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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

Isto não quer dizer que Teobaldo agora estimava menos o Coruja; ao contrário - jamais intimamente o colocou tão alto no seu conceito; apenas, como homem vaidoso, não queria incorrer no desagrado de seus sequazes impondo-lhes um; tipão daquela ordem. A borboleta, desde que lhe saem as asas, não gosta de ir ter com as antigas companheiras que se arrastam no chão.

- Não é dele a culpa... considerava André, sempre disposto a perdoar. - A borboleta precisa de sol, precisa de flores... Quem tem asas - voa; quem as não tem fica por terra e deve julgar-se muito feliz em não ser logo esmagado por um pé.

E, a contragosto, fazia-se mais e mais retirado e macambúzio.

Ao lado de Branca então chegara o seu acanhamento a causar dó; quando a formosa senhora lhe dirigia a palavra, ele parecia ficar ainda mais selvagem, mais desajeitado, atarantava-se, fazia-se estúpido, não encontrava posição defronte daquele primor de beleza, e conseguia apenas uivar algumas vozes confusas e quase sem nexo.

E no entanto sentia por ela um afeto extremamente respeitoso, uma espécie de adoração humilde e tácita; quando Branca passava por junto dele, Coruja reprimia a respiração, contraía-se todo, como se receasse macular o ambiente que ela respirava; e só se animava a encará-la enquanto a tinha distraída ou de costas, e isso com um profundo olhar de terna veneração.

- Achas-la bonita, hein? perguntou-lhe uma vez Teobaldo, batendo-lhe no ombro.

- É uma imagem... respondeu André.

- Entretanto, ela se queixa de ti..

- De mim?

- E verdade, desconfia de que não te caiu em graça.

- Ora essa!...

- Supõe que antipatizas com ela...

- Eu?...

- Sim e, vamos lá, coitada, não deixa de ter o seu bocado de razão: quase nunca lhe dás uma palavra e, quando acontece te achares ao lado dela, ficas por tal modo impaciente, que a pobrezinha receia ser importuna e foge.

- Bem sabes que infelizmente esse é o meu feitio; sou assim com todo o mundo, à exceção de ti.

- Sim, mas o que eu não admito justamente é que, para ti, minha mulher faça parte de todo o mundo! Quero que ela participe da exceção aberta para mim, que a trates pelo modo por que me tratas.

- Não é por falta de vontade, crê; mas não está em minhas mãos! - Procuro ser amável, ser comunicativo, e as palavras gelam-se-me na garganta, o pensamento estaca e uma cadeia de chumbo enleia-me todo, tirando-me até os movimentos; então sinto-me ridículo, arrependo-me de me haver mostrado; suo, lateja-me o coração e em tais momentos daria o resto de minha vida para sair de semelhante apuro. Outras vezes quero aproximar-me dela, dizer-lhe alguma coisa que lhe faça compreender o quanto a estimo, mas de tal modo me falece a coragem, que não consigo fazer um passo, nem encontro uma palavra para lhe dar. - És um tipo!

- Sou um asno! Ah! que se eu tivesse a tua presença de espírito, as tuas maneiras, os teus recursos.

- Com esse gênio, serias ainda mais infeliz!

- Não, seria ao menos compreendido; porque não sei que diabo tenho eu comigo, que ninguém além de ti percebe as minhas intenções ou acredita nos meus atos. Às vezes, quero ser meigo, quero mostrar que não estou contrariado, quero manifestar a minha simpatia ou o meu entusiasmo por alguém ou por alguma coisa e, em vez disso, consigo apenas convencer a todos de que estou aborrecido e que só desejo que ninguém se aproxime de mim, que não me fale, que não me incomode! E, todavia, não sou mau e todo o meu empenho é ser melhor do que sou.

- Ser melhor do que és?... Oh! então é que serias deveras um tipo insuportável! Acredita, meu bom Coruja, que o teu defeito capital é a tua extrema bondade. A maior parte dos homens não te pode tomar a sério, porque não te compreende e porque te supõe um louco. Tens atravessado a existência a espalhar pelo chão, à toa, sem contar as sementes, punhados e punhados de boas ações. Pois hein! Qual foi de todas essas sementes a que vingou? - Nem uma única! Não porque não fossem perfeitas e sãs, mas porque não encontraram terra em que pudessem medrar! És um excêntrico, um aleijado, um monstro, tens o coração defeituoso, porque ele não é como o coração típico dos mais. E como, em semelhantes condições, queres ter amigos; queres ser ao menos suportado entre os homens? Já viste porventura uma pomba atravessar impunemente por entre um bando de corvos?... Se queres ser bem recebido no meio dos homens, se homem como eles ou pior; desculpa-lhes os vícios - imitando-os; afaga-lhes o amor--próprio, fingindo que os admiras; e dessa forma, se fores um forte hás de desfrutá-los, e se fores um vulgar hás de viver com esse lado a lado, na mais doce harmonia e na mais deliciosa felicidade. Isso é a vida!

- Oh! não me pareces o mesmo; nem acredito que abraces tão cínicas teorias; são falsas,nunca te pertenceram!

(continua...)

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