Por Inglês de Sousa (1891)
O vigário ia atento, governando o jacumã com redobrado cuidado. Da foz do Mamiá em diante, o Canumã estreitara muito. As margens tinham aspecto mais selvagem e a navegação não ficava isenta de perigo. A corrente era difícil de vencer, obrigando a canoa a navegar perto da beira para aproveitar o remanso. Isso alongava a viagem pelo desdobramento da sinuosidade do rio e arriscava a montaria ao desabamento das terras, a bater num tronco de árvore ou encalhar em algum banco de areia. A viagem atrasara-se. Apenas a embarcação se distanciara algumas braças da foz do Mamiá, que atravessara com dificuldade.
A tarde chegara, banhada de aguaceiros sucessivos, e em breve o horror duma noite sem estrelas devia envolver o céu e a terra numa escuridão completa. Padre Antônio remava, pensativo. A previsão das trevas impenetráveis duma noite chuvosa, sem o clarão dum relâmpago, em pleno rio sertanejo, sugeriu-lhe pela primeira vez a idéia da possibilidade dum erro. Duvidou da sanidade do seu cérebro. Uma obcecação fatal devia ter-se apoderado do seu espírito para que não compreendesse a loucura duma viagem nas condições da que fazia. Aventurar-se a um rio despovoado e quase desconhecido, numa pequena montaria de pesca, sem víveres e sem cômodos, não contando com os insetos, com a fome, com as itempéries, com os perigos da navegação realizada com a pasmosa segurança de quem atravessasse de Silves para a foz do Urubus, era coisa muito de admirar em homem que tinha por obrigação ser sisudo e prudente. Começara a viagem numa excelente igarité, espaçosa e segura, tripulada por dois remeiros vigorosos e práticos, sortida de víveres abundantes e de tudo mais que era preciso numa viagem ao sertão. Como, porém, perdera tudo isso, metera-se-lhe na cabeça, num momento de insensatez, continuar a viagem a todo o transe, custasse o que custasse, para não retroceder. Agora uma dúvida atroz estava-lhe atravessando o espírito. Fora o exemplo da coragem sobre-humana dos mártires antigos que o levara àquele passo, ou uma tentação demoníaca que lhe excitara a vaidade pueril de não parecer vencido por obstáculos triviais? De relance esta última idéia iluminara-lhe o entendimento. O inimigo da alma insinuara aquela inqualificável teima, que o desarmava para sempre. A continuação da viagem, depois da perda da igarité, fazia abortar a missão pela impossibilidade física de a levar a fim. Os mundurucus ficariam ainda por muitos anos nas trevas da barbaria. A Igreja perdia esses novos crentes, e o moço padre, em vez do quinhão de glória com que sonhara assegurar a salvação eterna, acabaria desconhecido e miserável.
A escuridão da noite que se avizinhava entenebrecia-lhe cada vez mais os pensamentos. A convicção de que fora vítima do pecado naquela empresa santa, penetrava-o. Lera que muitas vezes Satanás se serve das mais santas causas para preparar a queda das frágeis criaturas de Deus, e reconhecia no intimo do coração que carecera da humildade cristã que ampara e fortalece contra as tentações da soberba. Sondando o fundo da consciência reconhecia, e o confessava a Deus Misericordioso; não haviam sido tanto o ardor da propaganda e o zelo da catequese que o tinham feito obstinar-se naquela empresa impossível. Aniquilado, sentindo toda a vileza do seu caráter, toda a lama mole do seu orgulho, não o ocultava por mais tempo a Deus, como o procurara fazer a si mesmo, que foram talvez a teima, a obstinação casmurra, talvez o receio daquele terrível escarnecedor de padres que ria das suas ladainhas e dos seus olhos baixos. Um grande desprezo de si o invadia, era o último dos últimos, a própria abjeção saturava-o. Joguete vil do demônio (nenhum móvel elevado e nobre o impelira aos sertões da Mundurucânia. Era uma criatura desprezível, merecedora da sorte que o destino implacável lhe preparava nas inóspitas paragens sertanejas. Corpo apodrecido de vaidade balofa, inchado de ignorância, envenenado pela inveja e secretamente roído por uma luxúria ardente, digno era de servir de pasto aos urubus asquerosos, empestando o ar e excitando a gulodice dos vermes.
Comprazia-se no rebaixamento da sua personalidade, no exagero dos seus defeitos, no aviltamento de tudo quanto lhe era mais caro, e dessa humildade extrema em que pedia a Deus o perdão do seu maior pecado, vinha-lhe um grande abatimento que a fadiga e a fome aumentavam.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.