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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Daí a uma hora recolheram-no à cama da mãe, porque lhe aparecera uma aflição na boca do estômago; mas vomitou logo e adormeceu depois, completamente aliviado.

Foi a sua primeira bebedeira.

* * *

Aos quatorze anos prestou exame de francês e geografia e matriculo-se nas aulas de gramática geral e inglês.

Já eram válidos, felizmente, os exames do Liceu do Maranhão, e com as cartas que daí houvesse, podia entrar nas academias da Corte.

Amâncio, de[pois da escola do Pires, nunca mais voltou a passar férias na fazenda da avó. Preferia ficar na cidade :tinha namoros, gostava loucamente de dançar, já fumava, e já fazia pândegas grossas com os colegas do Liceu.

Como o pai não lhe dava liberdade , nem dinheiro, e como exigia que ele às nove horas da noite se recolhesse a casa, Amâncio arranjava com a mãe os cobres que podia e, quando a família já estava dormindo, evadia-se pelos fundos do quintal. Era Sabino quem lhe abria e fechava o portão.

O moleque gostava muito dessas patuscadas. O senhor – moço levava-o à vezes em sua companhia. Amigos esperavam por eles lá fora, reuniam-se; tinham um farnel de sardinhas, pão, queijo, charutos e vinho. Era pagodear até pela madrugada!

Se havia chinfrim - entravam, ou então iam tomar banho no Apicum ou cear ao Caminho Grande. Em noites de luar faziam serenatas ;aparecia sempre alguém que tocasse violão ou flauta ou soubesse cantar chulas e modinhas. Aos sábados o passeio era maior; no dia seguinte Amâncio estava a cair de cansaço, aborrecido, necessitando de repouso.

Mas não deixava de ir. — Era tão bom passear pela rua, quando toda a população dormia; fumar, quando tinha certeza de que nenhum dos amigos de seu pai o pilharia com o charuto no queixo ;era tão bom beber pela garrafa, comer ao relento e perseguir ima ou outra mulher, que encontrassem desgarrada, a vagar pelos becos mal iluminados da cidade!

Tudo isso lhe sorria por um prisma voluptuoso e romanesco.

Às vezes entrava em casa ao amanhecer. Não podia dormir logo ;vinha excitado, sacudido pelas impressões e pela bebedeira da noite. Atirava-se à rede, com uma vertigem impotente de conceber poesias byronianas, escrever coisas no gênero de Álvares de Azevedo, cantar orgias, extravagâncias, delírios.

E afinal adormecia, lendo Mademoiselle de Maupuin, Olympia de Clèves ou Confession d’un enfant du siècle.

Não penetrava bem na intenção deste último livro, mas tinha-o em grande conta e, visto conhecer a biografia de Musset, embriagava-se com essa leitura; ficava a sonhar fantasias estranhas, amores céticos, viagens misteriosas e paixões indefinidas.

As criadas da casa ou as mulatinhas da vizinhança já o enfaravam :era preciso descobrir amores mais finos, mais dignos, que, nem só lhe contentassem a carne, como igualmente lhe socorressem as ânsias da imaginação.

Por esse tempo leu a Graziella e o Raphael de Lamartine .Ficou possuído de uma grande tristeza; as lágrimas saltaram-lhe sobre as páginas do livro. Sentiu necessidade de amar por aquele processo, mergulhar na poesia, esquecer-se de tudo o que o cercava, para viver mentalmente nas praias de Nápoles, ou nas ilhas adoráveis da Sicília, cujos nomes sonoros e musicais lhe chegavam ao coração como o efeito de uma saudade ,amarga e doce, de uma nostalgia inefável, profunda, sem contornos, que o atraía para outro mundo desconhecido, para uma existência, que lhe acenava de longe, a puxá-lo com todos os tentáculos de seu mistério e da sua irresistível melancolia.

Uma ocasião, deitado ao pé da janela de seu quarto, pensava em “Graziella”.

A tarde precipitava-se no crepúsculo e enchia a natureza de tons plangentes e doloridos. A um canto da rua um italiano tocava uma peça no seu realejo. Era a Marselhesa.

Amâncio conhecia algumas passagens da revolução de França :lera os Girondinos de Lamartine. E a reminiscência do sentimentalismo enfático dessa obra, coada pela retórica poderosa da música de Lisle, trouxe-lhe aos nervos um sobressalto muito mais veemente que das outras vezes.

Julgou-se infeliz, sacrificado nas suas aspirações, no seu ideal. Precisava viver, gozar sem limites!...Não ali, perto da família, estudando miseráveis lições do Liceu, mas além, muito além, onde não fosse conhecido, onde tudo para ele apresentasse surpresas de que sua imaginação mal podia delinear.

Por isto estimou deveras ter de seguir para o Rio de Janeiro. A Corte era “um Paris”, diziam na província, e ele, por conseguinte, havia de lá encontrar boas aventuras, cenas imprevistas, impressões novas, e amores, — oh! amores principalmente!

E, com efeito, desde que pôs o pé a bordo, principiou a gozar de novidade, produzida no seu espírito pela viagem.

(continua...)

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