Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Como há tanta diversidade de palmeiras que dão fruto na terra da Bahia, convém que as arrumemos todas neste capítulo, começando logo numas a que os índios chamam pindobas, que são muito altas e grossas, que dão flor como as tamareiras e o fruto em cachos grandes como os coqueiros, cada um dos quais é tamanho que não pode um negro mais fazer que levá-lo às costas; nos quais cachos tem os cocos tamanhos como pêras pardas grandes, e têm a casca de fora como um coco, e outra dentro de um dedo de grosso, muito dura, e dentro dela um miolo maciço com esta casca, donde se tira com trabalho, o qual é tamanho como uma bolota, e mui alvo e duro para quem tem ruins dentes; e se não é de vez, é muito tenro e saboroso; e de uma maneira e outra é bom mantimento para o gentio quando não tem mandioca, o qual faz destes cocos azeite para as suas mezinhas. Do olho destas palmeiras se tiram palmitos façanhosos de cinco a seis palmos de comprido, e tão grossos como a perna de um homem. De junto do olho destas palmeiras tira o gentio três e quatro folhas cerradas, que se depois abrem a mão, com as quais cobrem as casas, a que chamam pindobuçu, com o que fica uma casa por dentro, depois de coberta, muito formosa; a qual palma no verão é fria, e no inverno quente; e se não fora o perigo do fogo, é muito melhor e mais sadia cobertura que a da telha.Anajá-mirim é outra casca de palmeiras bravas que dão muito formosos palmitos, e o fruto como as palmeiras acima; mas são os cocos mais pequenos e as palmas que se lhe tiram de junto dos olhos têm a folha mais miúda, com que também cobrem as casas onde se não acham as palmeiras acima. Os cachos destas palmeiras e das outras acima nascem numa maçaroca parda de dois a três palmos de comprido, e como este cacho quer lançar a flor arrebenta esta maçaroca ao comprido e sai o cacho para fora, e a maçaroca fica muito lisa por dentro e dura como pau; da qual se servem os índios como de gamelas, e ficam da feição de almadia.Há outras palmeiras bravas que chamam japeraçaba, que também são grandes árvores; mas não serve a folha para cobrir casas, porque é muito rara e não cobre bem, mas serve para remédio de quem caminha pelo mato cobrir com elas as choupanas, as quais palmeiras dão também palmito no olho e seus cachos de cocos, tamanhos como um punho, com miolo como os mais, que também serve de mantimento ao gentio, e de fazerem azeite; o qual e o de cima têm o cheiro muito fortum.Pati é outra casta de palmeiras bravas muito compridas e delgadas; as mais grossas são pelo pé como a coxa de um homem, têm a rama pequena, mole e verde-escura. Os palmitos que dão são pequenos, e os cocos tamanhos como nozes, com o seu miolo pequeno que se come. Destas árvores se usa muito, porque têm a casca muito dura, que se fende ao machado muito bem, da qual se faz ripa para as casas, a que chamam pataíba, que é tão dura que com trabalho a passa um prego; e por dentro é esto-penta, a qual ripa quando se lavra por dentro cheira a maçãs maduras.Há outras palmeiras, que chamam buri, que têm muitos nós, que também dão cocos em cachos, mas são miúdos; estas têm a folha da parte de fora verde e da de dentro branca, com pêlo como marmelos, as quais também dão palmitos muito bons.Piçandós são umas palmeiras bravas e baixas que se dão em terras fracas; e dão uns cachos de cocos pequenos e amarelos por fora, que é mantimento para quem anda pelo sertão, muito bom porque tem o miolo muito saboroso como avelãs, e também dão palmitos.As principais palmeiras bravas da Bahia são as que chamam ururucuri, que não são muito altas, e dão uns cachos de cocos muito miúdos, do tamanho e cor dos abricoques, aos quais se come o de fora, como os abricoques, por ser brando e de sofrível sabor; e quebrando-lhe o caroço, donde se lhe tira um miolo como o das avelãs, que é alvo e tenro e muito saboroso, os quais coquinhos são mui estimados de todos. Estas palmeiras têm o tronco fofo, cheio de um miolo alvo e solto como o cuscuz, e mole; e quem anda pelo sertão tira esse miolo e coze-o em um alguidar ou tacho, sobre o fogo, onde se lhe gasta a umidade, e é mantimento muito sadio, substancial e proveitoso aos que andam pelo sertão, a que chamam farinha-de-pau.Patioba é como palmeira nova no tronco e olho, e dá umas folhas de cinco a seis palmos de comprido e dois e três de largo; é de cor verde e tesa como pergaminho, e serve para cobrir as casas no lugar onde se não acha outra, e para as choupanas dos que caminham; quando se estas folhas secam, fazem-se em pregas tão lindas como de leques da Índia; e quando nascem, saem feitas em pregas, como está um leque estando fechado; dá palmitos pequenos, mas mui gostosos.
C A P Í T U L O LVI
Em que se declaram as ervas que dão fruto na Bahia, que não são árvores.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.