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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Toda inteira votada ao homem, que pela primeira vez lhe fizera experimentar o anelante e doce sentimento, ela queria que seus olhos nem por fingimento ou gracejo despendessem com outro a ternura que guardava só para ele; que ninguém mais bebesse seus sorrisos, ninguém mais fosse objeto da meditação de seu espírito, e, enfim, que nenhum outro visse, nem por sonhos, a idéia de possuí-la.

Tal como o infame, que primeiramente se arreceia de entrar num jogo, que lhe hão pintado muito perigoso, porém, uma vez nele entrado, a ele todo se dá, e não o quer deixar mais; assim Honorina, que tocada das palavras e da moral fria de Raquel, concebera indizível terror da posição da mulher que ama neste mundo de perversão e de misérias, sentindo, depois, que amava o moço loiro, olvidou seus receios passados, e entregou-se a seu primeiro e doce amor com todo o enlevo, com toda a doce embriaguez de um coração virgem.

Consigo mesma ela se ufanava de amar; e cultivava seu terno e grandioso afeto com religioso desvelo: erigia-lhe um altar em sua alma, e incensava seu ídolo com pensamentos e suspiros.

Bela e inocente, o mundo dessas duas cidades, as colunas de desejosos mancebos, a multidão desses ociosos que querem sempre murmurar; dessas rivais que desejam rir-se, ferindo; desses curiosos que procuram tudo saber, e às vezes se atrevem a pretender adivinhar, tentavam, porém debalde, acertar com o objeto dos pensamentos dela.

O amor de Honorina era um segredo que só a Raquel havia sido confiado.

E o amor, que sentia a interessante moça, era também o único que lhe podia convir: toda espírito, toda imaginação e poesia, Honorina achava encantamento inexplicável em amar esse ente misterioso, quase imaginário, que se deixava ver resvalando pela sombra; que se fazia sentir pelo acento de sua voz sonora, ou pela benigna influência de seu gênio; que aparecia onde não era esperado, e que invisível velava por ela, como o anjo de sua guarda.

Honorina tinha passado um mês inteiro sem que uma nova aparição ou uma nova carta lhe viesse assegurar a constância do moço loiro; confiada, porém, na santidade do sentimento, que fazia então a ventura da sua vida, ela acreditava que aquele homem tão nobre, tão bravo, que por ela lutara braço a braço com a morte, não podia mudar nunca; que o moço loiro a amava sempre e muito; e que a chama que ardia em seus dois corações, acesa pelo sopro de Deus, devia ser, e seria brilhante e eterna como o sol.

Gastando todas as horas de seus dias em pensar no moço loiro, Honorina adormecia de noite para sonhar com ele; e, embora saudosa, ela vivia feliz, votando os suspiros de suas vigílias e os sonhos de seu leito ao escolhido de sua alma.

No meio, porém, de suas saudades e de suas esperanças, por entre os suspiros de suas vigílias e as belas imagens dos sonhos de suas noites, vinha muitas vezes misturar-se um pensamento melancólico e amargo; ao pé da lembrança do moço loiro aparecia também e sempre a lembrança de Raquel; e Honorina sentia murchar a flor de seus prazeres, recordando-se dos sofrimentos da sua amiga.

Com efeito, Raquel padecia muito.

O que lhe tinha contado Sara, o que lhe havia dito Honorina, provava que o moço loiro fingira dormir, quando ela o observara; que soubera aproveitar-se de sua momentânea ausência do quarto, onde escrevia à sua amiga, para traçar no verso de sua carta aquelas breves e eloqüentes linhas, que significavam o triunfo de Honorina; e ainda nas palavras que ele dissera à velha — eu creio que hei de vir a ser muito amigo dela — como que esse mancebo lhe quisera apagar a derradeira esperança, se alguma esperança lhe fosse dado nutrir; como que lhe estava ele chamando — Raquel, amor para ti é um impossível; eu posso apenas ser teu amigo!

E, portanto, não havia esperança para Raquel; nem lhe era dado, para mitigar sua dor, imaginar, enganar a si própria, desenhar no futuro uma simples ilusão; porque essa simples ilusão era a seus sonhos um crime, uma traição feita à amiga de seu peito.

O que podia restar à miséria?... um único abrigo: ela o achava na solidão.

Na solidão escondia ela ao menos suas lágrimas do pai carinhoso que a observava; porque Raquel não tinha o ânimo de outrora para ir derramar no seio paterno suas mágoas; porque há dores, há sofrimentos de que uma filha não se queixa à sua mãe sem corar primeiro até à raiz dos cabelos; e não pode acusá-los a seu pai sem um enorme sacrifício de seu pudor de virgem: dores e sofrimentos muito nobres, muito naturais, mas que a mesma natureza parece ensinar a engolir sem gemer em silêncio despedaçador...

Na solidão, porque lá não estava ao lado de Honorina, que, beijando-a com ternura de verdadeira amiga, lhe pedia conta de suas lágrimas; lhe obrigava a mentir mil vezes; chorava com ela e lhe falava no seu tormento... no moço loiro...

(continua...)

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