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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

Elias, quando largou a lança, tinha nela enfiadas todas as quatro cabeças. Depois em vez de desembainhar a espada como os outros, viram- no abrir alguns botões da farda, tirar do seio um curto punhal, e dependurando-se dos arreios com a presteza e agilidade de um gaúcho, quase sumir-se debaixo do cavalo, e depois reaparecer com a cabeça cravada na ponta do punhal. Os aplausos e os foguetes retumbaram por todos os lados.

- Ah! Meu Deus! - exclamou Lúcia involuntariamente e cobrindo os olhos com o lenço ao ver o moço naquela arriscada posição.

- Não se assuste, minha senhora- acudiu o fluminense- o rapaz está em seu elemento; é um excelente artista. No circo eqüestre do Bartolomeu este rapaz podia fazer fortuna.

Chegou por fim o momento de correr à argolinha, que é de todos os exercícios da cavalhada o mais difícil.

Os cavaleiros de ambas as turmas se reúnem de um só lado. Em frente deles, na outra extremidade, está pendurada a um cordão, preso a dois altos postes, uma argola de metal de uma polegada de diâmetro. Os cavaleiros, cada um por sua vez saindo a galope da fileira, têm de tentar enfia-la na ponta da lança.

Quando chegou a sua vez, Elias tinha montado de novo o fogoso rosilho; quando deram fé, já era tarde para estorválo. O cavalo saiu aos trancos, num galope áspero e descompassado; mas a despeito disso, quando Elias passou entre os postes, a argolinha tinha desaparecido do cordão. Como é de estilo, dois cavaleiros vieram escoltá-lo, e ele, ao som de aplausos, músicas e foguetes, dirigiu-se ao palanque de Lúcia. Esta, com o mais amável dos sorrisos nos lábios e com mão trêmula de emoção, na forma do costume, atou-lhe na ponta da lança um molho de largas e compridas fitas, e ele volteou de novo a arena a toque de música e estouros de foguetaria. Era o herói da festa.

Seguiu-se a embaixada. Um parlamentar, montado em um formoso e bem doutrinado ginete, saiu caracolando, dançando, pinoteando para o meio da arena, e em um discurso bombástico no estilo do Carlos Magno, intimou por parte do rei dos cristãos ao chefe dos infiéis que se rendesse à discrição, etc. Mas o turco descrido não está por isso, e com a mais despejada arrogância jura por Mafoma que se não renderá e desafia a cólera do cristão vencedor. Então há a corrida desordenada. Os cavaleiros cristãos em massa investem sobre os turcos, os quais não podendo sustentar o choque, correm atropeladamente pelo circo, uns para aqui, outros para acolá, sempre perseguidos pelos cristãos. Enfim os mouros, vendo-se apanhados, põem rapidamente o pé em terra e, largando seus cavalos, correm a procurar refúgio e padrinho cada qual em um palanque de sua escolha, e assim aqueles perros infiéis, abrigados cada um aos pés de uma beleza cristã, de cujas mãos querem receber o batismo, ficam inteiramente a salvo da sanha dos perseguidores.

Elias, que era mouro, atracou-se logo ao palanque do Major, e foi apadrinhar-se com Lúcia. Esta com alegre alvoroço e quase pensando, em sua imaginação infantil, que aquilo era uma realidade, adiantou-se sorrindo a dar a mão ao cavaleiro, como é costume nessas ocasiões, este foi convidado a jantar em casa de sua madrinha.

Assim passou-se alegremente o primeiro dia de festa. Os outros dois, que se seguiram, correram igualmente animados e folgaram sem incidente algum, cabendo sempre a Elias as honras do dia nas cavalhadas.

III - NA ROÇA

Festas acabadas, músicos a pé. Por vir muito a pêlo, cai-me agora do bico da pena este anexim popular.

Acabada a festa, tudo caiu na tristeza e monotonia, não direi ordinária, porém muito pior ainda, pois contrastava horrivelmente com a alegria e festivo alvoroço dos dias que acabavam de escoar-se, e dos quais somente restavam as saudades.

Elias, de garboso e brilhante cavaleiro que era, passou a não ser mais que mero peão, isto é, voltou à sua condição de moço pobre e sem posição.

O Major teve de demorar-se alguns dias ainda na vila. Elias durante esse tempo não deixou passar um dia sem ir à sua casa; era, porém, muito maior a freqüência de seu rival, cuja importuna assiduidade já escandalizava os olhos do público. Lúcia raras vezes lhe aparecia, e só quando era chamada por seu pai. Outro tanto não praticava com Elias, a quem vinha sempre cumprimentar com ar modesto, mas com as faces incendiadas em certo rubor, que significava muito. Este procedimento enchia de despeito e feria dolorosamente o amor- próprio do negociante:

(continua...)

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