Por José de Alencar (1875)
Entretanto a sensação viva que Fernando experimenta neste momento é a do contato estreito, íntimo, do talhe palpitante da moça, como se o tivesse fechado em seus braços; sua alma, semelhante ao molde que concebe a cera branda, vazava em si formosa estátua e recebia o seu toque mavioso.
Se o colo de Aurélia pulsava rápido no ofêgo da valsa, embora os rofos do decote nem de leve roçassem o colete, ele, fechando os olhos e recolhendo-se, palpava em seu peito a rija galba do seio voluptuoso.
Se um retraimento lascivo, peculiar à raça felina, imprimia ao dorso de Aurélia uma flexão ondulosa, que dilatando-se no abalo nervoso, brandia o corpo esbelto, essa vibração elétrica repercutia em todo o organismo de Seixas.
Era uma verdadeira transfusão operada pelo toque da mão deste na cintura dela; mas sobretudo pelos olhos que se imergiam, e pelas respirações que se trocavam.
Não há flor de aroma delicado, como a boca pura e fresca de uma moça.
Outros perfumes conheço mais vivos, alguns fortes e excitantes: nenhum tem a maga suavidade de um hálito de rosas, fragrância de sua alma, que Aurélia infundia nos lábios do cavalheiro.
Neste deleito em que se engolfava, teve Seixas um momento de recobro, e pressentiu o perigo. Quis então parar e por termo a essa prova terrível que a mulher o submetera, certamente no propósito de o render a seu império, como já uma vez o fizera, naquela noite do divã, noite cruel que ainda conservava a pungente recordação.
Para reparar a parada, conteve a velocidade do passo. Percebeu Aurélia o leve movimento, se não teve a repercussão do pensamento do marido, antes que este o realizasse. Os lábios murmuraram uma palavra súplice:
- Não!
As pálpebras ergueram-se; os grandes olhos, cheios de luz e de amor, inundaram o semblante de Seixas, e cerraram-se logo levando-lhe toda a vontade e consciência, como uma onda que depois de espraiar-se, reflue, trazendo no seio quanto encontrou em sua passagem.
Seixas abdicou de si, e arrojou-se novamente no turbilhão.
Tudo isto se passara em breves momentos, durante o espaço que o par valsante levara para descrever pelo vasto salão duas ou três elipses.
Nos quatro cantos da casa, havia para ornato altas jardineiras de bronze verdadeiro e de trabalho artístico, lembrança de Aurélia que as encomendara da Europa.
Eram grupos agrestes, onde se tinham disposto os lugares dos vasos; mas estes em vez de flores, recebiam plantas vivas, que formavam assim um bosque a casa ângulo da sala, concorrendo para dar-lhe o aspecto campestre, que tanto se aprecia agora e com razão.
Há nada mais encantador do que trazer o campo para dentro da cidade e até da casa; do que entrelaçar com as magnificências do luxo as galas inimitáveis da natureza?
No enlace da valsa, o lindo par, ansioso de espaço, e sentindo-se apertado na sala, alongara a elipse até a extremidade, voltando por detrás de uma das jardineiras, onde não estava ninguém naquela ocasião.
Houve um ápice, rápido como o pensamento, em que o par achou-se oculto pelas longas palmas de uma musácea, que se arqueavam graciosamente em umbela. Nesse momento um relâmpago cegou-os a ambos.
Duas rosas se embalam cada uma em sua haste à aragem da tarde; inclinam de leve o cálix e frisam-se roçando as pétalas. Assim tocaram-se as frontes de Aurélia e Fernando, e os lábios de ambos afloraram-se no sutil perpasse.
Foi um relance. O elegante par sumira-se atrás da folhagem, e já emergia da sombra e nadava na claridade deslumbrante da sala que ia de novo atravessar na elipse fugaz.
Mas Fernando sentiu na face um sopro gelado. Olhou: Aurélia estava desmaiada em seus braços. A gentil cabeça ao desfalecer não vergara para o peito. Como se a prendesse o imã dos olhos que a enlevara, inclinou à espádua do cavalheiro, com o rosto voltado para ele.
Os lábios descorados moviam-se brandamente, como se sua alma, que ali ficara, estivesse conversando com a outra alma que ali passara.
Seixas ergueu a mulher nos braços e levou-a da sala.
V
No meio do alvoroço causado pelo incidente, enquanto acudiam os médicos, vinham os sais, e corriam as amigas, umas inquietas, e outras curiosas, choviam os comentos.
- Que imprudência!
- Aquele desespero!... Eu logo vi!
- E ela que não tem o costume de valsar.
- Quis fazer-se de forte!
- Não é, senhora; aquilo foi o vestido. Não vê como acocha a cintura.
- Ora! Remantismos!... dizia Lísia com um muchocho; e acrescentou para Adelaide:
- Acredita no desmaio?
- Pensa que foi fingimento?
- Requebros com o marido. Queria que ele a carregasse no meio da sala e à vista de todos. Gosta de mostrar que o Seixas a adora e derrete-se por ela! Pudera não! Uma boneca de um milhão de cruzeiros!...
Nesse tema continuou a menina, que tinha a balda muito comum de falar como um realejo, pensando que assim abismava os outrso com um espírito gasoso, quando ao contrário aguava o que a natureza lhe dera.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.