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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— A vítima de Ambrosina deixou ao pai essa carta, que a senhora tem às mãos... O desgraçado caiu fulminado ao lê­la, e creio que nunca mais se levantará... Sua filha o matou!

— Valha­me Deus! Valha­me Deus! repetia a desventurada mãe, achegando­se cheia de comoção para o corpo de Jorge.

E enquanto lhe desafrontava ela a garganta e o estômago, Gabriel monologava a um canto, com uma voz arrastada e confusa, como se estivesse delirando.

Não havia aquilo de ficar ali! profetizava ele; outras vítimas seriam arrastadas à ignomínia e à morte por aquela malvada! E ela, triunfante e cínica, iria por diante, envenenando com seus lábios todas as bocas que a beijassem, secando no seu peito, insaciável de luxúria, a púbere flor de todos os vinte anos que encontrasse no caminho! Arcanjo maldito, suas asas só para baixo serviriam no vôo, e um dia afinal, quando lhe caísse a máscara formosa, o mesmo inferno haveria de repudiá­la com asco!

Jorge permanecia imóvel. Tinha os olhos muito abertos, fitos e raiados de sangue, a boca torcida, mostrando parte da dentadura, que se destacava do negrume das barbas e da roxidão da cara com um sorriso abominável.

Genoveva ajoelhara­se ao lado da cama, e dizia entredentes a oração dos moribundos. ii dentes a oração dos moribundos.

Ao fundo da alcova, Gabriel derramava sobre os dois um olhar dolorido e vago. Postura e gesto, tudo nele dizia grande desapego à vida e uma completa ausência de si próprio. Apoiava­se a um móvel com o cotovelo, e com a mão correspondente amparava a cabeça em desalinho. Havia mais indiferença do que mágoa na sua graciosa boca mal cerrada. A febre punha­lhe tons cor­de­rosa na palidez das faces, e a sombra transparente dos seus triguenhos cabelos banhavam­lhe a fisionomia num doce eflúvio levedado de ouro.

Quem o visse naquele instante, tomá­lo­ia por um prematuro asceta, cujo espírito apenas roçasse de leve pela terra, distraído e ligeiro repouso dos seus vôos místicos.

No silêncio da alcova palpitava monotonamente o balbuciar das orações de Genoveva.

De repente, Gabriel abriu a chorar numa explosão de soluços, e afastou­se para o jardim com o rosto escondido nas mãos.

Quando Alfredo voltou com o médico, Jorge havia já morrido.

E pouco depois o amante de Ambrosina vagava pelas ruas, sem consciência do tempo nem do lugar.

Como todo aquele que sente uma decepção de amor, comprazia­se ele em deixar levar à toa, arrastado pelos seus próprios desgostos. Enquanto errava pelas ruas, lhe patinavam no espírito, com os chapins em brasa todas as saudosas recordações da sua extinta ventura.

Duas horas. A noite enchia a natureza de mistérios. O arrabalde dormia; polícias dispersos cabeceavam encostados pelas esquinas ou ressonavam à soleira das portas fechadas. Por entre uma nuvem de pó, os varredores da rua desenhavam­se confusamente, como espectros; a noite envelhecia, e as primeiras névoas da madrugada iam galgando as serras, que cercam o Rio de Janeiro num círculo de granito. Uma mulher, vestida de branco e com os cabelos soltos, passeava de um para o outro lado da calçada.

Gabriel reparou que havia entrado na cidade.

XXXII

VISITA DE ZANGÃO

Ambrosina e Laura, chegadas à Bahia, hospedaram­se no hotel Figueiredo. Daí colheram informações sobre a cidade e seus costumes, e logo depois se achavam instaladas na Barra em uma casinha alugada com os móveis.

Levaram uma vida especial as duas belas fugitivas, à qual os sobressaltos e as apreensões emprestavam um capitoso encanto de aventura romanesca. Inteiramente desconhecidas, concentravam só em si toda a atividade dos seus instintos e toda a mórbida curiosidade dos seus sentidos. Laura deixava­se dominar em absoluto pela companheira, não tinha vontade própria, nunca fazia uma objeção aos reclamos de Ambrosina, que em compensação não desdenhava meios de proporcionar à amiga tudo que lhe pudesse trazer alegria, propondo­lhe divertimentos na cidade, excursões ao campo, e oferecendo­lhe jóias, modas e dinheiro.

Laura, porém, começava a enfraquecer. O seu lindo corpo delgado, e outrora tão roliço, principiava a denunciar sinistros ângulos. A pele ia se tornando mais transparente, descorada e seca, os lábios menos vermelhos, as mãos úmidas. De toda ela se desprendia um ar melancólico de sofrimento e resignação, tinha agora o andar vagaroso e os movimentos demorados. Ficava horas perdidas a olhar abstratamente para o espaço, boca ansiosa, respiração convulsa, braços esquecidos.

Dir­se­ia que toda a sua atividade nervosa se lhe havia refugiado nos olhos. Esses, sim, eram agora mais vivos e pareciam maiores na roxa moldura das pálpebras.

Ambrosina, às vezes, a surpreendia nesses êxtases.

— Que tens tu, minha vida?... perguntava­lhe com meiguice; por que ficas assim, a olhar a toa, como quem deixou longe o coração?... Fala, meu amor! conta à tua amiguinha qual a mágoa que te oprime! O que te falta?

— Não era nada!... dizia a outra, entre sorrindo e suspirando. Nervoso...

Ambrosina ralhava.

— Não a queria ver assim triste!... Era preciso ter juizinho!

(continua...)

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