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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Ah! foi efeito da interessante narração de V. Exa. Sensibilizei-me... realmente o seu romance é muito sentimental... toca no coração.

– Sim.. sim, tornou a moça; eu creio bem que ele tocará o coração de V. Sa.

– Mas, concluiu-se?...

– Certamente que não; ficaria sem sentido, sem pés nem cabeça.

– Era mesmo assim excelente... estava na moda; porém já que o romance não termina aí, quererá V. Exa. ter a bondade de contar-me o resto?

– Pois não! com sumo prazer; temos, como eu dizia, uma moça bela e um jovem pobre que se amam muito... romanescamente; até aí não há senão um idílio; imaginamos pois, imaginamos não, foi d. Celina quem imaginou uma espécie de tirano de comédia, um outro namorado da heroína, um mancebo rico, honrado, e vaidoso de sua fortuna, que se vem erguer como uma barreira terrível entre os dois amantes.

Celina apertava a mão de Mariquinhas de instante a instante; mas não se atrevia a dizer palavra.

– E depois?... perguntou Salustiano.

– Depois as cenas se sucedem... deverão haver lutas domésticas, esperanças que morrem e revivem... jogo de afetos... e finalmente..

– Finalmente...

– Boa pergunta! por fim de contas triunfa o amor inocente e puro... triunfa a inspiração de Deus... o moço pobre alcança a mão da moça bela.

– E o outro?

– O outro!... exclamou Mariquinhas dando uma risada; o outro deve muito provavelmente ficar com cara de tolo.

Salustiano mordeu os beiços. Mariquinhas prosseguiu:

– Mas veja... estávamos em uma verdadeira dificuldade!

– Qual?...

– Não sabíamos como descrever o tal sujeito rico, ousado e vaidoso...

– Ora! que modéstia a de V. Exa!... com tanta imagina, espírito tão atilado...

– Sim... sim... porém nós queremos seguir à risca a natureza... procurávamos pois um original, quando V. Sa. chegou.

– O último golpe acabava de ser dado tão diretamente que Salustiano corou até a raiz dos cabelos.

– Compreendo tudo, minhas senhoras!...

– Ora... pois o que compreendeu?

Salustiano pensou alguns momentos, e depois respondeu:

– Que devo também escrever um romance.

– Ah! disse Mariquinhas, então isto é contagioso?!

– Creio que sim, minha senhora.

– Tanto melhor, tornou a moça rindo-se; creia V. Sa. que faz um relevante serviço à tão atrasada literatura do país.

– Agradecido.

– Eu estou pensando já no muito que poderá fazer uma pena manejada por quem deve à natureza tanto espírito como V. Sa.

– Muito agradecido.

– Era uma necessidade que desde muito palpitava; o céu devia ao Brasil um Cooper, um Walter Scott, um Dumas.

– Mil vezes agradecido.

– Quando começa a escrever?...

– Ora... já está metade escrito.

– Já!.. e então!...

– É o mesmo de V. Exas.

– O mesmo?... não... não... seria um triste roubo feito a duas pobrezinhas.

– Mas o meu romance, que se parece muito com o de V. Exas. até o meio, difere completamente no fim.

– Como?

– No meu romance triunfa o moço rico, o ousado e vaidoso...

Celina ergueu a cabeça nobremente, e fitou os olhos em Salustiano.

– Crê então, que isso chegue a ser verossímil?... perguntou Mariquinhas.

– Não será somente verossímil, tornou Salustiano elevando a voz com incrível audácia, ha de ser também uma realidade.

– Bravo!... exclamou Mariquinhas; isto me está parecendo um desafio.

– Pois seja um desafio; veremos qual dos dois romances se realiza.

– Aceito, disse, levantando-se, a “Bela Órfã”.

O rosto de Celina estava aceso de rubor e de cólera: em pé, ela encarava Salustiano com olhos cheios de fogo.

– Minha senhora... ia murmurando o moço.

– Eu lhe disse que aceito o desafio, senhor!... exclamou Celina. Não é bem claro isto?

Reinou então silêncio por alguns instantes, até que Salustiano despediu-se com seu sorrir sarcástico nos lábios, e saiu com o desespero e a raiva no coração.

– Bem bom! bem bom! disse Mariquinhas batendo palmas com uma alegria infantil.

– Fizeste mal, d. Mariquinhas.

– Pois sim... concedo, fiz mal; porém tu, d. Celina, fizeste muito bem.

– E agora?... quem sabe o que me espera?...

– Que nos importa o futuro? o futuro é de Deus.

– Mas eu preciso que me animem; eu sou fraca e sou só.

– Vem portanto animar-te... subamos ao segundo andar.

– Para quê?...

– Vamos ler de novo a história do teu amor.

– Oh!... sim!... tu és louca como eu, d. Mariquinhas; mas o que acabas de dizer deve ser verdade.

– Vamos pois...

– Vamos.

As moças subiram a escada correndo, como duas crianças travessas; entraram no quarto de Celina... abriu-se a gaveta onde deveria estar a história do amor da “Bela Órfã”...

– Os meus papéis!... exclamou esta.

– Que há então?... perguntou Mariquinhas.

– Eu os tinha posto aqui.

– É certo..

– Oh!... furtaram-mos!...

– Meu Deus!...

– Os meus papéis!... a minha história!... exclamou dolorosamente a “Bela Órfã”.

– Como pode ser isto?...

– Onde estarão eles?...

– Quem entraria aqui?... perguntou Mariquinhas.

– Eu não sei... eu não podia ver!... o que eu sei, o que eu vejo é que estou perdida. Oh! isto foi uma desgraça!...

– Quem sabe?... disse Mariquinhas com ar pensativo; também pode ser que seja uma felicidade.

CAPÍTULO XXIX

O VELHO RODRIGUES E CÂNDIDO

(continua...)

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