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#Contos#Literatura Brasileira

O pai

Por Machado de Assis (1886)

Enquanto se achava fraca, e como já não houvesse razão para tocar no doloroso assunto da perfídia de Valentim, o pai de Emília esquivou-se a falar-lhe dos motivos que tinham prostrado a filha.

A convalescença correu regularmente. O que não se pôde vencer foi a tristeza de Emília, mais profunda então do que outrora.

Muitas vezes a moça esquecia-se do pai e de todos, e com o olhar fixo e sem expressão parecia entregue a dolorosas reflexões.

Nessas ocasiões Vicente procurava distrai-la de algum modo, sem, todavia, aludir a nada que fosse de Valentim.

Enfim, Emília ficou completamente restabelecida.

Um dia Vicente, em conversa com ela, disse-lhe que passada a funesta tempestade do coração cumpria-lhe não se escravizar a um amor que tão indignamente votara a Valentim. Estava moça; considerar empenhado o coração naquele erro do passado era cometer um suicídio sem proveito, nem razão legítima.

— Meu pai, assim é preciso.

— Não é, minha filha.

— Afirmo-lhe que é.

— Tão generosamente pagas a quem foi tão cruel para contigo?

— Meu pai, disse Emília, cada um de nós foi condenado a ter neste negócio uma catástrofe. É a sua vez.

— Explica-te.

— Meu pai, disse Emília, fechando o rosto nas mãos, eu sou dele quer queira quer não. Uma idéia pavorosa atravessou o espírito de Vicente. Mas tão impossível lhe pareceu, que, sem dar crédito à imaginação, perguntou a Emília o que queria dizer. A resposta de Emília foi:

— Poupe-me à vergonha, meu pai.

Vicente compreendeu tudo.

O seu primeiro movimento foi repelir a filha.

Levantou-se desesperado.

Emília não disse uma palavra. No fundo do abismo da desgraça em que se via, não podia desconhecer que a indignação de Vicente era legítima e que devia respeitá-la. Vicente fez mil imprecações de ódio, mil protestos de vingança.

Passada a primeira explosão, e quando, extenuado pela dor, Vicente caía em uma cadeira, Emília levantou-se e foi ajoelhar-se aos seus pés.

— Perdão, meu pai, exclamava ela entre lágrimas, perdão! Conheço todo o horror da minha situação e respeito a dor que meu pai acaba de sentir. Mas vejo que mereço perdão. Eu era fraca e amava. Ele era insinuante e parecia amar. Nada disto me lava do pecado; mas se a indignação de um pai pode encontrar atenuação no ato de uma filha, meu pai, eu ouso esperar isso.

Vicente repeliu Emília com a mão.

Emília insistiu, implorou, desfez-se em lágrimas, em súplicas, e em lamentos. Pediu pela alma da mãe que Vicente não juntasse à dor da perfídia do amante a dor da maldição paternal.

A voz do arrependimento e da contrição de Emília teve eco no espírito de Vicente. O velho pai, chorando também, voltou os olhos para a filha e estendeu-lhe os braços. Na consciência de Vicente Emília estava perdoada.

Mas o mundo?

Os juízos do mundo são singulares e contraditórios. Quando uma pobre rapariga cai num erro, como Emília, o mundo fecha-lhe as portas e lavra mandamento de interdição. É justo. Mas o que não é justo, o que é infame, o que clama justiça, é que essas mesmas portas se abram ao autor do crime, e que este, depois de sofrer uns simples murmúrios de desaprovação, seja festejado, acatado, considerado.

Ora, a situação de Emília diante do mundo apresentou-se logo no espírito de Vicente em todo o seu horror.

Vicente, voltando do abalo que sofrera, procurou reunir as idéias e os fatos e meditou sobre eles.

O que havia de positivo era:

Uma menina enganada e perdida.

Um depravado alegre e feliz com o bom êxito da empresa, rindo-se de longe da credulidade e do infortúnio de uma família honrada.

A par da velhice desfeita, a felicidade dos seus últimos dias anulada. Que fazer diante disto?

Vicente formou e desfez mil projetos, sem acertar com um que pudesse resolver todas as dúvidas e preparar todas as conseqüências.

Estava velho. Podia morrer de uma hora para outra. Emília ficava desamparada. Podia perder-se, senão por tendência própria, ao menos por urgência das necessidades. Ele sabia que a rapariga nas circunstâncias de Emília apresentava este dilema: ou a morte ou a vergonha, pontos horríveis, aos quais não é possível chegar sem ferir os preceitos divinos e humanos.

Há uma terceira solução que faz sair da morte e da vergonha; mas essa terceira seria escolhida por Emília? Apesar das lições paternas, do exemplo, da índole, dos sentimentos que nutria, ficaria ela a salvo das futuras seduções que, de envolta com a necessidade, fossem debruçar-se à noite no leito de sua miséria?

Vicente sentia, via, adivinhava toda esta situação, mas desesperava por não poder achar um só meio de preveni-la, e dissipar as suas tristes apreensões.

Entretanto o mais fúnebre silêncio sucedeu em casa às explosões de dor e de indignação do pai e da filha.

Esta vivia quase sempre no quarto, evitando o mais que pudesse a vista do pai, que era para ela a imagem da consciência viva.

Vicente do mesmo modo recolhia-se ao seu quarto, e ali passava horas e horas, só com a sua dor e com as suas considerações do futuro.

Um dia Vicente entrou no quarto de Emília e foi sentar-se ao pé dela.

— Emília...

— Meu pai.

(continua...)

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