Por Bernardo Guimarães (1869)
— Que diabo tens tu hoje, compadre?... dança-se, ou não dança-se?... As moças estão ardendo por te verem na roda. Olha a Calu como está te chamando com aquele olhar derretido!... A Zezinha diz que não dança mais e vai-se embora, se continuares dessa maneira; a Maroca por te ver assim embezerrado está com medo que queiras fazer algumas das tuas, e já foi ver o capote para escapulir-se. Ah! compadre, isto não está bem; você, que é sempre o melhor companheiro de folgança, há de ser hoje o nosso desmancha-prazeres! Oh! bravo!... é a Maroca que sai a campo! é a rainha da festa. Olha, compadre, como está linda aquela feiticeirinha! Bravo disso! bravo, Maroca!
E a Maroca, depois de ter feito os mais galantes e graciosos requebros sapateando pela sala, girou como um corrupio sobre os talões, abaixou-se rapidamente rente ao chão, deixando ver somente entre os tufos de suas alvas saias enfunadas os braços e o rostinho cor de jambo, como uma rolinha deitada em ninho de algodão batido.
— Bravo! bravíssimo! bradou Gonçalo levantando-se de um salto, que retiniu com estrondo por toda a sala.
Depois continuou baixo voltando-se para mestre Mateus:
— Agora sim, compadre, sou da festa; a Maroca está aí, vai tudo bem. E o Reinaldo, onde está ele? não veio?...
— Não enxergas!... Olha, lá está ele naquele canto, e por sinal que está hoje triste e de viseira fechada, não sei por quê.
— Bem! lá o vejo, disse Gonçalo, em cujos olhos reluzia um prazer satânico, e continuou resmungando entre si: — Bem! muito bem! aqui sim! tenho uma linda menina a quem posso fazer a corte, e ao lado dela um valentão de primeira ordem a quem farei abaixar o topete. Ah! Reinaldinho, meu amigo, eis aqui uma bela ocasião de mostrar, sem ser por brincadeira, qual dos dois é mais valente, o tigre ou a onça, e isto sem quebra de nossa amizade; para teu ensino quebrar-te-ei bem as costelas diante de toda esta gente, e nem por isso deixaremos de continuar a ser bons amigos como dantes. Não serás o primeiro amigo a quem dou uma destas proveitosas lições.
Não se pense que estas palavras, que Gonçalo murmurava consigo, eram um escárnio feroz, um sarcasmo filho do ódio; não, elas eram a expressão sincera de seus sentimentos. Ele queria bem a Reinaldo, e seria capaz de lançar-se por entre o ferro e o fogo para defendê-lo; mas o que não podia levar a bem é que este tivesse a louca pretensão de rivalizar com ele em valentia; por isso suspirava sinceramente por uma ocasião de dar-lhe uma sova tal, que lhe desvanecesse de uma vez para sempre suas quiméricas aspirações, e que enfim conhecendo Reinaldo o seu lugar, não houvesse mais motivo de desavença entre eles. Quão mal conhecia ele a esse amigo, medindo-o pela mesma bitola dos outros seus camaradas.
A rapariga, que nesse momento dançava, vendo Gonçalo já em pé, dirigiuse para ele e o tirou para o meio da sala.
— Sou daí! bradou ele com voz de atordoar.
Ganhou de um salto o meio da sala, e fazendo retinir suas grandes esporas depois de ter feito em roda de toda a sala um frenético sapateado, passando revista a todos aqueles rostos, estacou em frente da Maroca, e deitando braços e cabeça para trás exclamou:
— Ah! Maroca, meu amorzinho, como estás encantadora! agora é contigo, minha rola; sai do ninho, feiticeira!
A Maroca não se enfadou com o gracejo, sorriu-se e deixando-se arrebatar no rodopio da dança vertiginosa brilhou com a faceirice e graça do costume.
Desde então Gonçalo e Maroca estavam sempre no meio da roda; eram o rei e a rainha da festa. As moças à porfia tiravam Gonçalo para o meio da roda; mas o endiabrado rapaz com o maior escândalo e do mundo o mais inconveniente – se é que pode haver escândalo e inconveniência em um batuque –, teimava em não se dirigir senão à mimosa e gentil Maroca, como se só ela dançasse naquela sala. Esta por sua parte não se mostrava enfadada, antes parecia vaidosa com aquela preferência, e cada vez mais requintava em meneios e requebros sedutores.
Reinaldo, porém, que se encostava a um canto para ocultar o furioso ciúme que por dentro lhe lavrava o coração, rangia os dentes e mordia os lábios observando com olhos turvos e chamejantes todos os movimentos de sua amante e de Gonçalo. Este, se bem dançava, melhor falava gritando uma algaravia infernal, chasqueando e dirigindo à Maroca os mais atrevidos gracejos, que eram como setas envenenadas que iam varar o coração do ciumento Reinaldo.
Se antes da chegada de Gonçalo o batuque corria animado e caloroso, agora fervia como as caldeiras de Satanás.
Gonçalo por fim de contas, à força de dirigir à faceira menina graças e galanteios, que não eram mal acolhidos, foi-se deixando tomar de um verdadeiro amor por ela, ou pelo menos de um vivo desejo de a possuir.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. O Ermitão de Muquém. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16584 . Acesso em: 25 fev. 2026.