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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

— Muito bem - disse Ângelo comovido.

— De repente, uma voz ressoou no âmbito da sala: “—Bravo! Bravo!” - dizia a voz.

— Era a de seu marido?

— Não, era a do tal meu vizinho, a quem meu marido ouvira dizer que não devia ter casado com ele. Este vizinho era um solteirão inofensivo e algum tanto parvo. Tinha chegado à varanda e daí alongava o pescoço para dentro da minha casa. — Estou de longe mesmo apreciando os seus dotes. - continuou ele, e mal tinha acabado de proferir estas palavras, senti sobre as mãos, que ainda percorriam o teclado, uma pancada violenta: o piano fora rudemente fechado, contra os meus dedos. Bezerra estava de pé junto de mim, fingira que ia para longe para pegar-me em culpa.

— Adivinho o resto - disse Ângelo.

— No mesmo instante - prosseguiu Maurícia - Bezerra corre à varanda com o intento talvez de pegar o solteirão pelas goelas e sufocá-lo; mas já não o encontrou; tinha fugido. Todo o seu furor se voltou, então, contra mim. Ergueu o chicote, que mal tocava a anca do seu cavalo. Eu estava de pé, e olhava para ele, horrorizada; nem me ocorrera fugir para um quarto e trancar-me por dentro. Mas quando, para que eu representasse todo o papel de escrava, só me faltava receber o golpe infamante, o braço de Bezerra descaiu, e ele empalideceu. Acovardara-se, vendo algumas gotas de sangue que tinham caído dos meus dedos sobre o meu vestido e aí deixavam escrita em caracteres vermelhos a história do seu crime. Foi esta brutal afronta que trouxe a nossa separação, pela minha fugida com minha filha para o Recife.

— A senhora tinha razão, hoje, quando me dizia que eu não sabia uma quarta parte dos seus padecimentos - disse Ângelo.

— Tenho ou não motivos de temer qualquer encontro com semelhante homem? Ah! Sr. Dr. Ângelo, se os maldizentes soubessem toda as particularidades da vida daqueles em quem aferram o dente envenenado, talvez recusassem praticar o seu torpe ofício.

Essas palavras foram proferidas alguns passos antes da entrada da casa de Martins.

Fizeram aí uma pequena parada. Pelas portas abertas, via-se de fora a sala ao clarão das luzes.

— Meu Deus! exclamou Maurícia. Veja quem está ali.

E apontou para a sala.

A um lado da mesa, três pessoas estavam sentadas, Martins, Eugênia e Bezerra.

Maurícia sentiu-se enfraquecer, e inclinou-se, para não cair, sobre o braço de Ângelo.

CAPÍTULO V

Albuquerque, senhor de engenho com quem Maurícia contratara os seus serviços, pertencia, segundo o está atestando o próprio apelido, a uma das primeiras famílias de Pernambuco. Em muitos pontos adiantado pela natural influência das idéias modernas, mostrava-se sumamente aquém do seu tempo no tocante às antigas regalias de sangue. Revia-se com vaidade que para assim dizermos trouxera do berço, nos pergaminhos da família. Esta vaidade era nele uma como intuição inata e irresistível. A educação, que se ajustara a esse molde tosco, dera-lhe novos acrescentamentos.

De seu natural, era brando e benévolo, não obstante serem rudes os sentimentos e algum tanto carregadas as tradições que herdara dos seus maiores.

Quando se sentia pisado na dignidade por pé, movido pela audácia, elevavase a toda à altura do passado, e no vasto arsenal da família encontrava, senão armas de aço fino e cortante com que rebater o agressor, as armas da soberba, do desdém, da altivez, e, às vezes, até as da ameaça e da hostilidade moral.

Estações desfavoráveis e contratempos privados tiveram-no por alguns anos em embaraços e atribulações que o assoberbaram.

Chegou a ver quase todos os seus bens arriscados. Mas os tempos melhoraram e pode desempenhar-se dos seus compromissos. A paz e a fortuna vieram ocupar de novo no lar, onde um eclipse se demorara não sem grande desânimos e desgostos, o lugar que lhes pertencia antes das adversidades agora de todo desaparecidas.

(continua...)

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