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#Elegias#Literatura Brasileira

Canto da Solidão

Por Bernardo Guimarães (1865)

Não vejo luzir no céu

Nenhum lume de conforto.

A tormenta desvairou-me,

Mastro e vela escalavrou-me,

E sem alento deixou-me

Sobre o elemento infiel;

Ouço já o bramir tredo

Das vagas contra o penedo

Onde irá - talvez bem cedo -

Soçobrar o meu batel.

No horizonte não lobrigo

Nem praia, nem lenho amigo,

Que me salve do perigo,

Nem fanal que me esclareça;

Só vejo as vagas rolando,

Pelas rochas soluçando,

E mil coriscos sulcando

A medonha treva espessa.

Voga, baixel sem ventura,

Pela túrbida planura,

Através da sombra escura,

Voga sem leme e sem norte;

Sem velas, fendido o mastro,

Nas vagas lançado o lastro,

E sem ver nos céus um astro,

Ai! que só te resta a morte!

Nada mais ambiciono,

Às vagas eu te abandono,

Como cavalo sem dono

Pelos campos a vagar;

Voga nesse pego insano,

Que nos roncos do oceano

Ouço a voz do desengano

Pavorosa a ribombar!

Voga, baixel foragido,

Voga sem rumo - perdido,

Pelas tormentas batido,

Sobre o elemento infiel;

Para ti não há bonança;

À toa, sem leme avança

Neste mar sem esperança,

Voga, voga, meu baixel!

No meu aniversário

Ao meu amigo o Sr. F.J. de Cerqueira

Hélas! hélas! mes années

Sur ma tête tombent fanées,

Et ne refleuriront jamais.

(Lamartine)

Não vês, amigo? - Lá desponta a aurora

Seus róseos véus nos montes desdobrando;

Traz ao mundo beleza, luz e vida,

Traz sorrisos e amor;

Foi esta qu'outro tempo

Meu berço bafejou, e as tenras pálpebras

Me abriu à luz da vida,

E vem hoje no circulo dos tempos

Marcar sorrindo o giro de meus anos.

Já vai bem longe a quadra da inocência,

Dos brincos e dos risos descuidos os;

Lá s'embrenham nas sombras do passado

Os da infância dourados horizontes.

Oh! feliz quadra! - então eu não sentia

Roçar-me pela fronte

A asa do tempo estragadora e rápida;

E este dia de envolta com os outros

Lá s'escoava desapercebido;

Ia-me a vida em sonhos prazenteiros,

Como ligeira brisa

Entre perfumes leda esvoaçando.

Mas hoje que caiu-me a venda amável!

Que as misérias da vida me ocultava,

Eu vejo com tristeza

O tempo sem piedade ir desfolhando

A flor dos anos meus;

Vai-se esgotando a urna do futuro

Sem do seio sair-lhe os dons sonhados

Na quadra em que a esperança nos embala

Com seu falaz sorriso.

Qual sombra vá, que passa

Sem vestígios deixar em seus caminhos,

Eu vou transpondo a arena da existência,

Vendo irem-se escoando uns após outros

Os meus estéreis dias,

Qual náufrago em rochedo solitário,

Vendo a seus pés quebrar-se uma por uma

As ondas com monótono bramido,

Ah! sem jamais no dorso lhe trazerem

O lenho salvador!

Amigo, o fatal sopro da descrença

Me roça às vezes n'alma, e a deixa nua,

E fria como a laj em do sepulcro;

Sim, tudo vai-se; sonhos de esperança,

Férvidas emoções, anelos puros,

Saudades, ilusões, amor e crenças,

Tudo, tudo me foge, tudo voa

Como nuvem de flores sobre as asas

De rábido tufão.

Onde vou? Para onde me arrebatam

Do tempo as ondas rápidas?

Por que ansioso corro a esse futuro,

Onde reinam as trevas da incerteza?

E se através de escuridão perene

Só temos de sulcar ignotos mares

De escolhos semeados,

Não é melhor abandonar o leme,

Cruzar no peito os braços,

E deixar nosso lenho errar às tontas,

Entregue às ondas da fatalidade?

.............................................................

.............................................................

Ah! tudo é incerteza, tudo sombras,

Tudo um sonhar confuso e nebuloso,

Em que se agita o espírito inquieto,

Até que um dia a plúmbea mão da morte

Nos venha despertar,

E os sombrios mistérios revelar-nos,

Que em seu escuro seio

Com férreo selo guarda a campa avara.

Visita à sepultura de meu irmão

A noite sempiterna

Que tu tão cedo vists,

Cruel, acerba e triste

Sequer da tua idade não te dera

Que lograsses a fresca primavera?

(Camões)

Não vês nessa colina solitária

Aquela ermida, que sozinha alveja

O esguio campanário aos céus erguendo,

Como garça, que em meio das campinas

Alça o colo de neve?

E junto a ela um tésco muro cinge

A pousada dos mortos nua e triste,

Onde, plantada em meio, a cruz se eleva,

A cruz, bússola santa e venerável

Que nas tormentas e vaivéns da vida

O porto indica da celeste pátria....

Nem moimento, nem piedosa letra

Vem aqui iludir a lei do olvido;

Nem árvore funérea aí sussurra,

Prestando pia sombra ao chão dos mortos;

Nada quebra no lúgubre recinto

A paz sinistra que rodeia os túmulos:

Ali reina sozinha

Na hedionda nudez calcando as campas

A implacável rainha dos sepulcros;

E só de quando em quando

Vento da soidão passa gemendo,

E levanta a poeira dos jazigos.

Aqui tristes lembranças dentro d'alma

Eu sinto que se acordam, como cinza,

Que o vento de entre os túmulos revolve;

Meu infeliz irmão, aqui me surges,

Como a imagem de um sonho esvaecido,

E no meu coração sinto ecoando,

Qual débil som de suspirosa aragem,

Tua voz querida a murmurar meu nome.

Pobre amigo! - no albor dos anos tenros,

Quando a esperança com donoso riso

Nos braços te afagava,

E desdobrava com brilhantes cores

O painel do futuro ante os teus olhos,

Eis que sob teus passos se abre súbito

O abismo do sepulcro....

E aquela fronte juvenil e pura,

Tão prenhe de futuro e d'esperança,

Aquela fronte que talvez sonhava

Ir no outro dia, - ó irrisão amarga!

(continua...)

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