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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

A luta estava terrivelmente travada. Em alguns minutos ninguém mais pode entender-se. a mosquetaria atroava os ares com suas vozes assustadoras. As descargas sucediam-se incessantemente umas às outras. Contra os paredões e muralhas de solida e antiga fortaleza não batem com mais fúria as balas de canhões inimigos do que as dos mosquetes dos matutos contra as paredes, as portas, as janelas do sobrado do sargento-mór em que eles consideravam encastelado o despotismo, o orgulho e a maldade de um senhor feudal.

- Germano? Germano? Chamou o sargento-mór, ao penetrar no vasto aposento em que tinha o grosso de sua tropa. Onde estás, moleque? Não vês que as portas da entrada se acham desamparadas? Para a frente, demônios!

João da Cunha trazia na cava do colete um punhal, no cós dos calções uma pistola, e na mão esquerda um clavinote curto. Por cima do gibão de seu uso corria-lhe, cingindo-o, o talim, donde lhe pendia uma espada de ponta direita. Do ombro esquerdo para o quadril direito caia transversalmente uma correia lustrosa na qual se via segura uma patrona cheia de cartuchos fabricados por sua mulher. Trazia na cabeça chapéu de palha de largas abas. Com o trigueiro do rosto contrastava a barba grisalha, com o longo nariz aquilino os olhos pequeninos e redondos, como os de pomba.

Em sua fisionomia liam-se sentimentos encontrados e violentos: a temeridade para avançar, a firmeza para resistir.

À voz do senhor, Germano chamou os outros e tornou com eles para as portas. Por trás destas tinham sido colocadas diversas caixas-de-açúcar com dobrado fim – amparar as entradas e dar aos atiradores posição sobranceira. Subiram às caixas os negros, e nos pequenos olhais, acinte feitos nas portas por ordem do sargento-mór, puseram eles as bocas das armas.

Então o sargento-mór deu ordem para atirar. As pedras bateram nos fuzis, algumas escorvas arderam, mas nem um tiro soou.

João da Cunha, espantado, surpreso, olhou sucessivamente para os negros e para os dois fidalgos. Rápida lividez passou pelas faces destes últimos. Uma só idéia, uma suspeita cruel que lhe atravessara o cérebro, fez chegar ao rosto deles a sombra de sua asa negra.

Puseram os escravos novas escorvas nos mosquetes, que levaram novamente aos orifícios das portas. À voz de – fogo! – as escorvas arderam, mas, como da primeira vez, nenhuma arma disparou seu tiro.

Fora de si, o sargento-mór vai cair de um pulo junto de Germano, enquanto Filipe Cavalcanti e Luiz Vidal, desembainhando suas espadas, se colocam em atitude ameaçadora diante dos outros escravos.

- Negro infame, quero saber o que têm estas armas. Confessa a verdade, senão te atravesso da outra banda. João da Cunha parecia uma visão infernal. Todos os músculos do rosto, as mais delicadas linhas de seus olhos despediam duras e mudas ameaças, que falavam mais claro do que seus gestos e expressões violentas. Senhor, as armas estão molhadas, respondeu Germano. Não fui eu que as molhei, foi ele; mas já pagou.

- Molhadas as armas! exclamou Filipe. Traidores!

- Ele quem? Ele quem? Dize já quem foi o autor deste crime. - Moçambique.

Eis o que se tinha passado depois da subida do Roberto e dos seus companheiros para o andar superior.

Moçambique chegou-se a Germano e lhe disse:

- Que esperas, moleque? Daqui a pouco o branco vem chamar-nos para o sobrado, e nós levamos as armas enxutas. Bota logo água dentro delas.

- Cala a boca, tio Moçambique. Estás doido? Água dentro das armas! Para que fim?

- Ah! Tão depressa te esqueceste da promessa que fizeste a seu Pedro de Lima?

- Eu nada prometi, Moçambique, eu nada prometi do que você está inventando ai.

- Pois já te não lembras da conversa que tiveste ontem de tarde no mucambo?

E que prometi eu, negro velho tonto? Melhor será que você cale sua boca. Calou Moçambique a boca um momento, mas seu espirito embrutecido, seu interesse, que sua ignorância o fazia supor muito bem amparado pelas promessas de Pedro de Lima, alteou dentro em sua mente cada vez mais as vozes falazes e persuasivas. O negro deu uma volta, como para disfarçar a intenção serpentina, dirigiu-se ao canto onde estavam encostadas as armas, e começou a esvaziar no cano de cada uma o coco, que enchia no pote d’água destinada a matar-lhes a sede.

Germano deu pela operação, no momento precisamente em que Moçambique molhava o ultimo mosquete. Correr ao negro velho, tomar-lhe a arma da mão, exprobra-lo, foram atos que o moleque praticou em um momento.

- Tio Moçambique! Você sempre fez o que queria?! exclamou na realidade aterrado Germano.

- Fiz o que tu prometeste, mas não tiveste coragem para fazer, respondeu Moçambique. Negão safado! Tu ouviste eu prometer alguma coisa?

Ouvi, sim. E se tu quiseres agora negar, eu tudo contarei ao senhor – disse Moçambique, dando mostras de querer envolver em sua queda o parceiro.

(continua...)

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