Por Aluísio Azevedo (1881)
— Ora sebo! Que diabo tenho eu com isto? O que vim fazer a esta província estúpida, foi tratar dos meus negócios pecuniários!] Liquidados —nada mais tenho que fazer aqui! Musco-me! Ponho-me ao fresco! Passem muito bem!
E começou a passear pelo quarto, agitado, a fingir-se muito egoísta com as mãos nas algibeiras das calças monologando:
— Sim! sim! longe daqui não sou forro à pia! o filho da escrava sou o Doutor
— Raimundo José da Silva, estimado, querido e respeitados! Vou! Por que não?! O que mo impediria?
E parou, tomou a andar, afinal assentou-se na cama, disposto a recolher-se. Despiu o paletó, arremessou o chapéu e o colete.
— Sim! O que mo impediria?...
Ia descalçar a primeira botina, quando espantou-se com a lembrança de Ana Rosa. Uma voz exigente bradava-lhe do coração: “E eu? e eu? e eu?... Esqueceste de mim, ingrato? Pois bem, não quero que vós, ouviste? Não irás! sou eu quem to impedirá!”
E Raimundo, pasmo por não ter, durante tanto tempo, pensado em Ana Rosa, despiu-se com pressa e, como querendo fugir a esta nova idéia, atirou-se de bruços à cama, soluçando.
As seis horas da manhã ainda havia luz no quarto dele.
No dia seguinte, às duas da tarde, desceu, muito abatido, ao escritório de Manuel e pediu-lhe secamente que apressasse os seus negócios e 0 despachasse quanto antes, porque não podia demorar-se mais tempo no Maranhão. Precisava partir o mais cedo possível.
— Mas venha cá, doutor, o senhor não me deve guardar ódio por ter eu...
— Ah, certamente, certamente! Nem pensemos nisso! interrompeu Raimundo, procurando desviar a conversa. O senhor tem toda a razão... Vamos ao que importa!
Diga-me quando poderei estar desembaraçado?
— Mas não ficou maçado comigo!... Não é verdade? Creia que...
— Ó senhor! Como quer que lhe diga que não? Maçado! Ora essa! por quê?
Já nem pensava em tal! Vinha até pedir-lhe um serviço...
— Se estiver em minhas mãos... — É simples.
E, depois de uma pausa, Raimundo continuou, com a voz um pouco alterada, a despeito do esforço que fazia por afetar tranqüilidade: —Como lhe disse ontem... estava autorizado pela senhora sua filha a pedi-la em casamento; em vista, porem, do que me expôs o senhor a meu respeito, cumpre-me dar à Srª Ana Rosa qualquer explicação. Compreende que não posso retirar-me desta província, assim, sem mais nem menos, estando já empenhado em um compromisso tão melindroso...
— Ah, sim... mas não lhe dê isso cuidado... Arranjarei qualquer desculpa..
— Uma desculpa, justamente! É preciso dar-lhe uma desculpa; e o melhor seria declarar-lhe a verdade. Explique-lhe tudo. Conte-lhe o que se passou entre nós Ninguém, para isso, está mais no caso que o senhor!...
Manuel caçava a nuca com uma das mãos, enquanto com a outra batia o cabo da caneta entre os dentes, na atitude contrariada de quem toma, à pura força de circunstâncias, interesse numa causa estranha; porem, como Raimundo falasse em mudar de casa, ele atalhou logo.
— Como o senhor quiser... mas a nossa choupana está sempre às suas ordens...
— Bem, concluiu o rapaz, agradecendo o oferecimento com um gesto; posso então contar que o meu amigo se encarrega de explicar tudo à senhora sua filha?
— Pode ficar descansado.
— E quando terei os meus negócios concluídos?
— Antes da chegada do vapor já o senhor estará inteiramente desembaraçado.
— Muito agradecido.
E Raimundo subiu para o seu quarto.
Fazia um grande calor. O céu, todo limpo, com as suas nuvens arredondadas, parecia um vasto tapete azul, onde dormiam enormes cães felpudos. Raimundo lembrou-se de sair; feitou-lhe o ânimo: afigurava-se-lhe que na rua todos os apontariam, dizendo: “Lá vai o filho da escrava!” ia abrir a janela e hesitou; sentia um grande tédio, um mal-estar crescente, desde a revelação de Manuel; uma surda indisposição contra tudo e contra todos; naquele momento, irritava-o, por exemplo, a voz aflautada de um quitandeiro, que argumentava, lá embaixo na nua, com um sucio. Abriu o álbum com a intenção de desenhar, mas repeliu-o logo; tomou um livro e leu distraidamente algumas linhas; levantou-se, acendeu um cigano e passeou a largos passo pelos pelo quarto, com as mãos nas algibeiras.
Em um destes passeios, parou defronte do espelho e mirou-se com muita atenção. procurando descobrir no seu rosto descorado alguma coisa, algum sinal, que denunciasse a raça negra. Observou-se bem, afastando o cabelo das fontes; esticando a pele das faces, examinando as ventas e revistando os dentes; acabou por atirar com o espelho sobre a cômoda, possuído de um tédio imenso e sem fundo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.