Rodrigues... ah! entre, sente-se.
– Não, preciso voltar já; é pouco o que tenho a dizer-lhe.
– Como quiser... eu lhe escuto.
– Sr. Cândido, foi bem triste a última vez que nos vimos; foi em uma noite de prazer e de dor; noite em que na mesma casa e ao mesmo tempo soavam cantos alegres e corriam lágrimas amargas.
– Já passou tudo isso... esqueçamos.
– Não; lembremos antes, mancebo. Nessa noite uma intriga foi forjada, e a calúnia venceu então a verdade.
– Senhor... para que falar nisso?
– Uma mulher caluniou a outra mulher. As portas do “Céu cor-de-rosa” lhe foram fechadas em nome da “Bela Órfã”... A mulher que intrigava, depois de lançar mortal veneno em seu coração, deixou-o só no jardim, e eu apareci então... e o que lhe disse? lembra-se?
– Não; tudo esqueci... o teatro, o drama, as personagens... tudo está esquecido; nem quero outra vez lembra-me.
– Oh! mas é preciso lembrar-se! ouça pois: eu apareci então, e disse: “aquela mulher mentiu!”
– Não mentiu! respondeu com força o mancebo.
– Foi isso mesmo o que me disse, sr. Cândido; mas eu jurei a mim mesmo provar-lhe que a “Bela Órfã” fora caluniada, e que o senhor ofendia a pureza, a virtude de uma inocente moça sustentando uma calúnia.
– Ah! Sr. Rodrigues... murmurou meio comovido o moço.
– Eu jurei que havia de confundi-lo com a verdade, e de castigá-lo com o arrependimento...
– Mas para quê?...
– Para quê? para que justiça fosse feita a uma interessante virgem; para que bálsamo consolador fosse derramado no coração de um desgraçado.
– E quem é esse desgraçado?
– É o senhor.
– Tem razão; eu o sou.
– Eu quero que a esperança amanheça de novo em sua alma... que arrependida sua alma se ajoelhe ante a imagem da mulher que amava tanto...
– Senhor... basta.
– Que o seu arrependimento e a sua esperança façam de novo falar a sua alma; que outra vez de joelhos ante a imagem da bela virgem a sua alma exclame com ardor... – eu te amo!
– Senhor, senhor, é preciso que eu lhe diga que considero meu inimigo aquele que me fala de amor?
– É uma loucura.
– Que o fogo da vergonha ainda queima meu rosto, quando me lembro do que comigo se passou nessa horrível noite?
– Mas o bafo da virgem há de apagar esse fogo.
– Senhor! nem mais uma palavra sobre ela.
– E as provas de sua inocência?
– Eu não as quero.
– Para condená-la sempre?...
– Não a condeno.
– E o amor que lhe tinha?...
– Eu amo a minha mãe.
– E o amor dessa pobre virgem?...
– Senhor!
– Esse amor angélico?! esse perfume de flor que se desabrocha?... esse amor...
– Basta... é demais.
– Não quer ouvir-me então?...
– Dispense-me disso, sr. Rodrigues.
– Não me acredita?.
– Não.
– E se eu provar o que digo?...
– É inútil.
– Embora, eu o provarei.
– Mas com que fim?... que lhe importa a minha desgraça ou a minha felicidade?...
O velho olhou fixamente para Cândido e disse com voz grave e pausada:
– Pode ser que me importe mais do que pensa. Quem sabe se o seu passado, que é tão escuro para todos, não é bem claro para mim?...
– Oh!... exclamou Cândido: fale pois!... eu lhe escuto...
– É tarde; eu já devia ter voltado.
– Mas...
– Eu lhe deixo estes papéis, sr. Cândido; peço que os leia... e que os guarde.
O velho Rodrigues tirou então do bolso algumas folhas de papel e as deitou sobre a mesa.
– O que contêm estes papéis?... perguntou Cândido com viva curiosidade.
– Uma história.
– A minha história?...
– Também é sua.
O velho retirou-se vagarosamente, e Cândido foi buscar uma luz, e abrindo a primeira página daqueles papéis leu:
HISTÓRIA DO MEU AMOR
CAPÍTULO XXX
UMA HORA DE LEITURA
DEVEREI eu ler estes papéis?... falou Cândido consigo mesmo. Não haverá aí veneno espalhado nessas páginas?... não será fraqueza ceder a um desejo que não passa de pueril curiosidade?... Não! estou determinado; pode rolar um século sobre essa mesa e não os hei de ler nunca.
Mas ele não podia arrancar os olhos dos papéis que lhe deixara o velho, e passados alguns minutos pensou já de outro modo; pensou assim:
– É que também, se eu os não ler, podem julgar que desconfio de mim mesmo... que tenho medo de amar ainda... que não sei triunfar de uma paixão de dois dias... é isso; podem julgá-lo. Pois eu lerei... mas hoje não; mostrarei a minha indiferença não lendo hoje; provarei que nada receio lendo amanhã; estou determinado.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.